O meu namorado riu de mim. Eu podia estar feia, mas ele tinha a obrigação de me dar apoio moral. E ele fez exatamente o contrário, porque me colocou no chão, com comentários sem a menor graça – pra mim, porque ele riu sozinho durante vários minutos.
Eu não quis conversar, porque o clima não estava propício para falarmos de casamento. Ele foi embora logo em seguida e eu descontei a minha raiva no coitado do Freddy. Pintei o seu rabo com a tinta vermelha do meu cabelo. Procurei as telas, tintas e pincéis e comecei a produzir os quadros para aquela senhora que, aliás, morava na cidade vizinha e tinha ouvido falar de mim pelo filho. Um bom sinal para os negócios – que estavam só no começo.
Uma das telas eu fiz na madrugada.
Antes de dormir, lavei o cabelo mais uma vez, mas o espelho denunciou o laranja ainda berrante. Não tive dúvidas: recorri à tesoura, que me ajudou a deixá-lo na altura dos ombros. Olhei para Freddy sentado em uma cadeira da mesa de jantar, lambendo o próprio rabo vermelho. Fui dormir mais feliz.
Acordei com a campainha. Era Dona Cotinha, e eu tive uma vontade enorme de abraçá-la depois que me disse "Olá, minha querida". Foram poucas as vezes em que Dona Cotinha foi em casa, mas eu sentia como se ela pudesse entrar a qualquer momento e sem pedir licença.
Eu percebi que ela viu meu cabelo laranja, mas não comentou nada. Perguntei se queria café, coloquei água na cafeteira e minha vizinha me perguntou por que eu tinha o olhar tão triste. Assim, diretamente. Não falou sobre o programa – eu tinha certeza que ela havia assistido –, não perguntou sobre a receita ou o motivo de eu estar com o cabelo laranja. Ela só quis saber por que meu olhar estava triste.
— Imagine, Dona Cotinha, eu estou ótima. Ontem mesmo recebi a encomenda de dois quadros, a senhora acredita?
Ela manteve o silêncio e eu comecei a chorar. Eu sou uma estúpida. Contei tudo.
Puxa vida, meu cabelo estava horroroso, o meu namorado não queria procurar um emprego e queria casar mesmo assim, eu não falava mais com a minha mãe e deixei de falar até mesmo com a Teca. Tudo estava errado na minha vida. Sem contar que tinha entrado com um processo contra a dona da loja de tintas que, por coincidência, era a namorada do tal do Bernardo, o moço de quem eu não sabia nada e em quem pensava o dia inteiro.
— Blanda querida – disse Dona Cotinha com a voz doce como a de uma fada de desenho animado –, tudo vai se acertar. Quando a vida parece estar com os caminhos tortos, de uma hora para a outra percebemos que nós estávamos caminhando pelo lugar errado. Aí descobrimos a estrada certa e tudo fica mais fácil, mais divertido e mais feliz. Posso pedir um favor? Voltamos a falar nesse assunto outro dia. Primeiro pense se esse orgulho serve para alguma coisa – e eu senti como se uma agulha de tricô tivesse perfurado meu coração, de tamanha vergonha. De repente Dona Cotinha mudou de assunto: – Blanda, eu não posso sair de casa hoje, mas preciso pagar uma conta. Você faz isso por mim?
Aquele me pareceu o pedido mais fácil que alguém já havia me feito. Até me esqueci, por um segundo, do meu cabelo laranja.
O problema maior foi quando descobri o banco aonde eu deveria ir. Eu não poderia, de jeito nenhum, deixar que Bernardo me visse daquele jeito. Tentei encontrar uma desculpa em segundos para Dona Cotinha, logo em seguida me arrependi de tamanho egoísmo e tentei adiar o pagamento, até que eu pudesse dar um jeito no meu cabelo, mas a conta vencia naquele dia e eu precisaria sair do apartamento. Ainda bem, porque eu não imaginava como seria bom me sentir ridícula.
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Não dava para entrar no banco de jeito nenhum. Não dava. O Bernardo lá dentro e eu lá fora, essa era a melhor configuração. Só que o banco, antes da porta giratória, possuía apenas um caixa eletrônico para o pagamento de contas. Eu poderia esperar a tarde inteira se fosse necessário, mas não seria. Ele estava quebrado.
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9 Minutos com Blanda
RomanceO maior inimigo de Blanda é o despertador. A advogada está desempregada, quase sem dinheiro e divide o apartamento com seu gato Freddy Krueger. A presença constante de Max a recorda que ela tem um namorado, embora ele nunca tenha assumido o relacion...
