O dia já estava marcado no calendário e chegou. A primeira das duas vezes em que eu enfrentaria Manuela. A dona da loja de tintas. A namorada do Bernardo. A mulher mais insuportável que eu já conheci em toda a minha jovem vida.
Mamãe me incentivou a entrar com os processos e eu decidi que seriam em causa própria. O diploma de Direito não serviria para mais nada na nova carreira como pintora, mas eu queria ter o prazer de me representar diante da víbora de cabelos vermelhos. Primeiro no Juizado Especial Cível, por danos morais pela vergonha de ter sido exposta a uma situação vexatória e mentirosa. E depois no Juizado Especial Criminal, para uma ação de calúnia, já que um crime foi imputado a mim falsamente. E eu teria que provar a minha inocência.
Não consegui ter ideia melhor para roupa do que o terninho cinza. Com o novo rumo profissional, eu não pretendia comprar terninhos nunca mais. Para alegrar o visual, coloquei uma blusa laranja por baixo, um cinto da mesma cor por cima do blazer e um enfeite também laranja no cabelo, que um dia já havia sido berrante daquele jeito. Mamãe passou para me pegar de táxi e fomos juntas ao Juizado.
- Mamãe, a senhora só vai assistir à audiência. Não abra a boca.
- E se eu puder acrescentar algo para te ajudar?
- Mesmo assim, mantenha sua boca fechada, porque se tentar me ajudar pode me prejudicar, entendeu? Eu sei que sua experiência é grande, mas agora preciso que seja apenas a minha mãe - e ela pareceu ter entendido, porque respondeu com um sorriso.
Nem eu mesma sabia o que me aguardava. Na frente da sala de audiência, senti as pernas tremerem e por um instante me arrependi de estar ali. Foi quando avistei o meu pai, Teca, Catarina, Jaime e Roberto. Esqueci o arrependimento e decidi sair vencedora de qualquer desafio.
Dentro da sala, havia apenas duas pessoas com Manuela. A irmã Mafalda e um senhor barbudo de cabelos grisalhos, que devia ser o advogado. Um jovem entrou na sala e se apresentou como conciliador. Nos poucos minutos em que o advogado da ré tentou me convencer a entrar num acordo, eu só conseguia pensar em Bernardo. Onde ele estaria naquele momento? Então eu disse:
- Não aceito acordo nenhum.
Em poucos minutos, meus amigos, pais e eu estávamos sentados em uma lanchonete e conversando amenidades, apenas para esperar o tempo passar até o momento em que aconteceria a audiência de instrução e julgamento, naquela mesma tarde.
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O Juizado Especial foi a primeira e única opção na qual pensei depois de sair da loja da Manuela no dia em que, mesmo sem saber que eu a detestaria ainda mais, tive vontade de arrancar com pinça todos os fios de seus cabelos por me ter feito passar a maior vergonha da minha vida.
E me lembrei de cada detalhe daquele dia. Primeiro eu chego em casa e percebo que, em vez de tintas e pincéis, a sacola continha agulhas e linhas. Quando volto à loja, a ruiva entojada, dona do estabelecimento, diz que eu precisaria devolver a agulha de prata - que nunca esteve comigo. Quando resolvo ir embora, o alarme da loja toca e todas as pessoas me olham como se eu fosse uma ladra. Por fim, ainda pago pela agulha.
Mas agora era a vez dela de pagar.
Todos sentados, enquanto o juiz falava e meu pensamento voava, eu observei Manuela acompanhada somente pelo advogado e pela irmã. Meus amigos estavam ao meu lado. Teca deu um jeito de estender a mão e apertar a minha bem forte.
Tudo estava pronto. Minha testemunha era uma pessoa que estava na loja naquele dia e presenciou a minha vergonha. Mamãe, habilidosa na profissão e defensora de sua cria, já imaginou que anotar o telefone de alguém presente naquele dia poderia ser útil depois. Enquanto eu preenchia o cheque pela agulha de prata, mamãe conseguiu o telefone de três pessoas, e uma senhora chamada Ivone aceitou testemunhar a meu favor na audiência. Ela disse, no dia em que nos encontramos pessoalmente, que achou um "pecado uma moça tão bonita passar por ladra" e, quando perguntei como ela tinha certeza da minha inocência, ela contou que a filha já tinha passado por situação semelhante na mesma loja, só que quando o alarme foi acionado revistaram sua bolsa e perceberam que nada havia de errado.
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9 Minutos com Blanda
RomanceO maior inimigo de Blanda é o despertador. A advogada está desempregada, quase sem dinheiro e divide o apartamento com seu gato Freddy Krueger. A presença constante de Max a recorda que ela tem um namorado, embora ele nunca tenha assumido o relacion...
