9. O quê? Uma ruga?

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Queridas e queridos!

Obrigada pelos comentários e pelo carinho. Por favor, continuem escrevendo. Esse retorno é muito importante e gratificante.

Esse é o segundo capítulo de hoje. É meu aniversário e é meu presente para vocês.

Amanhã tem mais! :-)

Com amor,

Fernanda França.

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Coloquei o despertador para me acordar no domingo porque sentia que precisava disciplinar a minha rotina. Tudo bem que eu levantei quarenta e cinco minutos depois. Apertar o botãozinho do relógio cinco vezes não estava nem perto do meu recorde e não me senti culpada. Levantei e decidi que aquele seria um dia produtivo. Engraçado esse negócio da mente: quando decidimos que o dia vai ser bom, ele é ótimo. Mas o duro é acreditar que ele pode ser bom com tanta coisa para resolver. Mesmo assim, apostei na produtividade.

Às vezes tenho vontade de me entupir de bacon no café da manhã ou qualquer outra coisa bastante gordurosa e deliciosa, porque a ideia de pegar um iogurte light, desnatado e com fibras não é das mais agradáveis. Então tomei só água, assim poderia abusar um pouco no almoço. Desde aquele dia em que tentei experimentar diversas calças que não serviram, prestei mais atenção à minha alimentação, mas não adianta muito. Toda mulher em regime é insuportável e, se eu estava em crise, era melhor deixar essa coisa de ingerir alface para depois. Faltava apenas uma semana para a abertura da minha exposição. O detalhe é que eu não tinha nada para apresentar lá.

O domingo serviria para ver o estado em que meu material estava, porque na segunda teria que correr atrás de tintas, pincéis e telas. Fui ao banheiro para escovar os dentes, lavar o rosto e começar o dia bem animada. Bom, eu não sabia que esse estado mental mudaria em tão pouco tempo.

Joguei água na cara umas três vezes antes de ter certeza daquela aberração. Uma ruga bem embaixo do meu olho direito. Sim, eu vi uma ruga horrorosa que não estava aqui no dia anterior. Rugas nascem assim, da noite para o dia? Rugas nascem em mulheres jovens? Mas ela não estava ali, ela não era minha e eu não a queria. Pronto.

Mas estava. E não era uma linha simples, apagada. Era uma ruga forte e marcante bem onde eu já tenho uma olheira. Não dava para conciliar ruga com olheira. Demais para uma mulher só. Passei a mão e estiquei a pele e, como em um milagre, a ruga desapareceu. Mas foi só soltar a mão e lá estava ela. Vai ver é por isso que existem tantos cirurgiões plásticos por aí. Deve ser um troço danado de bom acordar com a cara sem imperfeições.

Nunca fui muito ligada em cremes ou experimentos milagrosos para mudar meu rosto ou corpo. A verdade é que tentei me acostumar comigo mesma e convencer os outros de que eu era mais interessante do que bonita. Inteligente, talvez. Um pouco contraditório, porque se eu fosse mesmo inteligente, não estaria desempregada nem teria aceitado um convite para uma exposição com quadros que nem ao menos existiam. Mas fazer tipo de intelectual me ajudou por um tempo, para eu não me sentir a pior de todas. Pelo menos a turma poderia me ver como a nerd. Até porque é melhor ser chamada de nerd do que de feiosa.

Nos últimos meses, embora Max não tivesse me falado muitas vezes que eu era bonita, eu me sentia melhor do que alguns anos antes. Quando saíamos juntos, eu percebia que ele ficava de olho nos rapazes que me olhavam. Até porque a verdade é que o Universo deve ter uma lei que facilite a paquera para mulheres acompanhadas. Quando eu estava sozinha, era assim que eu continuava. Quando Max aparecia, eu poderia até escolher com quem ficar.

E não é que posso dizer que pelo menos o Max participou do pedaço da minha vida em que eu comecei a me sentir mais bonita? Por isso talvez eu sempre tenha dito que esse lance de idade é pura bobagem, porque, quanto mais velha ficamos, temos mais experiência e continuamos lindas (por favor, eu quero acreditar nisso).

Eu dizia esse monte de bobagens porque nunca tinha visto uma ruga no meu olho. O pior foi esperar, porque no dia seguinte o outro olho também poderia ter uma irmã gêmea daquela deformação. Resolvi fazer umas ginásticas faciais em frente ao espelho do banheiro e descobri que a minha gengiva era estranha. Não sei dizer bem como, mas era estranha.

Eu me sentei no meu sofá branco, notei que Freddy tinha feito um buraco com suas unhas em uma das almofadas e acabei optando pelo mais simples: virei a almofada. A parte esburacada ficou para baixo e eu ganhei uma almofada levemente amarelada na parte de cima. A cor era interessante, quase aquele tom branco-sujeira das meias de Max.

Eu sei que é uma atitude infantil, mas naquela hora me deu vontade de chorar. Não sei se porque eu estava pronta para começar uma nova etapa na minha vida e sentia medo, ou porque minha mãe planejava um casamento com o meu namorado sendo que ele mesmo nunca tinha me dito que queria se casar comigo ou pelo simples fato de eu ter encontrado a primeira ruga no meu rosto. Acho que era por tudo aquilo junto, mas o último detalhe fazia toda a diferença.

**********

Max chegou de repente. Já devia ser mais de meio-dia, porque ele perguntou se eu tinha feito almoço, antes mesmo de me dar um beijo de "oi". É claro que não tinha comida e eu tive uma vontade imensa de soltar palavrões, mas lembrei que "isso só faz mal a mim mesma" e aquele monte de histórias que ouvimos por aí. Eu ainda estava no sofá e esperei ele chegar perto de mim.

— Quer almoçar fora? – ele perguntou.

Juro que fiquei atônita. Para falar a verdade, eu não esperava que Max pudesse ser gentil naquela hora. Eu estava tão magoada com ele, com tudo e com todos, que não esperava nenhuma atitude boa de ninguém.

— Ué, o que aconteceu com o sofá?

Demos risada. Foi até engraçada a cena de os dois olhando para aquela almofada amarela, bem no meio do sofá de que eu tanto gostava. Eu apontei para os pés dele, que entendeu a piada. Em um minuto, estávamos rindo tanto, que caímos no chão. Então Max me beijou. Fazia muito tempo eu não sentia no beijo dele um gosto assim tão bom e leve.

— O convite para almoçar fora continua valendo?

— Só se for agora. Você tem nove minutos para se trocar – ele disse.

— Fica frio, isso é tempo pra caramba. Dá até para tirar um cochilo – eu brinquei. Coloquei uma saia jeans, uma camiseta com um coração estampado em cor-de-rosa e uma sandália da mesma cor. Passei batom e saí do quarto minutos depois.

— Bom, bom. Sete minutos. Mas por que esse batom, posso saber? Desse jeito, eu não posso te beijar. – Dei risada e saí na frente. Max bateu a porta e seguimos para o melhor restaurante japonês da cidade, onde teríamos o papo mais agradável do que qualquer um dos que havíamos tido desde o começo do namoro.

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