Enquanto Maeve descobre a adrenalina das pistas e Charles se encanta com o universo fashion, ambos aprendem a lidar com os desafios e sacrifícios de suas carreiras. Entre sessões de editoriais e voltas em alta velocidade, eles exploram suas diferenç...
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Charles estava sentado na minha cama, brincando com o Leo, quando entro pela porta. No mesmo instante, ele se levanta como um soldado em prontidão. Estendo a xícara de chá para ele, sento na cama e dou leves batidinhas no colchão ao meu lado. Ele se senta, e então me olha com aqueles olhos verdes mas sem o brilho de antes. Estava claro que ele tinha sofrido tanto quanto eu. E não digo isso só pelas mensagens. Estava no rosto dele, na expressão cansada, na forma como os ombros pareciam mais pesados do que da última vez que nos vimos.
— Eu sinto muito por ter demorado tanto tempo pra vir — ele diz, levantando a mão devagar na direção do meu rosto, mas para no meio do caminho, como se não soubesse se ainda tinha esse direito — Vai por mim, eu queria ter vindo muito antes, mas por conta da corrida, não consegui — Ele respira fundo, o olhar fixo no meu, cheio de urgência e arrependimento — Mas agora estou aqui. Pronto pra me explicar sobre tudo que aconteceu — Apenas concordo com a cabeça, em silêncio. Ainda não sei se estou pronta pra ouvir tudo... mas também não quero fugir disso.
O silêncio entre nós dura poucos segundos, mas parece uma eternidade. Charles segura a xícara com as duas mãos, talvez mais pra se manter firme do que por causa do chá em si. Eu espero. Não o pressiono, mas também não alivio. Se ele veio até aqui, precisa ter coragem de dizer o que ficou preso por tanto tempo. Ele respira fundo mais uma vez antes de começar.
— Aquela foto foi real. Mas não do jeito que pareceu. Foi tirada meses atrás, antes da gente... ser a gente — Ele fala devagar, como se pesasse cada palavra— A Giada, ela é parte do meu passado, Meave. E eu não escondi porque tinha algo a esconder, eu só achei que não importava. Que você e eu estávamos construindo algo novo, limpo, e que certas histórias antigas não precisavam ser contadas — Eu o encaro. Fico em silêncio, absorvendo. O coração aperta, mas não por raiva é mais como um lamento.
— Eu entendo que você não quis me machucar — respondo, por fim, minha voz baixa. — Mas às vezes o que a gente esconde machuca mais do que o que a gente conta — Ele fecha os olhos por um instante, como se estivesse sendo atingido por cada palavra.
— Eu sei. — Sua voz quase falha. — E quando vi que você tinha desaparecido... que não respondia mais... eu percebi o quanto eu errei. Não só por não ter dito, mas por ter demorado pra vir até você. Eu devia ter largado tudo — Charles se vira levemente em minha direção, o rosto mais próximo agora — Meave, você é tudo que eu não sabia que precisava. Você me trouxe uma paz que eu nunca encontrei em lugar nenhum. Nem nas pistas, nem nas vitórias. Só em você — Meus olhos ardem, eu não queria chorar. Não mais, mas as palavras dele são diferentes dessa vez. Carregam um cansaço, uma verdade que me atravessa.
— Eu não sei o que fazer com tudo isso, Charles. — Digo num sussurro. — Uma parte de mim quer te abraçar e fingir que nada aconteceu. Mas a outra ainda está ferida — Ele balança a cabeça lentamente.
— Então deixa eu ficar. Deixa eu consertar isso aos poucos. Eu não vim aqui pra te convencer em cinco minutos. Vim porque não posso imaginar seguir em frente sem, pelo menos, tentar — Por um momento, tudo parece parar. Nem Leo se move, deitado aos nossos pés. E no meio de tanta bagunça, o que fica é essa presença, ele ali, vulnerável, sincero, e eu tentando entender se ainda sei como confiar. Eu estendo a mão, devagar, e toco a dele.
— Fica, Charles — sussurro. Só isso. Simples. Doloroso. Necessário e, pela primeira vez em dias os olhos dele brilham, mesmo que só um pouco — Mas eu preciso que você me prometa que nunca mais vai esconder nada de mim. Mesmo que ache que não é importante, eu preciso que você fale — Ele concorda com a cabeça de forma rápida, quase desesperada, o que me faz soltar uma leve risada — Você deve estar exausto — comento, observando seus ombros ainda tensos. — Vou preparar algo pra você comer junto com o chá — Me levanto devagar e caminho em direção à porta, sentindo, pela primeira vez em muito tempo, um pequeno alívio no peito.
Charles estava deitado ao meu lado, com as mãos apoiadas na minha cintura, enquanto me ouvia comentar o quanto eu estava atolada de projetos na revista e sobre a proposta de uma marca parisiense, que me convidou para fazer uma campanha dos produtos deles. Por mais que o sentimento ainda estivesse apertado no meu peito, o que Charles me contou naquela noite parecia real. Verdadeiro. Porque, no fim das contas, não faria sentido continuar com ele se eu não confiasse. E, pela primeira vez, eu estava disposta a tentar de novo com a verdade entre nós.
— E você aceitou a campanha? — Charles pergunta, a voz baixa contra meu pescoço, os dedos traçando círculos suaves na minha cintura — O que eles querem que você faça? — pergunta, agora com mais interesse, como se quisesse fazer parte, mesmo sem entender muito sobre o meu mundo.
— Ainda não — respondo, girando um pouco o rosto para encará-lo. — É uma proposta incrível, mas eu não queria tomar nenhuma decisão no meio de tanta confusão — Ele assente, mas não tenta convencer, não elogia, não julga. Só ouve — É uma linha nova de skincare Eles querem que eu seja o rosto da campanha digital. Um trabalho de três semanas, sessões de fotos, eventos, entrevistas. E o principal visibilidade internacional — Charles sorri de leve. Aquele sorriso pequeno, torto, que sempre me desmonta.
— Isso é enorme, Meave. E você merece cada segundo disso — Me viro de lado, agora de frente pra ele. Coloco a mão sobre o peito dele, sentindo o ritmo calmo do coração.
— Eu não quero que a gente volte como se nada tivesse acontecido, Charles — Ele não recua. Não tenta justificar. Apenas balança a cabeça com firmeza.
— E não vai. Eu aprendi, da pior forma, que esconder o passado não protege ninguém. Só atrasa o inevitável — Ficamos em silêncio por um momento. Leo está enroscado aos nossos pés, respirando pesado. As luzes do apartamento estão apagadas, exceto pela iluminação suave vinda da janela Paris pulsando lá fora como um lembrete de que o mundo continua girando, mesmo quando o nosso parece parar.
— Você voltaria pra Paris, mesmo se eu precisasse de mais tempo? — pergunto, quase num sussurro — Charles franze o cenho, pensativo. Depois responde com calma.
— Eu iria pra qualquer lugar onde você estivesse. Mesmo que só pra te ver brilhar de longe —Fecho os olhos, tentando absorver o peso leve daquelas palavras. Não é uma promessa fantasiosa. Não é declaração de cinema. É só ele. Sincero. E isso, agora, é tudo que eu preciso.