30. Sinceridade

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Como é que eu podia me sentir sozinha em meio a tantas pessoas e acolhida na solidão? Eu queria apenas o Bernardo, ele não estava na festa e eu me senti vazia. Porque eu sabia que todo aquele circo armado em meu apartamento tinha sido feito por ele. Se ele não tivesse aparecido na minha vida, tenho medo de que continuaria na inércia com o Max. Tenho até medo de que não seria capaz de acabar com o relacionamento, mesmo depois de saber sobre a traição. Comodidade é a pior situação para um casal.

Agora eu começo a acreditar que sou capaz de tomar atitudes mais radicais do que imaginava. Isso começou quando dei chance para a arte entrar na minha vida e continuou no momento em que decidi entrar com um processo contra a loja da Manuela e afirmei que não tinha abandonado o Direito.

Manuela. Aquela Manuela, irmã da Mafalda, amante do Max. O mundo é um caroço de azeitona.

Alguns dias se passaram e não fiz nada fora de casa. Na segurança do meu lar, pintei duas telas em composição, lembranças de um sonho. Quando acordei na madrugada seguinte à festa de minha liberdade e do vexame de Max, lembrei apenas que tinha sonhado que eu era uma gata, com a história igual à de Freddy. Vivia nas ruas e comia lixo, até uma mulher me resgatar e me levar a um veterinário. Tomei remédios, senti dor, mas também tive o aconchego das mãos da minha companheira, porque gatos não têm dono, têm amigos humanos. No sonho, em uma semana, a minha vida de felina tinha se transformado e eu já usava coleira, tomava banho e cheirava à colônia.

Em homenagem ao sonho de gata, pintei o passado e o futuro em telas abstratas, sem animais ou humanos. Apenas o passado com cores frias, pinceladas fortes e tristeza e o quadro do futuro com cores quentes, pinceladas leves e alegria. Era como se eu quisesse pintar minha vida.

Dias em casa, cabelo preso, comida congelada, pratos sujos dentro da pia, roupa cheia de tinta e então descobri que eu podia, sim, pintar a minha vida. A tela em branco foi um presente do Criador, mas me foi dada a oportunidade de escolher o estilo, as cores e as formas que eu colocaria no quadro. E eu só precisava fazer a escolha certa.

A campainha tocou. Pensei em Bernardo, pensei em Dona Cotinha, mas pensei principalmente que o porteiro era um imbecil de deixar uma pessoa subir sem me avisar antes. Só poderia ser alguém do prédio ou da família, mas eu estava errada. Era Max.

— Posso entrar? – ele disse, já dentro do apartamento.

— Se eu não deixar, você tem a chave – mas nessa hora, ele depositou a chave na minha mão. Fiz sinal com a cabeça para entrar. Eu não tinha nada para dizer, havia passado dias tentando entender o turbilhão da minha vida, cheguei a sentir saudade de alguns momentos juntos (porque saudade se sente até daquilo que não presta), mas eu não queria vê-lo. Sua imagem na lembrança já doía e eu tinha certeza de que conversar com ele seria ainda mais dolorido.

Max entrou e se sentou no sofá branco. Esperou eu fechar a porta e me sentar no pufe. Fiquei longe, olhei para o chão e ele começou a falar.

— Vim para te pedir desculpas.

Mas eu não respondi.

— Gosto de você, Blanda.

— Obrigada – Eu sei que não há nada pior do que uma resposta de agradecimento quando alguém revela um sentimento bom.

— Narinha está grávida, Blanda.

Não era possível, mas estava acontecendo. Ali, bem diante dos meus olhos, o meu ex-namorado me dizia que uma de suas duas amantes estava grávida, sendo que eu já sabia que a outra também esperava um filho seu.

9 Minutos com BlandaOnde histórias criam vida. Descubra agora