Antes de sair de casa, eu fui parada pelo porteiro para assinar um documento. Lembrei que Max havia me pedido o favor e assinei. Como advogada, morri de vergonha de mim mesma por não ter lido cada tópico do contrato, porque estava atrasada. Apenas vi que era referente ao aluguel do salão de festas e deixei minha assinatura no papel. "Depois eu converso com ele", pensei.
Cheguei ao lugar combinado, na hora marcada e com uma roupa discreta.
Enquanto estava no ônibus do canal de televisão, com mais cinco mulheres, um homem que devia ser da emissora e o motorista, eu pensava na receita escolhida para apresentar dali a poucas horas. No dia anterior, passei na casa de Dona Cotinha e contei toda a história.
Fui para a cozinha e aprendi a fazer os seus famosos biscoitos amanteigados. Nunca havia pensado que ela ensinaria a tão famosa receita a alguém. Foi divertido porque passamos algumas horas juntas, contamos histórias, relembramos fatos de nossa vida e eu pude perceber, mais uma vez, como adoro estar em companhia de pessoas mais velhas do que eu. Gente que tem história para contar, lições de vida, memórias incríveis.
Além da companhia agradável, ainda aprendi a fazer os biscoitos. Uma receita para apresentar em um quadro que eu não conhecia, porque era inédito, e em um programa que, para ser sincera, era de um gosto bastante duvidoso. Se eu não tinha nada a perder, então podia ser uma boa diversão, com direito a ganhar um prêmio no final. E desempregada como estava, qualquer prêmio era bem-vindo.
Olhei para as mulheres ao meu redor. Eu me lembrava de duas delas, mas não sabia de onde. De algum canto daquela cidade, em algum lugar, talvez eu as tivesse encontrado. Mas ninguém puxou papo ou parecia à vontade para conversar, então fiquei quieta e fingi prestar atenção na paisagem.
Chegamos à emissora depois de poucas horas de viagem. Puxa vida, eu estava em uma emissora de televisão. Nas vagas dos artistas no estacionamento, era possível ver estrelas com seus nomes. Na porta pela qual entramos, um segurança nos cumprimentou, enquanto um produtor nos chamou para um espaço em que poderíamos preparar os nossos pratos. Foi explicado que, apesar de as candidatas estarem separadas, tudo seria filmado, para garantir a autenticidade das receitas. Eu me empolguei dali em diante, porque sabia que nada poderia ser mais gostoso do que os biscoitinhos da Dona Cotinha. Eu só precisava seguir a receita.
Em uma cozinha bem mais bonita do que a minha, comecei a preparar o meu prato especial. Depois de duas horas, que era o tempo máximo para a receita ficar pronta, eu iria ao palco para apresentar a minha obra culinária com as demais candidatas. Pelo que entendi, o concurso era regional, porque as moças eram todas da minha cidade, mas eu não perguntei para não parecer chata.
Os biscoitos da Dona Cotinha ficaram deliciosos. Para enfeitar, ainda coloquei doce de leite cremoso em cima e confeitos coloridos. Em seguida fizeram minha maquiagem completa e ainda tive o meu cabelo arrumado. Tudo para aparecer na telinha. Liguei para o meu pai para avisar, assim ele seria a segunda pessoa a me ver na TV, além da verdadeira dona da receita. Não me deu a menor vontade de ligar para mamãe, e o meu noivo poderia saber depois, se eu ganhasse o prêmio, porque poderia ajudar no nosso casamento. Seria uma surpresa para ele.
— Você é a Blanda? – perguntou um dos produtores do programa.
— Aham – respondi com a cabeça. Então fui levada para uma antessala enquanto a minha receita foi por outra porta. Entrei no estúdio quando ouvi Madalena chamar os comerciais e me sentei em um pufe cor-de-rosa ao lado das demais concorrentes. Quando o programa voltou ao ar, a maluca da apresentadora já pediu um close em cada uma de nós. Senti vergonha.
— Muito beeeeeeem, meninas lindaaaaaaas – disse Madalena, com seus cabelos loiros quase brancos brilhando, forçando as vogais como se tivesse algum problema na voz (ou no cérebro). E cada uma com seu microfone respondia às perguntas feitas pela apresentadora. Ela queria saber nossa idade, profissão, gostos pessoais, menos o nome. Afinal, o chef de cozinha iria escolher nossa receita e não poderia ser influenciado pelo nome, caso conhecesse uma de nós. Foi o que ela disse, mas eu achava bem difícil um chefe de cozinha me conhecer. Eu nunca nem entrei na cozinha de um restaurante.
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9 Minutos com Blanda
RomanceO maior inimigo de Blanda é o despertador. A advogada está desempregada, quase sem dinheiro e divide o apartamento com seu gato Freddy Krueger. A presença constante de Max a recorda que ela tem um namorado, embora ele nunca tenha assumido o relacion...
