Nina

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Me sentei em uma cadeira luxuosa e desconfortável enquanto ele desaparecia no fundo da loja com a vendedora. O ambiente cheirava a couro caro e ego inflado. Depois de alguns minutos, comecei a balançar a perna, impaciente. Já fazia tempo demais para só uma jaqueta.

Quando ele finalmente apareceu, estava com aquele sorrisinho de canto que sempre precedia alguma coisa.

— Venha — disse, estendendo a mão pra mim.

— Aonde?

— Experimentar umas roupas.

— O quê? Que roupas?

— As que estão no provador.

— Eu não quero roupas.

— Eu andei por essa loja gigante por quase uma hora — ele cruzou os braços, fingindo indignação — escolhendo peças que achei que você fosse gostar. Então você vai experimentar sim.

Franzi o cenho, ainda um pouco desconfiada.

— Você estava escolhendo roupas... pra mim?

— Claro. Pensou que eu ia demorar esse tempo todo só por causa de uma jaqueta?

— Sim. Cem por cento sim.

Ele riu e estendeu a mão de novo.

— Levanta, teimosinha. Vai lá me fazer feliz um pouco.

Revirei os olhos, mas segurei a mão dele e me deixei guiar até o provador. Quando entrei, encontrei uma seleção inteira sobre o banco: calças, vestidos, blusas de tricô, casacos longos — tudo com a minha cara, meu estilo, minhas cores.

Suspirei baixinho, sem conseguir esconder o sorriso.

— Você presta muita atenção, né?

— Em tudo que é seu. — respondeu do lado de fora da cortina. — Agora experimenta. E sai desfilando que nem passarela de Paris.

— Você é ridículo.

— Mas um ridículo que sabe seu número de calça.

Tirei o moletom velho e comecei a experimentar a primeira peça: um vestido justo de tricô vinho, de mangas compridas, que se moldava no corpo como se tivesse sido feito sob medida.

— Já colocou alguma coisa? — ele perguntou do lado de fora, impaciente.

— Sim, mas você não vai ver até eu aprovar no espelho.

— Isso é uma tortura. Eu passei trinta minutos escolhendo essas roupas com uma mulher que falava russo, francês e provavelmente leu minha aura.

— Sua aura grita "cartão sem limite".

Ele riu, e eu experimentei mais duas peças: uma calça de cintura alta com uma blusa de gola alta branca, e depois um casaco oversized azul-marinho que me deixava parecendo saída de uma revista.

— Essa aqui tá bonita demais, acho que nem sou eu — murmurei olhando o espelho.

— Quero ver — ele insistiu, batendo levemente na divisória. — Anda, vai... desfila aí.

Abri a cortina devagar e ele estava encostado na parede com o braço bom cruzado e a tipoia pendurada. Os olhos dele percorreram meu corpo com tanta calma e concentração que quase me esqueci de respirar.

— Vai dizer que não pareço rica agora.

— Você parece minha mulher — disse com um sorriso preguiçoso. — Que por acaso vai deixar todo mundo babando quando sair desse provador.

— Você fala isso de qualquer jeito que eu esteja.

— Sim. Inclusive com o moletom rasgado e o tênis sobrevivente da guerra.

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