36. A chegada do cunhado

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Eu e Bernardo passamos um fim de semana maravilhoso na praia, com direito a cochilos depois do almoço e banho de mar à noite. Sem regras, passamos horas conversando, acordados de madrugada e deitados a manhã inteira. Na cama, tomávamos café da manhã com pão e leite comprados na padaria da esquina e as refeições eram porções de peixe à beira do mar.

Com a chegada dos meus vinte e cinco anos, Bernardo teve a ideia de fazer uma festa. Lá na praia começamos a pensar como poderia ser essa comemoração. Simples, divertida, com amigos e familiares e nada convencional.

Quando voltamos à cidade, minha sogra me lembrou da festa de Juliano e pediu ajuda com os preparativos para a recepção. Quando eu mencionava "sogra", sempre pensava em Dona Justina. Dona Cotinha era somente a minha vizinha, aquela que me conhecia havia tantos anos e gostava de mim. Tinha medo de chamá-la de sogra e ganhar, com isso, o pacote completo da desilusão de nora.

Para recepcionar Juliano, a família decidiu preparar um jantar tipicamente brasileiro. "Ele está morrendo de saudade da nossa comida", disse Seu Veloso quando fui à casa dos pais de Bernardo para ajudar na preparação da festa. "Vamos fazer arroz com feijão e está bom", sugeriu. Mas a esposa lançou um olhar para encerrar o assunto. "É brincadeira, patroa."

- Dona Justina, seu Veloso tem razão. Talvez fazer arroz e feijão seja uma boa ideia.

- Você vai defender esse maluco? - brincou a esposa.

- Ele é um maluco adorável - eu disse. Meu sogro, então, saiu do sofá e me deu um beijo no rosto. - Podemos fazer uma feijoada. Arroz, feijão-preto, couve e farofa. De sobremesa, que tal um pudim de leite condensado e brigadeiro? Nada mais típico. Para beber, claro, caipirinha.

A sugestão foi aceita por todos e eu, pela primeira vez, fui declarada oficialmente a organizadora do evento. Distribuí as tarefas: as sogras iriam preparar o jantar e eu faria a sobremesa, enquanto Bernardo iria encher as bexigas - porque festa animada precisa de bexigas. No caso, verdes e amarelas. Juliano chegaria na sexta-feira e a festa seria no mesmo dia.

Nos reunimos na sala uma hora antes do combinado com os amigos de Juliano e quando todos chegaram a casa estava repleta de pessoas e a música alta já denunciava que ali acontecia uma festa. Levei Teca para ajudar nos preparativos e Catarina também foi, desta vez com o marido. Quando o telefone tocou, decidimos desligar o som e aguardar o dono da festa em silêncio. E quando ele abriu a porta, o silêncio continuou.

Lá estava meu cunhado com Manuela.

A situação foi bizarra. De um lado, os pais e amigos de Juliano quietos, provavelmente imaginando o que ele fazia com aquela mulher ali. Do outro, um homem sem compreender o silêncio. Eu, enquanto segurava o instinto de dar uns tapas na cara daquela perua, permaneci calada. Não queria provar nada a ninguém, muito menos à Manuela, e se ela era amiga daquela família eu não reprovaria a sua presença. Muito pelo contrário. Uma boa anfitriã trata bem os convidados - sejam eles bem-vindos ou não. E eu me sentia quase da família.

- Pessoal, vamos cumprimentar o grande motivo de estarmos reunidos aqui hoje! - eu disse, em uma tentativa de parecer empolgada. - E você, moça, seja bem-vinda.

- Você está louca? - perguntou Teca em voz baixa. - Aliás, esse gato que entrou com a ex-namorada do seu namorado é o irmão do Bernardo? Ele só pode ser astrônomo, deve levar uma mulher às estrelas.

Dei risada. Bernardo me apresentou ao irmão, enquanto Manuela foi cumprimentar os ex-sogros, completamente à vontade, como se ela ainda pertencesse àquele ambiente. Não resisti, fui atrás e Teca me seguiu. Um acidente aconteceu cinco segundos depois, quando eu caí em cima de Manuela com um copo de caipirinha na mão. Que foi parar no vestido branco dela.

Agradeci mentalmente o acidente que eu não tive coragem de provocar, mas em pouco tempo percebi quem era a culpada. Teca estava ao meu lado com um sorriso no canto da boca.

- Tinha que ser você, sempre tão agradável.

- Desculpe, Manuela. Acidentes acontecem.

- Ou são provocados.

- Eu jamais faria isso com um convidado do meu cunhado.

Não queria causar brigas, então pedi desculpas. Acho que fui sincera e convincente, porque a nojenta de cabelo de fogo foi embora em seguida.

- Posso saber por que você fez isso, Teca? Podia ter derrubado você mesma a caipirinha naquela insuportável - eu perguntei.

- E eu ia queimar o meu filme com o gato do seu cunhado? De jeito nenhum.

- Vou dizer para ele que você é louca.

- Vai fundo. É verdade mesmo, ué.

Fomos interrompidas pelo objeto de desejo da minha amiga e eu os apresentei. Não tardou para os dois estarem aos cochichos em um canto da sala. E desta vez eu concordei que minha amiga escolheu muito bem a companhia. Mesmo sem a genética poder explicar, Juliano era a cara de Bernardo.


9 Minutos com BlandaOnde histórias criam vida. Descubra agora