17. O que é certo

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Passei o domingo em casa, bebi vinho demais e, como não estou acostumada, dormi boa parte do dia. O despertador estava desligado, mas o telefone tocou na segunda-feira e só podia ser o Max. Para ser bem sincera comigo mesma, eu não estava com vontade de falar com ninguém e isso incluía o Max. Só que ele me ligou empolgado porque a mãe dele pretendia visitar mais um espaço para casamento, já havia marcado hora e, embora não tenha convidado nenhum de nós dois para ir junto, ele ouviu e resolveu me contar.

— De qualquer forma, não posso ir, Max, tenho um compromisso.

— Com quem?

— Não é com quem, é com o quê.

— Você anda se relacionando com coisas?

— Estou caída no chão de tanto rir – ironizei.

— Levante-se, minha boneca, e me conte que coisa estranha é essa que vai tomar o seu tempo.

— Eu preciso fazer o que é certo. Você quer vir comigo para descobrir?

Mas ele não respondeu na hora. Gaguejou, pigarreou, disse "hum, hum" e eu logo percebi que ele não iria. Ele nunca me acompanhava e eu imaginava que o empecilho do meu namorado devia ser apenas um: preguiça.

— Tudo bem, Max, você não vai, mas também não vou contar o que irei fazer durante todo o dia. Qual é a desculpa dessa vez?

— Não é desculpa, eu vou procurar trabalho.

— Então não é desculpa, é milagre.

— Você fala isso só porque eu não vou te acompanhar, né?

— Não. Boa sorte. Nos falamos mais tarde. Tchau, Max.

Assim, sem beijo, sem nada. Porque às vezes eu quem decidia não ser legal. Levantei da cama e deixei Freddy por lá, esticado em cima do edredom. Era dia de fazer o que era certo. A conversa com o meu pai me fez pensar em muitos pontos da minha vida, em quanto eu era negligente com meus sentimentos e com meus pensamentos. Percebi que dava mais valor ao que os outros me diziam do que àquilo que eu realmente pensava e sentia. E quem é a pessoa mais importante da minha vida? Sou eu. E eu merecia um pouco de respeito, poxa.

Tomei um copo de leite, ainda de pijamas, e depois troquei de roupa. Freddy largou a tranquilidade da cama e veio comigo até a saída. Quase pude escutá-lo dizer "Boa sorte, mamãe" quando ele soltou um miado antes de eu fechar a porta.

Eu tinha dois assuntos para resolver sozinha. Primeiro fui à casa de minha mãe. Não entrei com minha chave, mas toquei a campainha e lá estava ela, fazendo a sua maquiagem matinal. Elogiou a exposição, contou que conheceu algumas pessoas e disse, por fim, que os quadros eram bonitos e que devia finalmente admitir que eu era uma artista. Grande coisa para se admitir.

Não demorei. Disse que eu já sabia de tudo e que ela não precisava ter escondido de mim durante tantos anos que meu pai não era o homem ruim que eu pensava que fosse. Eu não tinha nada a ver com o problema deles, mas ela mentiu. E aquela mentira tinha sido tão bem plantada que virou verdade. Eu só fui à casa dela contar que eu sabia qual era a verdadeira história. Não queria mais ser enganada.

Antes de sair, eu disse para ela responder o que quisesse, mas ela não disse nada, então eu saí. Não tinha deixado de amar a minha mãe, apenas precisava de um tempo. Então fui resolver o meu segundo assunto.

Como havia decidido ser pintora e não tinha mais medo de ser advogada, entrei com duas ações contra a loja Tinta & Talento na Justiça Estadual. Um processo na vara cível por danos morais, já que aquela mal-educada me fez passar um vexame com plateia em sua loja e um processo criminal por calúnia, considerando que a tal Manuela me acusou de um crime que eu não cometi. O mais interessante é que a minha advogada seria eu mesma e eu estava disposta a ganhar por mim.

**********

Quando voltava para casa, Max me telefonou no celular, que estava com a bateria fraca. A bateria de um celular deveria ser potente a ponto de não precisar ser carregada nunca. Quando acabasse, dali a uns cinco anos, mais ou menos, nós a jogaríamos fora e ela seria reciclada. Ainda não inventaram, mas um dia podem inventar. Hoje em dia inventam tudo.

— Ei, Blanda, minha mãe me disse que acertou o espaço do casamento.

— Como assim acertou o espaço para o nosso casamento?

— Não fique brava. Lembra que é presente dela?

— Mas nós nem vimos! Bom, deixa pra lá. Depois vamos lá conhecer o tal lugar. Você encontrou algum emprego? Visitou muitas empresas?

— Não encontrei. Amanhã continuo. Fui a uma empresa, mas o gerente não estava, fiquei com calor e cansado, aí voltei pra casa.

— Só uma empresa? E você chama isso de procurar emprego? Max, preciso desligar porque a bateria vai acabar. Passe em casa mais tarde – a bateria acabou, mas ele não foi.



9 Minutos com BlandaOnde histórias criam vida. Descubra agora