7. É ele, é ele!

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— Tereza, sou eu, a Blanda. Você está muito ocupada agora?

— Não, ainda são onze da noite e é cedo para uma balada. Estou me arrumando para sair. Mas você não estava na casa de seus sogros?

— Estava, depois eu te conto. Posso sair com você? – eu perguntei, sem cerimônias. Tereza não me negou, como jamais me negava um pedido de ajuda, e ela sabia quando eu pedia socorro. Ligamos para Catarina, para ver se ela queria ir conosco, mas o marido estava trabalhando ("plantão, sabem como é...") e ficaria para uma próxima oportunidade.

Aproveitei o táxi e fui para a casa de Tereza. De lá, sairíamos em seu carro. Teca trocava de automóvel a cada dois anos, no máximo. Ela morava com os pais, que faziam todas as suas vontades e o dinheiro ganho com o trabalho como estilista em uma loja de grife era guardado para luxos. Os carros novos estavam no topo da lista.

Quando cheguei à sua casa, encontrei a nostalgia. Eu me lembrei de quando éramos mais novas e nos preparávamos para os bailes na rua, de quando ficávamos horas com uma escova e um secador de cabelos tentando alisar nossas madeixas, de quando dormíamos uma na casa da outra e de todos os segredos que compartilhamos ao longo de tantos anos.

Tereza era uma amiga especial porque entendia os meus sumiços e as minhas crises. Passei meio ano sem nem telefonar, mas vez ou outra ela mandava um e-mail perguntando se eu estava bem. Então eu respondia sobre a correria da vida, os problemas, as contas, mas que estava bem e feliz. Ela sempre me dizia "se está feliz, é o mais importante, mas se precisar conversar, pode ligar a qualquer hora". Acho que Teca sempre soube quando eu não estava realmente bem.

Subi as escadas do sobrado e procurei a primeira porta à esquerda, depois que sua mãe me disse que minha amiga estaria lá, em seu quarto. Eu gostava dos pais de Teca, eram sérios, mas boas pessoas. Bem em frente estava o quarto de seu irmão, mas ele pouco ia lá. Na verdade, Tiago já era casado. Teca tinha dois sobrinhos, duas crianças lindas e que ela adorava. Mas mesmo Tiago já tinha sido alvo de nossas palhaçadas na infância e sempre foi calmo e participativo. Havia vezes em que ele e a namorada (que hoje é esposa) nos levavam ao shopping e nos largavam lá, mas sob supervisão. Começamos a sair sozinhas desse jeito, sempre com os olhares atentos de Tiago, aos 12 ou 13 anos. Íamos ao cinema, à livraria e principalmente à praça de alimentação onde os garotos e as garotas se encontravam, sentados em banquinhos de madeira. Teca sempre foi a mais paquerada da turma.

Naquela época também realizávamos bailinhos na rua de casa e nossos melhores amigos eram o primo da Teca, Guilherme, além da Catarina, Talita, Neco e Bola. Guilherme continuou presente porque era da família da Teca, a Catarina tinha casado, mas sempre falava conosco. Os outros tinham desaparecido, como muitas vezes acontece com um grupo de amigos.

Soube que outros colegas daquela rua se mudaram, como o Marcos, que foi morar em outra cidade com a mãe, depois que os pais se separaram, quando tínhamos uns 18 anos. Ou a Daniele, que engravidou do Pedro quando ambos tinham 17. Nessa época nos falávamos um pouco, mas eles sumiram e foram morar no sítio dos tios da Dani. Ficaram sumidos alguns anos, como se fosse um pecado ter filhos. Aquilo eu nunca entendi.

Mesmo com a beleza estonteante de Catarina, com aqueles olhos brilhantes e corpo de modelo, Teca era uma das mais desejadas. Vai ver porque aos 16 anos nunca tinha beijado ninguém (mas eu também não e nem por isso era paquerada) ou porque sua simpatia chamava a atenção em qualquer ambiente. Teca e aquelas sardas em seu rosto, que foram diminuindo com o tempo, eram a magia de toda festa. Mas eu não me importava, estava acostumada a ser a amiga de todos, a legal, a confidente e com os ouvidos mais dispostos a saber sobre as crises amorosas dos amigos.

A verdade é que eu me importava, sim, com os rótulos, mesmo sem demonstrar. Só sabia que ali estava a minha turma e eu me sentia mais confiante com eles do que quando estava sozinha e era caçoada. Como havia cansado de ser a piada, eu me tornei parte de um grupo de amigos e, nas horas vagas, pintava os meus quadros, que quase sempre serviam para mamãe presentear a família nas festas de Natal. Ela nunca me pagou um curso de pintura, como eu pedia, porque dizia que quando crescesse eu seria advogada. "Pintura não é profissão, é uma diversão e até que, para isso, você é bem talentosa." Não devia ter dado ouvidos à mamãe, porque larguei a minha paixão durante quase todos os anos de faculdade – exceto vez ou outra quando eu me trancava no quarto e ela pensava que eu estava decorando o código civil, enquanto estava na verdade entre telas e tintas.

9 Minutos com BlandaOnde histórias criam vida. Descubra agora