Antes mesmo de pensar em ligar para a Teca, como se tivesse adivinhado o meu sentimento e presenciado a cena com o Bernardo, ela me telefonou. Disse que tinha algo urgente para me contar. Agradeci mentalmente o fato de ela ter sido a primeira a ligar e a convidei para almoçar em casa. Enquanto esperava, olhei para a parede que agora estava vazia.
Pouco antes de a campainha tocar, o som veio do telefone. Mais encomendas.
Teca chegou em casa sem saber como agir. Eu sabia que estava errada, por isso pedi que entrasse e, assim que fechei a porta, dei um abraço na minha amiga e pedi desculpas.
— Posso te dizer uma coisa? Eu não posso viver sem sua amizade, Teca.
E ela riu, mas ao mesmo tempo chorou. Era por tudo isso que a minha amiga sempre foi a mais querida da turma. Era a menina linda e amada. Porque Teca é uma caixa de surpresas boas, está sempre ao lado quando uma pessoa precisa e não tem medo de mostrar os sentimentos.
— Eu não consigo viver sem sua chatice, Blandinha – ela me disse, já prevendo um ataque de almofadas logo em seguida, porque colocou as mãos sobre o rosto. – E você ficou linda de cabelos pretos! – ela elogiou.
Fiz macarrão para o almoço, mas pensei na comida japonesa que Bernardo propôs. Mesmo antes de saber o que Tereza tinha de importante para contar, eu precisei desabafar: "Estou apaixonada". Notei sua cara de desapontamento. Quando contei, com vergonha e culpa, que não era pelo Max, ela abriu um sorriso. Então lembrei em voz alta o que havia acontecido no meu apartamento, as palavras de Bernardo e o que senti.
Para minha surpresa, Teca estava contente pelo fato de tudo aquilo ter acontecido comigo. Pediu para eu acreditar em sua amizade e disse que não gostaria de estar em uma situação tão difícil, mas iria se arrepender se escondesse um segredo tão sério de mim.
— Preciso te contar uma coisa, Blanda, mas antes quero que me desculpe – ela disse.
— Como eu vou te desculpar se eu nem sei o que é, Teca? Tá bom, eu desculpo. Você fez alguma coisa?
— Não. Mas irei te contar e me sinto mal por isso – ela tentou explicar.
Depois de mais umas garfadas no macarrão, ela empurrou o prato e falou de uma só vez: "Eu vi o Max com outra mulher".
Não sei o motivo, mas não fiquei triste. Não duvidei de sua palavra, confiei que aquela fosse a verdade, só que não consegui ter outra reação a não ser especular sobre a suposta amante. Minha amiga contou como tudo aconteceu.
À noite, em um restaurante de uma cidade próxima, mas não tão próxima assim, no fundo do estabelecimento e em uma mesa ao lado da janela, Max estava sentado de mãos dadas com uma pessoa. A mulher parecia alegre, do outro lado da mesa, falante e muito bem arrumada. Teca foi à cidade com uma vizinha que conheceu um rapaz pela internet, mas ficou com receio de viajar sozinha. No fim da noite, e após um encontro frustrado, foram jantar antes de voltar para casa. Quando Teca viu Max no restaurante, ficou escondida no banheiro e logo deu um jeito de ir embora com a amiga, sem que o casal as visse.
— Você sabia disso antes do programa? – eu questionei.
— Sabia. Queria que você conhecesse outro homem. Faz alguns dias que eu estou confusa, porque não sabia como contar tudo isso, mas agora ficou mais fácil, depois de saber que você está apaixonada por aquele baterista da Banda Zoom.
— Só que eu ainda sou noiva do Max, Teca.
— Eu sei, me desculpe. Como está se sentindo?
— Sinceramente? Bem. Estou ótima – e estava falando a verdade.
— Blanda, tem mais um detalhe.
— Qual?
— A mulher está grávida.
**********
Eu não podia me sentir mal por um sujeito que tinha engravidado outra mulher. Claro, porque ele não estaria com ela se o pai da criança fosse outro. Não bastasse o Max nunca ter sido presente, descobri que suas ausências tinham endereço, nome e telefone, além de um barrigão. Mesmo assim, eu não merecia me sentir mal, porque não tinha feito nada errado.
Teca contou que a mulher devia ter uns quinze anos a mais do que eu. Primeiro, fiquei feliz, porque poderia me sentir linda perto de uma mulher mais velha, caso a encontrasse. Em seguida, pensei sobre o que teria feito Max se envolver com uma mulher mais velha do que ele. Poderia ser amor. Poderia. E mais em seguida ainda, morri de vergonha por todos esses pensamentos pequenos. Uma pessoa pode se apaixonar pela outra independentemente da idade e da aparência. Que feio, Blanda! Mas eu estava machucada, eu só queria agredir alguém.
Decidi, então, bancar a detetive com Teca. Não era suficiente terminar o noivado, porque eu ainda seria tachada de aproveitadora. Claro, com certeza eu gostaria de me casar com ele para morar na casa linda da minha sogra. E como seus parentes poderiam acreditar nesse absurdo, eu resolvi que sairia por cima e ainda seria a vítima. Eu não era, afinal?
Cheguei a pensar que a mulher poderia não saber da minha existência. É verdade, mas, se eu pensasse sempre na felicidade de outra pessoa antes de mim, eu ficaria no último lugar da lista. Eu não merecia. Ter aparecido na televisão duas vezes me deu cara de pau suficiente para ser atriz por um dia. Teca topou na hora ser detetive particular para mim. O seu pagamento seria eu desmanchar o noivado.
Eu não tinha mais compromissos naquele dia. Encontrar a Teca era um deles e a minha amiga estava ao meu lado. Conhecer o local do casamento não fazia mais sentido, porque não haveria mais casamento. Decidimos voltar à cidade onde Max foi visto com a tal mulher. Eram cinquenta minutos de carro. Teca foi dirigindo e, antes mesmo de entrar na estrada, mudou o caminho de volta para o centro e me explicou o seu plano. A estratégia era boa, a cidade era pequena e eu não tinha vergonha de fingir ser outra pessoa que, aliás, nem existe de verdade. Difícil seria desmascarar Max, porque eu teria mais uma surpresa. Uma grande surpresa.
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9 Minutos com Blanda
RomanceO maior inimigo de Blanda é o despertador. A advogada está desempregada, quase sem dinheiro e divide o apartamento com seu gato Freddy Krueger. A presença constante de Max a recorda que ela tem um namorado, embora ele nunca tenha assumido o relacion...
