37. Vinte e cinco anos

250 25 0
                                        

Pela primeira vez na vida eu teria uma festa à fantasia.

Eu me lembro de quando era adolescente e ia fantasiada a muitos bailes. As melhores comemorações aconteciam na casa do primo da Teca, o Guilherme, que morava em uma casa com um quintal grande, onde colocávamos as mesas, cadeiras e petiscos (quase sempre salgadinho de pacote em travessas bonitas de algumas das mães). Guilherme gostava de música e na época era o maior colecionador de fitas cassetes - até hoje ele guarda essas relíquias. Na época das festas, o menino tinha dois aparelhos de som, sendo um com espaço para duas fitas. A alta tecnologia permitia gravarmos de uma fita para outra e assim todos podíamos participar da seleção musical da festa. Durante dias que antecediam os eventos, escolhíamos o tema e aguardávamos as músicas tocarem na rádio. Nas festas à fantasia podia tocar de tudo, então o Guilherme gravava várias fitas, uma só com baladas românticas para o fim, outra com músicas dançantes e, claro, os clássicos.

O pior de tudo era quando o locutor falava "Rádio Xiiiiiisssss" no meio da música. Aquela que esperamos dias e dias para tocar e que só conseguimos gravar de madrugada, depois de driblar um esquema de segurança para dormir cedo estipulado pelos pais ou pelas mães. Depois de tanto sacrifício, a música era gravada com a voz do locutor por cima. Guilherme descobriu um método de editar a fita de forma a cortar os dois segundos da voz intrusa e então a música parecia apenas um disco riscado. Na verdade, tínhamos poucos discos de vinil. Éramos todos estudantes quase sem dinheiro e o CD apareceu bem depois para nós.

Nas festas à fantasia realizadas por nós lá no bairro, eu sempre me vestia com alguma roupa velha da mamãe e inventava um nome bonito para a fantasia. Com meus dotes artísticos aflorados, fazia pinturas no rosto e as pessoas não ousavam dizer que eu não estava vestida adequadamente. Ajudava os amigos a encontrar fantasias nos armários das mães, camufladas como roupas normais de passeio. Preparar o figurino era uma diversão tão grande quanto participar da festa.

Já fui vestida de salada de frutas, segurança do amor, pecado original (dessa vez pendurei maçãs em um lençol velho, que encaixei no corpo por um buraco na cabeça), tampinha de garrafa (com tampinhas de verdade coladas no mesmo lençol, um ano depois) e até mãe. Inspirada na minha própria progenitora, eu me vesti da maneira mais brega possível e levei para a festa uma boneca no colo.

E depois de tantos anos eu teria a minha festa à fantasia. E desta vez, queria uma fantasia de verdade. Além disso, eu e Bernardo decidimos que, além de fantasiados, os convidados deveriam usar máscaras. Em um determinado momento, faríamos uma brincadeira para adivinhar quem era quem. Convidamos antigos amigos e eu tinha certeza de que seria divertido descobrir, por debaixo das máscaras, amigos que não víamos há muito tempo.

O primeiro passo foi decidir qual seria a nossa fantasia. Quando bati o olho em Freddy, tive uma ideia.

- Bernardo, eu quero ser a Mulher-Gato.

- Ela é do mal, Blandinha.

- Eu também sou, quer ver as maldades que posso fazer? - eu disse, já segurando as suas mãos pra trás, enquanto Freddy saiu correndo do sofá onde estava confortavelmente dormindo. Bernardo não resistiu aos beijos e topou na hora que eu fosse a Mulher-Gato. - Fica frio, pertenço ao lado do bem.

Como era de se esperar, Bernardo seria o Batman e logo Juliano decidiu ser o Coringa. Teca não abriu mão de se vestir de Arlequina.

As fantasias foram compradas na capital, em uma viagem em que estávamos nós quatro. Eu nunca tinha visto Teca tão vidrada em um único homem por mais de alguns dias e já se passavam duas semanas desde que tinha derrubado caipirinha no vestido da Manuela. Sobre o fato de ela ter ido à festa de boas-vindas, descobrimos que a aproveitadora tinha enviado um e-mail para Juliano dias antes, em que se ofereceu para buscá-lo no aeroporto. Todos conheciam o resto da história e ele não se cansou de pedir desculpas. Mas agora Manuela estava sem munição.

9 Minutos com BlandaOnde histórias criam vida. Descubra agora