20. E-mails e encomendas

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Eu estava enganada sobre o fato de que algumas pessoas da minha cidade poderiam ter visto o programa ao vivo. Todas viram. Eu deveria pagar um prêmio para tentar achar quem não viu. A impressão era de que eu tinha ficado mais famosa do que o Pelé. Logo na entrada, Dona Cotinha me parou no corredor e eu expliquei brevemente o vexame, a mesma história resumida contada para papai quando ele me telefonou no celular um minuto depois. Quando vi o número da mamãe, não atendi.

Apesar de tudo o que aconteceu, Max não me ligou. Eu esperava uma ligação, então pensei que deveria ser um presente dos anjos: talvez ele nem tivesse visto o mico na TV.

Adormeci no sofá com Freddy, com o telefone sem fio na mão, que me acordou, como sempre, na manhã seguinte. Imaginei que poderia ser uma encomenda de quadros, depois da matéria que saiu no jornal, mas era a Tereza.

— Bom-dia, amiga!

— No seu caso, amiga da onça!

— Blandinha, você ficou brava com a história do programa? Eu achei que seria bom pra você. Sabe, não te vejo feliz com a história do casamento. Então pensei que você poderia se animar lá na emissora, conhecer rapazes legais e esquecer um pouco essa loucura.

— Você falou como o meu pai.

— Pois é o que penso. Eu estava brincando até agora, mas você está falando sério, não é, Blanda? Vou falar também. Você se casa com quem quiser, mas você não é mulher para o Max, é muito melhor do que ele faz você acreditar que é.

— E o que você sabe sobre casamentos, Tereza? Você nem tem namorado, tem medo de namorar, chuta os homens mais interessantes por medo de se apaixonar e agora você quer me ensinar quem é a pessoa certa para casar comigo? – eu disse, já arrependida da primeira palavra depois de completar a última.

— Eu gosto de você, mas não sei se você gosta de si mesma.

Então Teca desligou o telefone. Eu a chamei pelo nome inteiro e isso acontecia raras vezes. Eu fui maldosa, como só eu sei ser. E, apesar de arrependida, o meu orgulho não deixou que eu telefonasse em seguida para pedir desculpas. Ela não deveria ter me inscrito no programa, mas eu não tinha o direito de falar com ela daquela maneira. Um erro nunca justifica outro.

O telefone não me deixou pensar nem mais um minuto na bobagem que eu tinha feito, porque nas duas horas seguintes eu tentei explicar para as pessoas o ocorrido no programa. Eram colegas da época de faculdade, vizinhos da minha mãe, amigos e até um não-sei-quem-era que conseguiu meu telefone com outra pessoa que eu também desconhecia.

Quando me conectei à internet, o susto foi ainda maior. No meu e-mail recebi catorze mensagens de homens da cidade que gostariam de se corresponder comigo. O pior era notar os erros de português nas cartas virtuais. Uma delas eu nem cheguei a abrir, quando no "assunto" o sujeito escreveu "moça" com SS e "cidade" com Ç. Eu até encaro um erro ou outro, mas começar uma palavra com cedilha deveria ser motivo para cadeia. Eu já imagino uma cela lotada de assassinos da língua portuguesa.

Uma mensagem era até bonitinha, mas o rapaz me pareceu um maníaco. Eu nunca poderia sair com alguém que parece um maníaco, já que os próprios maníacos conseguem disfarçar sua condição. Lá pelo quarto ou quinto e-mail eu já estava dando risada daquela situação ridícula. Um homem me propôs casa, comida e roupa lavada, desde que eu fizesse tudo. Outro escreveu baixarias, como se estivesse em um bate-papo pornô e teve até quem me pedisse em casamento. Como alguém faz um pedido assim sem nem ao menos saber se eu tenho mau hálito ou se durmo de meias?

Apaguei as mensagens e Max me ligou.

— Oi, Blanda. Que papo é esse de que você foi procurar namorado na televisão?

— Quem te contou?

— Ninguém me contou, eu vi – disse Max, numa mentira gigante.

— Você não viu nada, Max. Se tivesse assistido ao programa, teria visto a minha cara de surpresa no final, porque achava que aquilo era um concurso de culinária e não de namoro na televisão. Além do mais, para o seu conhecimento, eu neguei o pedido do moço.

— Uau, você negou o pedido? Que bom.

— Viu como você não assistiu?

— As amigas da minha mãe disseram que te viram no programa daquela Madalena maluca e você foi a escolhida para namorar um tal chef de cozinha.

— Pois é. Tem quem me queira. Mas eu fiquei tão surpresa quanto as amigas da sua mãe, porque a Teca fez a maluquice de me inscrever sem o meu conhecimento. Vamos esquecer essa história?

— Desde que você venha em casa para irmos juntos conhecer o local onde celebraremos o nosso casamento. Mamãe me disse que é lindo.

— Max, hoje eu não posso.

— Você nunca pode, Blandinha.

— Você deveria procurar um emprego. Como vamos nos sustentar depois de casados se eu não tenho um tostão no bolso e você só tem porque pede para seu pai?

— Você não acha importante visitarmos o lugar do casamento? Eu acho mais importante do que tudo.

Não tive resposta, porque não soube identificar se aquilo era ou não mais uma de suas mentiras.

— Max, pode ser outro dia? Eu vou, mas hoje não posso, preciso resolver umas coisinhas.

Ele ficou em silêncio. Aquele silêncio em que a pessoa do outro lado espera que você complete algo. Mesmo que seja, como acabou sendo o caso, com uma mentirinha.

— Tenho uma encomenda de dois quadros para entregar essa semana, Max. Acabaram de me ligar pela manhã e eu aceitei. Você sabe, precisamos de dinheiro, é o meu atual trabalho e depois de eu acabar, podemos ir ao local da festa. O que você acha?

— Claro, Blandinha, é seu trabalho. Vamos lá outro dia. Passo mais tarde na sua casa para te dar um beijo, está bem? Boa sorte com as telas e as tintas. Te amo.

Na verdade, não sei se ele disse "te amo" ou "tchau" que, quando ditas rapidamente, podem parecer a mesma coisa. Max não era de falar sobre os sentimentos, mas eu preferi acreditar que naquele momento ele foi romântico. Só que quando ele passasse em casa, não haveria telas encomendadas. A minha angústia por ter mentido cresceu e, quando ia explodir, o telefone tocou. Desta vez, para me salvar.

— Gostaria de fazer uma encomenda de dois quadros com a Blanda. É você? – disse a senhora do outro lado da linha. Parecia que a sorte havia sorrido pra mim.


9 Minutos com BlandaOnde histórias criam vida. Descubra agora