21. Novas tintas

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Antes de começar a mexer com as tintas para a encomenda, eu pretendia lidar com outra tinta: de cabelo. Era novata, de cabelo virgem, intocado e puro, uma raridade no universo feminino.

Estava cansada do meu cabelo castanho-claro-quase-liso-quase-enrolado.

Mentira.

Eu queria era me disfarçar para sair na rua depois do episódio da televisão e de ninguém ter acreditado quando eu disse que eu não sabia que o programa era para encontrar um namorado. Além da vergonha, ainda passei por mentirosa.

Aquele era o dia da coragem, a hora de mudar o meu visual. Gosto de tudo o que é natural. Da cor que nasceu, do jeito que é, não importa como, isso é o mais bonito na minha opinião. Eu não queria parecer igual a todas as outras mulheres, que enrolam o cabelo quando está na moda e alisam quando outra moda surge. Eu lavo o meu cabelo e deixo secar ao sol, não uso secador nem pente e saio na rua desse jeito mesmo. Nas entrevistas de emprego pelo menos eu usava o pente. Posso deixar solto ou prender, mas fazer escova, chapinha ou usar aquelas peças horrendas de plástico para encaracolar os meus fios? Nem pensar.

Só que chega um dia na vida em que nós sempre fazemos aquilo que dissemos que nunca faríamos, algo como uma vingança da palavra contra nós mesmas. E nem era uma ditadura da beleza, só uma tentativa de acabar com a minha vergonha de sair em público, nem que para isso eu tivesse que pintar o cabelo.

Primeiro passo: escolher a cor. O meu cabelo não era nem claro nem escuro, então imaginei que qualquer cor poderia ficar bem em mim. Pensei em um tom de loiro e decidi não sair de casa para comprar a tintura, porque certamente as pessoas da farmácia teriam visto o programa, como toda a cidade. Telefonei para uma do centro, com entrega rápida.

— Vocês fazem entrega? É que eu estou com uma dor de cabeça...

Prestativo, o atendente adivinhou o nome do remédio que eu queria, em seguida fiz o pedido de uma cartela e, despretensiosamente, como se tivesse me lembrado naquele momento de algo sem importância, eu disse:

— Puxa, quase ia me esquecendo. Minha irmã pediu uma tintura de cabelo, mas não sei qual marca ela usa. Você pode me mandar uma boa marca e o tom de loiro mais bonito que você tiver?

Em duas frases, eu menti duas vezes. Não estava com dor de cabeça e não tinha nenhuma irmã. Se eu considerar que não sabia qual marca de tintura usar, o time da mentira vencia por três a um. O rapaz da farmácia sugeriu uma marca em promoção e garantiu que era uma das melhores do mercado. Não prestei atenção no nome, porque o meu cérebro pensava se eu iria pagar com cheque ou dinheiro, mas o atendente me convenceu. E em meia hora estava tudo comigo. Paguei o entregador e lhe dei umas moedas de gorjeta.

Quando abri a sacola da farmácia, fiquei chocada com a foto da Madalena no pacote da tintura para cabelo. O idiota do atendente me mandou uma marca vagabunda de tintura e disse que era boa só porque a doida da apresentadora estava na embalagem.

Freddy me olhava como quem diz "Se deu mal!".

Abri o pacote e li as instruções. A Madalena era uma escandalosa, por isso o cabelo dela era tão feio. Mas em mim poderia ficar bonito. Se eu não arriscasse, nunca saberia. E antes não tivesse feito essa bobagem.

Eu fiquei tão feia quanto a apresentadora. Já tinha escutado histórias de que depois de um tempo aquela cor clara demais iria melhorar, mas eu não sabia, porque nunca tinha pintado os meus fios. Com o desastre da primeira pintura, ainda me olhando no espelho, liguei para a farmácia novamente.

— Eh... Boa tarde... Eu queria pedir uma tintura para cabelo... Vocês entregam?

Com a resposta "sim", pedi a marca mais cara (mesmo sem saber qual era) e de um tom diferente, porque com aquele cabelo eu não ia ficar de jeito nenhum. Quando o entregador me viu, o mesmo da primeira entrega, soltou uma risada de canto de boca.

— Ah, é você?

— Algum problema, moleque? – peguei a sacola, fechei a porta e esqueci a gorjeta de propósito.

No mesmo dia em que meu cabelo viu tintura pela primeira vez, ele veria pela segunda.

Pintei, lavei, sequei, e preparei uma surpresa para mim mesma. Eu devia estar linda, eu queria me sentir uma deusa e ter coragem de sair pelas ruas sem ser reconhecida e, quem sabe, até receber elogios. Max tocou a campainha, mas entrou em seguida com a sua chave. Nem eu mesma tinha me olhado no espelho, mas fui recebê-lo, com a cabeleira solta.

— Blanda... Você está... Está...

Eu sabia. Bonita, uma princesa, uma artista...

— ...Horrorosa! – ele completou, deixando o meu queixo cair.

Toda mulher deveria aprender, antes mesmo de entrar na escola, que utilizar tintura vermelha em cabelo loiro produz um resultado incrível. E lá estava eu, ao lado de um namorado insensível e, o pior de tudo, com o cabelo laranja.



9 Minutos com BlandaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora