6. Agora eu tenho sogra

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Minha mãe estava horrível. Como ela conseguia se vestir tão mal permanecia um mistério para mim. Mesmo quando trabalhava no Fórum, que eu me lembre, ela também era perita em não combinar as estampas, mas naquela época tínhamos em casa a ajuda de Odete, uma moça esforçada que limpava, lavava, passava e ainda cuidava das roupas de mamãe – e só hoje eu entendo que era a parte mais difícil de seu trabalho. Odete ficou lá em casa por anos, até completar 29 e se casar. Ela já estava inclusive formada na faculdade de Pedagogia. Por causa dela, Dona Amaralina não passou vexame em seu trabalho por tanto tempo.

Mas naquele dia, sem a ajuda preciosa de Odete, minha mãe estava feia demais. O problema era como dizer a ela. Provavelmente eu iria disfarçar e acabaria não falando nada, como sempre. Só precisava fazê-la tirar aquela flor verde-musgo do cabelo.

— Como estou? – perguntou.

— Ótima – eu menti.

Acho que preferia manter a sanidade a brigar com mamãe, porque ela não daria o braço a torcer que estava errada. Ela nunca dava. Para ela, tudo o que fazia era certo, suas escolhas eram as melhores e, se uma pessoa pensasse diferente, não era correta. Mas com ela ali, na minha frente, eu não conseguia nem dizer a verdade sobre o seu conjunto saia-blusa tudo da mesma cor de grama e com apliques em lantejoulas. Ela deve ter comprado naquela loja da amiga e eu cheguei a sentir pena por uma fração de segundos.

Max entrou em casa cinco minutos depois, na hora prevista. Não me lembrava de nenhuma outra vez em que ele tivesse sido pontual como naquele dia. Fez uma careta quando viu a minha mãe lá e chegou a insinuar que seria bom vê-la novamente outro dia, mas como ela é muito ingênua – ou se faz de ingênua, o que daria no mesmo –, logo nos seguiu quando saímos do apartamento.

Eu estava apreensiva. "Sogra" era um palavrão, quase todas as minhas amigas concordavam com isso. A Catarina já tinha casado; aliás, era a única casada do nosso grupo de amigas, e sempre me contava as histórias terríveis sobre sua sogra. O sogro quase sempre é coadjuvante, mas eu não estava esperando ser bem tratada. Bom, pela primeira vez eu poderia chamá-lo de namorado de verdade e, para ser sincera, eu não sei se me sentia feliz com tudo aquilo.

Max morava em uma casa de bairro nobre, dentro de um condomínio fechado. A casa tinha enormes janelas de vidro com cortinas que encobriam o interior. Antes mesmo de colocar a chave para abrir a porta, ela se abriu. E eis que surge de lá de dentro uma mulher... que eu não poderia imaginar... que era a minha sogra, meu Deus. Ela era deslumbrante.

— Blanda! Finalmente nos conhecemos! – disse Dona Cremilda, com um sorriso aparentemente sincero.

— Oi, Dona Cremilda. Prazer em conhecer a senhora. Ah, essa é a minha mãe, Amaralina.

— Pode me chamar de Lina – disse mamãe como quem fala com sua amiga de infância. Dona Cremilda não pareceu estranhar o comportamento dela, abraçou minha mãe e disse que era um prazer receber nós duas em sua casa.

Logo que entramos, avistamos Seu José sentado em uma poltrona próxima à janela, com um livro nas mãos, tão atento à história que não notou nossa chegada. Dona Cremilda chamou o marido e ele pediu desculpas por não ter notado que a campainha havia tocado.

— Quando eu começo a ler, esqueço da hora. É muito bom, não é? – comentou comigo, em tom amigável. Eu concordei e ele me abraçou, depois disse que era um prazer receber a namorada do filho pela primeira vez em sua casa. Achei estranho ouvir da boca do meu sogro as palavras "a namorada do meu filho".

Nós nos sentamos no sofá e a televisão estava desligada. Dona Cremilda puxou a conversa perguntando por que eu nunca tinha ido lá, já que ela queria há tempos me conhecer. Eu não soube se seria correto dizer que o seu filho parecia esconder a família de mim – ou me esconder da família, o que seria pior –, então falei sobre a correria da vida e aquelas coisas todas que dizemos quando estamos sem jeito.

9 Minutos com BlandaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora