11. Que talento!

287 36 3
                                        

Deus deve ser um cara legal. Não aqueles legais sem graça, mas alguém muito interessante, com quem poderíamos passar algumas horas conversando. Não acho que tenha uma longa barba branca, mas uma barba rala e malfeita e que gosta de usar boné com a aba virada para trás. Descolado, deve preferir camisas floridas com cores fortes e bermudões com bolsos laterais. Tem um sorriso gostoso, é engraçado, divertido, gente boa e tem como passatempo preferido brincar com seu enorme tabuleiro e bonequinhos parecidos com Playmobil da minha infância. Passa o dia lá, mexendo as peças, tirando umas e colocando outras. E eu sou, com certeza, um desses bonecos. Ele deve se divertir à beça com minha vida.

Tudo bem que foi sacanagem colocar aquela ruga imensa embaixo do meu olho, mas não nego que até eu me divertiria se pudesse espiar uma mulher no momento de uma descoberta como essa. No fundo, Deus não faz nada por mal, mas nós mesmos nos atrapalhamos aqui na Terra. Não sei se nos outros planetas os seres verdes, azuis e de dedos vermelhos são assim como nós, mas os humanos são um bocado atrapalhados. Transformamos um probleminha em um problemão e somos capazes de fazer uma novela com uma única cena.

Quando eu era menor, mamãe não fazia questão de sentar para conversar comigo e com Deus. Sabe aquelas conversas de amigos? Não, porque o Poderoso parecia um inquisidor. Tinha medo de Deus, para falar a verdade. Ela me mandava confessar os pecados com o padre e eu, no alto dos meus oito anos, dizia que tinha vergonha de contar para "aquele homem" as coisas que eu fazia.

Certo dia, fiquei doente. Fui internada com anemia. Eu acho que era anemia, porque tive de comer bife de fígado durante um tempão e até hoje mamãe acha que preciso. Meu pai segurou na minha mão e disse para eu pedir ao Papai do Céu para ficar boa. Mas se o Poderoso era bravo, eu não poderia chegar na maior intimidade e pedir uma coisa séria daquelas. Só que meu pai me mostrou que eu podia, era só falar a verdade sobre os sentimentos.

Ele deve mover as peças de seu imenso e infinito tabuleiro precisamente, mas pode gostar do bonequinho que me representa lá no céu, considerando que não passo um dia sem acontecimentos para contar. Queria saber como vai ficar a bonequinha Blanda de vestido de noiva.

**********

Depois que chegamos do almoço no restaurante japonês, Max quis ir para a casa dele dormir. Sempre achei estranho esse hábito de dormir tanto, mas não sou nenhum exemplo para criticar os outros. Quando ele foi embora, fui remexer nos armários e nas gavetas, com esperança de encontrar algo útil para a criação de novas telas.

Encontrei pincéis duros, muitas tintas velhas e uma tela com um furo bem no meio, parecido com a unha de um gato. Nem desconfiei quem fez a arte. Como era peça única da casa, resolvi que poderia ser importante para eu treinar. Peguei o material e cheguei à conclusão de que mesmo com muita boa vontade, eu não poderia chegar longe. E para aquecer, resolvi incrementar a tela com materiais inusitados.

Fiz um desenho de uma grande pata, já que o rasgo das unhas estava lá. Ao redor, tintas coloridas e misturadas do que consegui recuperar no meu material. Para completar, peguei o resto da farinha de rosca que estava na cozinha e cobri a pata. Ficou parecendo um animal fofinho, com cheiro de pão. Definitivamente, se aquilo era arte e eu conseguisse vender aquele quadro, eu poderia rasgar meu diploma de Direito. Bom, ele nunca tinha servido para muita coisa mesmo.

Passei tanto tempo em cima daquela pseudo-obra que quando olhei para o relógio já era hora de estar na cama. Nunca gostei de me sentir uma velha que tem hora para tudo, como se o estômago tivesse um relógio e depois de certa hora não recebesse mais comida e a cama pudesse me ejetar se eu chegasse tarde demais para dormir. Mas estava tarde de verdade. Decidi não jantar, porque prefiro dormir sem nada na barriga a acordar com azia. E essa fogueira interna não tem nada de erótica.

Antes de entrar no quarto, notei a expressão desconfiada de Freddy, que olhava a tela com a pata. De repente o meu companheiro podia pensar que era coautor daquela porcaria, mas eu não me importava, porque ele não poderia contar para ninguém que a ideia, na verdade, tinha sido dele. Antes de dormir eu pensei em Deus mais uma vez. No meu pensamento, Ele mostrou o polegar pra mim quando eu pedi que tudo desse certo para a exposição, porque aquela era uma oportunidade importante. Deve ter sido um sinal positivo, mas Ele não me contou que a semana ia ser um tanto quanto complicada. Ainda bem, porque senão eu nem teria me levantado da cama no dia seguinte.

**********

Não precisei do despertador na segunda-feira. É uma sensação incrível ser acordada por um agradável telefonema de uma mulher de voz fina que vende assinatura de revista. Eu queria dizer "Olha, minha senhora, ultimamente só leio revista quando espero minha vez no dentista", mas para evitar acumular muitas culpas na minha lista, eu disse "Bom-dia".

— Olha, desculpa, mas... Como é seu nome mesmo?

— Maricreusina, senhora.

Não sei que pai ou mãe pode colocar um nome desses numa filha. Eu mentiria. Sério, eu mentiria se meu nome fosse aquele. É feio demais. Eu diria só Maria, que é bonito, ou diria Mari, ou não diria nada, inventaria um nome completamente diferente, porque as pessoas não saberiam mesmo. Mas depois de ela me dizer que se chamava Maricreusina, como é que eu poderia me concentrar em despachar o telefonema sem antes dar risada? Pode ser tática para prender a nossa atenção.

— Olha, tá... tudo bem, moça. Mas eu não quero assinatura nenhuma e de revista nenhuma. Não quero fazer você perder o seu tempo.

— É um prazer atendê-la, senhora – ela respondeu.

Que mulher idiota.

— Ô, filhinha, eu estou desempregada, não tenho dinheiro pra nada, como vou assinar uma revista que fala da vida dos outros? Não é que eu não gosto, você entende, Mari... moça... Então, eu gosto, mas não tenho dinheiro por enquanto.

— Nós parcelamos a sua compra em até dez vezes sem juros no cartão.

— Piquei o meu cartão em mil pedacinhos porque estava sem dinheiro para acumular mais dívidas. Não vai dar – tentei mais uma vez.

— Fazemos em boleto bancário.

— Mas, criatura, eu vou ter que pagar o boleto bancário. Eu não tenho dinheiro, você não entendeu? Olha, não tem emprego pra mim aí onde você trabalha?

— Desculpe, senhora, mas não entendi.

— Emprego. Olha, posso te mandar meu currículo? Escuta... Eu já fiz curso de corte e costura. Pode não ajudar muito aí, mas significa que eu sou uma pessoa multitarefa, não é mesmo? Ainda sou advogada, tenho diploma e tudo, embora não consiga nenhum emprego decente. Já pintei muitos quadros e atualmente estou tentando fazer uma mostra completa. Temo que seja um fracasso, mas não vou desistir. Isso também prova que sou persistente e decidida. E por fim, eu não tenho dinheiro, mas não fico gastando em porcarias, assim como assinatura de revistas de fofoca, o que prova que eu sou responsável. Sou a funcionária perfeita, ideal, capaz, maravilhosa. Posso mandar meu currículo?

Quando eu terminei de falar, só ouvi um rápido "Boa-tarde, senhora, desculpe incomodá-la" e em seguida o barulho do "TU, TU". Descobri a chave do sucesso: como despistar o telemarketing.

9 Minutos com BlandaOnde histórias criam vida. Descubra agora