Após as primeiras três horas de voo, o peso da decisão impulsiva começou a me atingir com força. Viajar sem meus remédios tinha sido uma idiotice movida por pressa e desespero — e agora meu corpo começava a cobrar o preço.
Meu ombro recém-operado latejava como se estivesse pegando fogo por dentro. A cada respirada mais funda, o incômodo se espalhava pelo braço inteiro. Eu tentava me manter calado, fingir que estava bem, mas a dor era mais forte que meu orgulho.
Gemia baixinho sem nem perceber, rangendo os dentes, mudando de posição a cada minuto na tentativa inútil de encontrar algum alívio.
Foi então que senti um leve toque no meu braço bom.
— Ei... — uma mulher, sentada do outro lado do corredor, me olhou com preocupação. — Desculpa me intrometer, mas... você tá com dor?
Assenti com a cabeça, engolindo em seco.
— Cirurgia recente — murmurei. — Esqueci os remédios. Foi tudo muito rápido.
Ela revirou a bolsa de mão e estendeu uma cartela com dois comprimidos.
— É só um analgésico comum, mas talvez ajude até você chegar. Tá com sorte de sentar do lado de uma farmacêutica.
Sorri com o canto da boca, aliviado por um segundo em meio ao caos interno.
— Obrigado... de verdade.
Tomei os comprimidos com o restinho de água da garrafinha do avião e fechei os olhos.
Consegui dormir um pouco, depois comi e fiquei assistindo um filme qualquer até pousar em Moscou. Assim que saí do avião senti mais um arrependimento por não ter arrumado uma mala. Estava um frio do caralho, tinha muita neve nas ruas e eu sequer fazia ideia de onde ficava aquele endereço.
Sai do aeroporto batendo queixos feito um idiota e entrei no primeiro táxi que vi. O motorista não sabia falar inglês e a gente ficava repetindo palavras um para o outro sem ter a menor ideia do que estava sendo dito.
Por fim entreguei a ele o papel com o endereço e decidi confiar.
Ele dirigiu sem parar por quase uma hora, atravessando ruas estreitas e cheias de neve, até que finalmente parou em frente a um prédio de cinco andares com a fachada descascada e janelas antigas. As paredes estavam manchadas pelo tempo, o letreiro da entrada pendia torto, e a rua ao redor parecia abandonada — silenciosa demais, como se o mundo tivesse parado ali há muito tempo.
Desci do carro com o coração acelerado e as mãos suando dentro do bolso do casaco. Antes que conseguisse me aproximar da porta, uma senhora passou por mim carregando duas sacolas de mercado, claramente pesadas demais pra ela. Sem pensar, segurei uma com meu braço bom.
— Спасибо — ela murmurou em russo, surpresa, enquanto eu a acompanhava escada acima até o terceiro andar. Só depois disso, respirei fundo e segui até o apartamento anotado no papel.
A porta de madeira clara tinha a pintura descascando nas bordas e um tapete velho escrito "Добро пожаловать" — bem-vindo.
Bati com os nós dos dedos, uma vez, duas... meu coração martelava no peito, minha perna batia nervosa contra o chão. Do lado de dentro, ouvi uma voz abafada em russo, talvez um "кто там?" — quem está aí?
A fechadura girou.
E então ela abriu.
Nina estava ali, parada, como se o tempo tivesse congelado ao nosso redor. Usava uma calça de moletom velha, e um moletom meu — um dos que ela adorava usar em casa, que nela parecia um vestido. O cabelo estava preso de qualquer jeito, e ela tinha uma colher de sorvete na boca, um pote na outra mão.
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Contato de emergência
RomanceNina tem apenas um contato em seu celular, salvo como "Emergência", embora não saiba a quem pertence. Após sofrer um acidente e acordar no hospital, ela finalmente conhece o misterioso dono do número. O que ela não esperava era que isso traria uma s...
