15. Acabou a água

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Passei dias sem colocar o rosto para fora do apartamento, mas o esforço foi recompensado. Foram quinze quadros pintados, de tamanhos diversos e cada um representando um sentimento diferente. Eram meus próprios momentos, mas ninguém precisava saber disso e eu poderia muito bem dizer que foi um repente artístico, apenas uma criação baseada na ficção. No sábado eu estava com o corpo dolorido, uma ligeira dor de cabeça e a sensação de dever cumprido. Não dormi direito, acordei muito cedo e fui retocar umas telas, terminar as duas últimas e quando Max chegou em casa já estava anoitecendo.

- Acho melhor você começar a se aprontar, Blanda. Sei que as mulheres perdem tempo para trocar de roupa.

- Não é perder tempo, é investir na produção de um visual bonito. Vou tomar banho e me visto em meia hora - eu disse, mas já prevendo que poderia gastar uns cinquenta minutos. Não estávamos atrasados, porque combinamos oito horas na butique, já que os convidados começariam a chegar oito e meia.

- Max... Ei, Max, venha aqui! Não consigo abrir o chuveiro!

Porém, o chuveiro estava aberto, mas nem dele, nem de nenhum outro lugar saía água. Liguei para a administração do prédio, mas a mocinha me disse que o problema seria resolvido em no máximo vinte e quatro horas. Como é? Eu não tinha nem quatro horas. O decadente sistema de abastecimento do prédio possuía uma bomba para levar água para a caixa e quando a bomba tinha problema não havia água. Eu pude constatar isso bem no dia do vernissage.

Não dava tempo de ir até a casa do Max e voltar, porque estávamos muito mais perto do local da exposição. Não sabia o que fazer e nem para um amigo do prédio poderia pedir ajuda. Para a mamãe, nem pensar. Era capaz de ela opinar na roupa e querer chegar comigo ao lugar, só para dizer a todos "Esta é a minha filha", mesmo que ela nunca tenha acreditado na minha arte. E eu precisava tomar banho. Estava suja de tinta, com o cabelo oleoso e nojento, me sentindo fedida e era capaz de deixar um rastro de odor enquanto caminhasse, ao contrário das propagandas de perfume, porque aí todos sentiriam a minha chegada e sairiam correndo.

Foi então que Max teve uma ideia. Como eu estava sem nenhuma, qualquer sugestão era bem-vinda.

- Vamos para um motel.

- O quê? Eu não vou para um motel agora! Max, eu preciso tomar banho para ir para a minha exposição. É minha, entende? Preciso estar lá na hora e, para isso, preciso tomar banho.

- Você vai tomar banho no motel. Não discuta comigo, porque não temos tempo para discutir - e então ele disse para eu pegar tudo o que era importante para eu me trocar e fomos ao bendito motel que ficava a duas quadras do prédio, o Chantilly.

Entramos com o carro e me lembrei de nunca ter estado ali. Não gosto de motéis, eu acho meio estranho saber que entro em um local para fazer o que todos sabem que se faz lá dentro, sendo que minutos antes outro casal pode ter estado no mesmo quarto pelo mesmo motivo e assim sucessivamente, sem eu ter certeza se ao menos o lençol da cama foi trocado. Descobri que sou neurótica.

- Blandinha, relaxe. Você só vai tomar banho aí. Não precisa nem tocar em nada, entre de chinelo e aí você fica feliz, mas toma banho.

Enquanto separava uma calça preta e uma blusa preta totalmente sem criatividade, dei uma olhada no quarto mais barato pelo qual havíamos pagado. A persiana era azul, com o tecido verde por cima. Não combinava, mas era engraçado. No chão, à beira da cama, um tapete de peixinhos. Parecia que eles queriam criar um clima de fundo do mar. O único detalhe que lembrava um motel era a cama redonda. Abri o sabonete e quando joguei o papel no lixo fiquei brava com Max.

9 Minutos com BlandaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora