Catarina não acreditou quando Teca lhe contou a história de Max. Foi por telefone e o silêncio no viva-voz do celular podia explicar a indignação da nossa amiga. Eu ainda estava chateada por ela não ter ido ao vernissage, mas aprendi a relevar tudo o que a Catarina faz e não faz, porque tenho a impressão de que quando nos falamos, mesmo que seja apenas uma vez ao ano, ela ainda sabe tudo sobre mim e está disposta a me ajudar.
Ela pediu para telefonarmos dali a dez minutos no celular e nos instruiu para não tentarmos entender nada. Deveríamos apenas telefonar. E foi o que fizemos.
— Ahhhh, não acredito! – disse Catarina do outro lado da linha. Enquanto ela falava sozinha, eu e Teca permanecíamos mudas.
— Eu gostava tanto do tio-avô Lourival. Ele era um homem tão bom, tão generoso e ajudou a me criar... Eu nunca poderia estar longe de vocês nesse momento – e fez uma pausa, em que podia se ouvir um fungado de nariz típico de quem esconde o choro – ele vai fazer muita falta, prima. Pode deixar que vamos juntas na casa da tia-avó. Passe aqui daqui a pouco para me pegar. Traga uma roupa preta para que eu possa me vestir adequadamente e vamos direto para a chácara – e desligou o telefone.
Cerca de vinte minutos depois, Catarina estava conosco dentro do carro, rindo de sua própria mentira.
— Que feio, Cacau. Você matou seu tio que mora na chácara! – disse Teca, em tom de brincadeira.
— Ele nem existe! – ela disse, rindo ainda mais. – E vocês acham que eu ia perder a chance de ver esse teatro? De jeito nenhum!
A saída de Catarina do trabalho foi mais um impulso para o nosso plano. Parecíamos crianças pensando em uma vingança para o namoradinho que deixou a menina esperando na porta do parquinho e não apareceu. Decidi não falar do vernissage no momento em que Cacau entrou no carro. Só que ela não esqueceu o assunto.
— Blandinha, você me perdoa por não ter ido ao seu vernissage? Estou arrependida. Fui à casa dos meus sogros, mas depois eu e o Neto tivemos uma conversa e percebemos que não saímos mais com os amigos. Desculpe. Faço questão de conhecer todos os seus quadros depois.
— Se você for uma boa menina hoje, eu te desculpo – e sorri. Ser uma menina boazinha implicava em aceitar o trato de atuação em ambiente público. As montagens de peças comemorativas na escola serviriam para um propósito maior e, a julgar pela interpretação da perda do tio-avô que nem existe, eu sabia que Catarina seria uma boa atriz.
Rodamos de carro poucos minutos até chegar a uma casa que eu e Tereza conhecíamos, mas Catarina nunca tinha visto. Na hora em que Jaime abriu a porta, as três soltaram um "ufa" de alívio por aquele ser um de seus dias de folga do hotel.
Teca, a inventora de quase toda a história que iríamos contar naquele dia, explicou tudo para Jaime, que, ao saber o papel que interpretaria na primeira parada, topou na hora nos ajudar.
— O Roberto não vai ficar com ciúme por você sair com três mulheres? – perguntou Cacau em tom provocativo.
— Ele teria ciúme se você fosse um belo rapaz, fofa.
Jaime nos lembrou de detalhes importantes e passamos na casa de Teca antes de seguirmos viagem. Nossa amiga descolada tinha todos os elementos necessários. Encontramos dois figurinos diferentes para Jaime e roupas recatadas para cada uma de nós. O ideal era não chamarmos a atenção das pessoas, porque esse trabalho ficaria com nosso amigo. Se fôssemos bem-sucedidas na primeira etapa, poderíamos inovar na segunda e por isso buscamos acessórios como óculos de sol, estolas, boinas e maquiagem. A verdade é que ninguém sabia como seria nossa segunda etapa até a primeira ser concluída.
A viagem foi incrível. Parecíamos quatro amigas indo para a praia. Jaime estava muito mais divertido do que quando éramos mais novos, parecia mais feliz, realizado e absolutamente decidido. Catarina contou as histórias da família do marido, disse que Neto era um homem maravilhoso, mas eles pensavam em se mudar de cidade para se afastar das famílias, que se intrometiam na vida dos dois. Teca revelou os planos de abrir uma loja com uma grife própria, e eu... eu era a personagem principal do dia.
Não senti vergonha de repetir a história para meus amigos. Jaime me fez dizer várias vezes a frase "Sou poderosa e o Max é um bundão" e me deu preciosas dicas de como arrumar a minha nova cabeleira preta, além de maquiagem completa para iniciantes.
Fazia muito tempo que eu não me divertia tanto.
Rimos, conversamos, contamos piadas e eu não conseguia sentir tristeza por ter sido traída. Não derrubei uma única lágrima e só pensava no reencontro com o Bernardo. Eu não sabia quando seria e muito menos que aconteceria em uma situação constrangedora para ambos.
O problema com Max era pensar como seria a mulher que estava esperando um filho dele. Porque ela poderia saber ou não da nossa história. Havia duas possibilidades: ser uma crápula e conhecer toda a enganação, uma hipótese sem sentido para mim, ou ser mais uma enganada. E no segundo caso, ela poderia achar que eu era a amante. Tudo dependia do ponto de vista.
Max ia ser pai. Ele era um canalha e eu uma tonta. Precisava provar que podia ser diferente. A minha vida ia seguir o rumo que eu quisesse a partir daquele momento. Decidi que não estragaria mais um ano da minha existência com quem não valia a pena. E descobri, assim, que podia ser feliz. Enquanto me desliguei da conversa por poucos minutos e pensei que gostaria, na verdade, de estar com Bernardo no sofá de casa, no momento exato do nosso primeiro beijo, Teca avisou que tínhamos chegado.
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9 Minutos com Blanda
Roman d'amourO maior inimigo de Blanda é o despertador. A advogada está desempregada, quase sem dinheiro e divide o apartamento com seu gato Freddy Krueger. A presença constante de Max a recorda que ela tem um namorado, embora ele nunca tenha assumido o relacion...
