47. Acumulus

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1. Cumulus: Corresponde à fase inicial da tempestade.

2. Draco não tem memórias.

3. Agora Desolation tem uma playlist criada pela autora, com as músicas que ela usou como inspiração enquanto escrevia a história. O link está fixado na minha biografia e no primeiro comentário deste capítulo.

***

Draco sonha.

Ele não estava acostumado a sonhar. Pelo menos, não com coisas boas. Quando as lembranças ruins conseguiam atravessar a proteção da poção contra sonhos, Draco geralmente se via parado na escuridão. No vazio, na verdade. Não conseguia andar, nem se mover, nem sequer falar, enquanto o pesadelo começava a se repetir. Normalmente, sua mãe estava a poucos passos dele — e havia muitas mãos tocando-a, rasgando suas roupas em pedaços, enquanto os olhos sem vida dela o encaravam. E Draco tentava alcançá-la, tentava gritar, fazer algum som sair de sua garganta; tentava chegar até ela, sair dali... mas nunca conseguia. Nunca. E o pesadelo sempre terminava da mesma forma:

Sua mãe se despedaçando na frente dele.

Às vezes, quem costumava estar no centro era Eric. Outros, seu pai; ou Pansy; ou Theo. Cada pesadelo era tão sufocante, tão terrível. Embora não mais do que ele tinha quando o próprio Draco era o único que estava diante deles, varinha em sua têmpora e uma voz sibilante ao lado de seu ouvido ordenando que ele os matasse.

Draco sempre acabava fazendo isso.

Mas naquele instante... Naquele instante Draco sonhava. Não com escuridão, nem mãos, nem sangue. Draco sonha com um homem deitado na areia, com o rosto voltado para o sol e as mãos atrás da cabeça. Draco tentava olhar para ele, mas por mais que seus olhos estejam fixos nele, ele não consegue entender quem era, ou realmente ver suas feições. Ao longe, o som das ondas batendo contra as rochas e a costa, e algumas gaivotas passavam de um lado para o outro.

— Você gosta do mar? — O homem perguntou sem abrir os olhos. Draco só sabia que não conseguia parar de olhar para ele.

— Nunca passei muito tempo em nenhuma costa, meus pais não gostavam. Eles não gostavam muito do sol, — ele se viu respondendo sem pensar muito, como se o conhecesse. — Eu não poderia te dizer.

O estranho se virou, e talvez fosse um pesadelo, afinal, porque por mais que Draco quisesse se concentrar, delinear suas feições e reconhecê-lo, ele não podia.

— Talvez devêssemos ficar e morar aqui. Para sempre, — respondeu o homem. — Vamos comprar uma casa perto da praia e ver o mar todos os dias. Então você pode descobrir se gosta.

Por alguma razão, Draco podia sentir seus pés ficando molhados, como se a água os tivesse alcançado. Ou talvez a areia estivesse molhada. O cenário chamou sua atenção, e até mesmo seu estômago revirou de felicidade com o pensamento.

— Podemos? — Draco perguntou de volta. — E acho que nossa casa estaria uma bagunça. Que brigaríamos porque você nunca limparia nada.

— É claro. E provavelmente te deixaria louco se eu entrasse na sala com meus sapatos sujos.

— Oh, por Merlin, eu te mataria.

Uma risada. Draco queria engarrafar aquela risada e beber como Uísque de Fogo em seus piores dias.

Mesmo que fosse um sonho.

— Eu te ensinaria a usar a TV, — continuou o homem depois de se acalmar. — E a dirigir.

— Você acabaria me matando com estresse, tenho certeza disso.

— Talvez, mas ficaríamos felizes.

Desolation | DrarryOnde histórias criam vida. Descubra agora