23. Televisão? Não!

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Antes de chegar à casa de minha mãe, eu já tinha em mente que não queria brigar. O meu orgulho me dizia que era ela quem deveria ter me procurado, mas ela sabia que, se fosse a primeira a agir, eu a trataria mal. Hoje eu sei que não devemos dizer nada com a cabeça quente, porque podemos nos arrepender. Eu já me arrependi e talvez esse seja o primeiro passo para eu pedir desculpas, embora uma palavra dita nunca seja esquecida. Eu sei disso.

Mamãe me recebeu na porta.

Ali, naquele momento, eu não senti raiva pelas mentiras de toda uma vida. Ela era relapsa, enganou meu pai, mas, ainda assim, eu acreditava no seu amor de mãe. Nunca duvidei de que me amasse e quisesse o meu bem, mesmo que tenha procurado realizar suas tarefas de maneira que eu reprovava. Mas eu havia errado tanto em menos de uma semana que não tinha o direito de julgar minha mãe.

Mesmo depois das minhas ofensas no último encontro, ela me abraçou. Ali na porta mesmo, com as pessoas passando na calçada, ela me deu o abraço mais apertado e verdadeiro de que eu pude me lembrar. E senti que as lágrimas fizeram fila nos olhos, querendo escorrer, uma a uma, e cair no ombro da minha mãe.

— Mãe, me desculpa...

— Você estava certa na nossa última conversa. Eu quem preciso me desculpar...

— Estamos ambas desculpadas? – eu perguntei.

— Você nunca precisaria pedir – ela completou. E foi aí que eu notei que seus olhos também estavam vermelhos. Entramos abraçadas.

Mamãe é a rainha de todos os produtos de beleza, uma verdadeira manequim ambulante, daquela que desde manhã pode ser vista com os olhos cheios de maquiagem. Na pia do banheiro, havia milagres prometidos em tubos para os olhos, o rosto inteiro, o pescoço e até mesmo as orelhas. Nunca vi alguém usar creme em orelhas.

— Se você não cuida das orelhas, sabe o que acontece? Sai na rua sem a proteção adequada e depois de alguns dias parece um coelho branco, com as orelhas cor-de-rosa. Você não quer ficar igual a um coelho, não é? – disse mamãe, animada com a sessão de beleza que eu mesma havia pedido.

Experimentamos cremes e maquiagens enquanto eu esperava a tinta que ela tinha passado no meu cabelo fazer o milagre da transformação. Logo que cheguei pedi para ela sumir com aquele laranja que lembrava cor de peruca de palhaço. Mamãe estava contente e parecia animada, embora suas olheiras fossem marcas evidentes de como havia passado seus últimos dias.

Ela ainda tentou explicar o ocorrido com o papai durante tantos anos, mas eu interrompi. Chegou a dizer que era fraca, que ficou confusa, que sabia que tinha agido errado e que ainda pagava por todos os erros. Segurei a força dos sentimentos para não ter dó. Pedi, então, para aquele assunto ser apagado das nossas vidas. Pedi também para que, a partir dali, nunca mais existisse nenhuma mentira entre nós.

E assim foi combinado.

Mamãe tentou me convencer de que poderíamos ser mais produtivas e ir ao mercado enquanto esperávamos o efeito da tinta no cabelo. Tentou a primeira vez e eu neguei, assim como na segunda. Na terceira, ela me perguntou se eu já tinha almoçado, mesmo já sendo tarde, e eu respondi que não. E então fez uma chantagem e disse que, se eu fosse ao mercado com ela comprar os ingredientes, iria preparar os bolinhos de salsicha que eu adorava. Uma batalha injusta.

Resolvemos ir ao mercado mais próximo, aquele menor, de esquina, com pouca gente. Longe de grandes redes. Coloquei na cabeça um lenço que mamãe havia me emprestado, com grandes flores azuis. Algo bem típico de seu vestuário.

9 Minutos com BlandaOnde histórias criam vida. Descubra agora