16. Verdades e mentiras

302 42 5
                                        

Bernardo. Bernardo. Bernardo.

— Ei, você está dormindo?

Era o Max.

— Estava pensando. Acabei de vender um quadro e estava pensando nisso, na verdade. Na venda do quadro. Um quadro foi vendido, entende? E o moço acabou de levar a obra, ele estava acompanhado da namorada. Não sei se era namorada, mas ela o chamou de amor, então deve ser. Mas ela era a mulher lá da loja, aquela mulher que me fez passar vergonha na loja, eu não te contei? Como é que ele pode namorar uma pessoa tão sem educação? Não sei, mas ele levou o quadro, nem sei se é para dar de presente para ela...

Max me interrompeu, disse que não estava entendendo nada, parecia uma história confusa porque eu não havia contado nada sobre o vexame na loja e o fato de o rapaz ter comprado o quadro era o mais importante, já que nós não tínhamos nada a ver com a vida dele. Mas eu tinha. Sem saber como, eu tinha.

Teca chegou ao mesmo tempo em que eu vi meu pai entrando no salão. Eu não o via fazia muito tempo, talvez uns quatro ou cinco meses. São longos períodos desde a separação de minha mãe. Ele mantinha contato sempre. Eu não passava uma semana sem um telefonema e só tenho boas memórias de um pai carinhoso na infância. Mas a história da traição à minha mãe me fez, de certa forma, sentir mais apegada a ela desde quando eu soube. Na verdade, ele nunca tinha me contado a sua versão da história.

Naquele dia, o escândalo foi grande. Eu me lembro de ver a mamãe chorando e gritando e o papai dizendo que a separação era inevitável. Quando ele saiu, depois de me dar um beijo e dizer que sempre seria meu pai e nunca me abandonaria, minha mãe disse que estava sendo traída e por isso eles não iriam mais morar juntos. Meu pai nunca deixou de ir à nossa casa, de assistir às apresentações na escola, de telefonar e me buscar para passar o fim de semana na casa dele, mas eu cresci e passei a tomar minhas próprias decisões.

Já adolescente, o fato de eu saber sobre a traição se tornou um fardo, porque eu comecei a pensar mais no relacionamento entre as pessoas e fiz a terrível descoberta de que a traição é muito mais do que uma pessoa ficar com a outra, enganar, mentir e esconder. Trair era acabar com o respeito na relação, quebrar o pacto de amor, encerrar a história da pior maneira possível.

Não sabia com quem, nem quanto tempo, nada. A minha mãe dizia que preferia preservar o meu pai e eu deveria amá-lo, porque era um bom homem e fazia tudo por mim. Mas eu pensava que ele deveria ter vindo falar comigo para contar a história toda. Até sentia que ele me devia desculpas.

O meu relacionamento com ele mudou e eu sentia falta. Ele sempre gostou dos meus quadros, até o último que eu lhe dei, um gato com traços infantis, dias antes de ele sair de casa. Nunca mais fiz um quadro para o meu pai, mesmo sabendo que ele era um grande incentivador da minha carreira. Talvez o maior.

E lá estava ele, com um casaco marrom e um sorriso no rosto, apesar de eu não o ter convidado. Ele deve ter perguntado a alguém para descobrir a data e o horário da minha primeira aparição pública com minhas obras. E eu fiquei feliz por ele estar lá.

— Filha, que orgulho eu sinto de você!

E eu pude notar na sua expressão que era verdade. Nunca consegui aceitar muito bem o fato de ele ter contado mentiras, sendo que sempre o admirei pelas suas verdades. Ali, depois de um abraço apertado, notei que seus olhos estavam vermelhos e com lágrimas. De felicidade.

Eu me sinto mal por ser quem eu sou, às vezes. Mas acho que meu pai conseguiu transpor uma película quase invisível que nos distanciava. Aquele sorriso quebrou o gelo do meu coração e eu retribuí o abraço.

9 Minutos com BlandaOnde histórias criam vida. Descubra agora