Já não tinha mais a sensação de ter sido enganada por Max porque eu não valia nada, já que, se existia alguém sem valor nessa história, essa pessoa era ele. A amante devia ter os seus atrativos, embora eu não conseguisse pensar em nenhum. Ela não era o problema, tinha sido mais uma trouxa nas mãos do safado do meu ex-namorado. Pensei em Max como ex quando ia para a cidade conhecer a sua amante. Já não era mais a sua namorada, só não havia comunicado isso a ele.
Dona Cotinha chegou antes de todos, porque pedi que fosse me apoiar. Seu abraço já me deixava calma para tomar qualquer decisão.
Parada ali, em pé na sala, de frente para a cozinha, de onde Dona Cotinha podia me ver, ela esboçou um sorriso. Eu estava com um vestido dourado abaixo do joelho, informal, mas lindo. Escolha de Teca no dia anterior, quando me disse que deveria usar algo especial e me emprestou sua roupa. As sandálias eram minhas, douradas e com um pequeno salto. Coloquei brincos e uma pulseira.
— Só falta tirar essa toalha da cabeça – anunciou Dona Cotinha, com um sorriso que se transformou em risada. O cabelo ainda molhado aguardava Teca para os retoques finais e ela chegou acompanhada de Catarina. Cerca de uma hora antes do combinado com a amante de Max, eu e minhas melhores amigas, o que incluía Dona Cotinha, nos divertíamos com um secador e maquiagens. Toda mulher precisa de amigas de verdade.
Pouco antes de a amante chegar, meus convidados já estavam no apartamento. Mamãe e papai dividiam o sofá e conversavam sobre qualquer coisa que eu não quis saber. Papai me chamou de lado e disse baixinho no meu ouvido, logo em seguida: "Estamos comentando como sua exposição estava linda" e piscou para mim. Em volta da mesa de jantar, estavam as minhas grandes amigas, além de Jaime, aquele homem incrível de beijo bom e que deve ter descoberto que não gosta de mulheres depois do nosso único encontro na festa junina. Ele estava com o seu marido Roberto, que eu sempre desconfiei que era o grande amor da vida da Catarina. Quando olhei para a mesa, Cacau e Roberto estavam tirando fotos juntos. Parecia uma festa. A comemoração era a minha nova vida.
Desejei que Bernardo também estivesse lá, mas seria melhor ele não ver a cena. No fundo, eu não queria que ele conhecesse Max nunca.
Telefonei para o meu ex-namorado e pedi para ele ir ao apartamento, já com os dedos cruzados para dar sorte de sua amante chegar antes. Quando desliguei o telefone, a Vovó Mafalda chegou. Agora faltava apenas o palhaço Bozo.
Os convidados, instruídos por mim antes da chegada ilustre da senhora amante de Max, estavam quietos como em um funeral. Quando ela entrou na sala, cumprimentou todos com um aceno, mas logo percebi que estava acompanhada.
— Olá, Blanda. Eu trouxe a minha irmã, se você não se importar.
— Imagine, Mafalda. Fiquem à vontade. Você vai conhecer a família toda em breve, porque Max já vai chegar com a mamãe.
Era estranho chamar a ex-sogra de mamãe.
Mas mais estranho ainda foi ver quem entrou em minha sala. Lá estava, logo atrás de Mafalda, uma mulher com cabelos ruivos na altura do ombro e olhos verdes: a perua da loja de tintas, a namorada de Bernardo, Manuela.
O momento em que nos vimos poderia ter sido filmado. As duas ficaram sem palavras no meio do silêncio, enquanto eu me lembrava do vexame na loja, do processo e do fato de ela ser a namorada do homem que eu amava. Voltei à realidade quando escutei a voz de mamãe chamando as convidadas para se sentarem. Não trocamos uma palavra, como se fosse um respeito pela amante de Max e pela situação de a mãe do safado estar doente. Essa era a história. E eu me mantive serena, embora a vontade fosse arrancar cada fio daquela cabeça vermelha.
Pedi que Dona Cotinha servisse Mafalda e sua irmã, sentadas em um pufe, ao lado do sofá, sob os olhares de vigia de mamãe, que reconheceu a perua da Manuela, mas também não disse nada.
Max chegou alguns minutos depois. Eu o parei no corredor de entrada do apartamento, de forma que ele não pudesse ver ninguém na sala. Falei alto, para todos ouvirem, e notei um silêncio dos convidados. Agora tudo seria resolvido entre nós dois, com a presença de testemunhas.
— Max, eu sei de tudo. Antes de a sua vergonha ser ainda maior, por favor, fale a verdade. Eu sei que você tem outra pessoa e ela mora em outra cidade. Sei que você me traía e não preciso dizer que não há mais nada entre nós, não é? Só quero entender por que fez isso.
— Blanda! Como você pode acusar o meu filho? Que absurdo! – mas Dona Cremilda foi interrompida pelo próprio Max, que disse que aquele era um assunto nosso. – Por favor, não fale nada, mamãe. Blanda está certa.
Foram segundos de apreensão. Sua mãe colocou as mãos no rosto, mas não emitiu mais nenhum som. Eu tinha lágrimas nos olhos, mas não sabia se eram de tristeza, de vergonha, de raiva ou de felicidade por ter coragem. Eu só queria ter uma reposta de Max, só uma reposta, mas tive muito mais do que isso.
— Como você descobriu sobre a Narinha?
Narinha? Que Narinha? Então, meu cérebro quase fritou e minhas mãos estavam loucas para agarrar o pescoço de Max, porque eu percebi, em tão pouco tempo, que ele não era apenas um babaca. Era também um mau-caráter. E, como se tivesse adivinhado que disse uma besteira, logo em seguida tentou disfarçar, mas não conseguiu.
— Narinha, é? Eu não descobri nada sobre ela, você me contou. Eu conheci a Mafalda, na verdade. Aliás, ela está aí dentro. Por favor, fiquem à vontade para participar da festa. Você é o convidado de honra, Max. Uma pena que eu não conheci a Narinha, senão eu a teria convidado também.
Nesse instante, Mafalda apareceu no corredor de entrada e deu um tapa na cara de Max. Olhou para mim e eu repeti seu gesto. Com muito prazer, fiz o rosto de Max sentir mais uma mão quente e pesada.
— Você não presta, Max. E se quer saber, eu tenho dó do seu filho, porque Mafalda... – e me virei para falar com ela – nem você nem eu temos culpa de tudo isso. Me desculpe pela situação desagradável, mas eu não imaginava que havia mais uma mulher nessa história.
— A Narinha é uma amiga – disse Max, com as palavras pausadas.
— Cada frase que você disser será um vexame maior. Por isso, cale a boca – eu disse, quando avistei Dona Cremilda descendo as escadas sozinha, com as mãos ainda no rosto vermelho e tomado por vergonha. Os convidados, agora amontoados no corredor, observavam a conversa entre um casal composto por três pessoas.
— Você é ridícula, Blanda. Como pôde fazer tudo isso? – disse uma voz esganiçada no meio da multidão. Era Manuela, a megera de cabelos cor de fogo que me fez passar a maior vergonha da minha vida na loja de tintas. Sua irmã estendeu a mão espalmada e disse "Não se intrometa", virou-se para mim e respondeu que entendia o meu lado. Não era amizade, era um sentimento de compreensão. Ambas fomos enganadas pelo mesmo homem.
— Manuela, agora que o teatro acabou, eu posso dizer. Você não é bem-vinda na minha casa. E mais: nós vamos nos ver em breve, pode se preparar para esse encontro.
Depois de Max ter sido colocado para fora do apartamento, cumprimentei Mafalda, que saiu atrás de sua irmã. Meus amigos ficaram em casa e me viram chorar. A maquiagem borrou, mamãe veio me consolar e em poucos minutos todos estavam rindo, brincando, cantando e tirando novas fotos com a máquina de Roberto. Agora, sim, aquilo parecia uma festa.
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9 Minutos com Blanda
RomanceO maior inimigo de Blanda é o despertador. A advogada está desempregada, quase sem dinheiro e divide o apartamento com seu gato Freddy Krueger. A presença constante de Max a recorda que ela tem um namorado, embora ele nunca tenha assumido o relacion...
