Quando algo dá certo, a energia da felicidade atrai outras alegrias. E foi assim com meu primeiro processo, em que ganhei a causa em nome próprio e, principalmente, contra a Manuela. Para completar, recebi a declaração de amor do homem mais completo que eu já conheci. O meu Bernardo, gerente de banco, baterista de uma banda e possuidor de uma boca linda e que beija bem. Eu sabia, na sala de audiências, que não conseguiria resistir aos seus encantos por muito tempo.
- Você se lembra do convite para irmos a um restaurante japonês?
- Eu não esqueci nenhum dia - respondi.
- Que tal acontecer agora?
- E se eu disser que não será um jantar a dois?
- Vamos levar todos. Precisamos comemorar a sua vitória, não é mesmo? - ele me respondeu com um sorriso.
Jantamos todos juntos. Pedimos uma mesa grande para nós dois e papai, mamãe, Teca, Catarina, Jaime e Roberto. Todos foram embora e Bernardo me acompanhou até o apartamento. Sem eu pedir, sem ele dizer algo a mais.
Entramos sem falar nada e nos beijamos.
Nunca, nem em meus sonhos, eu poderia imaginar que beijar fosse tão bom. E que gerava tanto calor em meu corpo.
Eu me lembrei de uma garrafa de vinho que tinha na geladeira. Talvez já tivesse virado vinagre, mas seria uma boa desculpa para eu buscar as taças e deixar acesa somente a luz do abajur na sala e no quarto. Luz acesa, não. Eu já imaginava que ele poderia ver todas as imperfeições das minhas pernas e, quando encontrasse as celulites em formação de coral, seria um desastre. Luz baixa. Não poderia assustar Bernardo.
Servi o vinho nas taças e ele bebeu.
Em seguida, ele cuspiu. Demos risada.
- Blandinha, esse vinho serve para temperar salada.
- Bem que eu imaginei.
- Eu te sujei - ele disse. E tirou o meu blazer cinza com manchas de vinho estragado.
As risadas foram abafadas com mais um beijo. Com as mãos em meu rosto, ele escorregou para os cabelos e me acariciou. Segundos depois eu estava em seu colo, como uma noiva é levada pelo marido à casa nova após o casamento. E foi naquele momento que o mundo parou. Nosso beijo parou. E ouvimos um barulho na fechadura.
Parecia uma piada de mau gosto, mas bem na nossa frente estava Max. O meu ex-namorado segurava uma sacola em uma das mãos e fechava a porta com a outra.
- Blanda, o que está acontecendo aqui? - ele perguntou com ironia.
- Max, eu que tenho que fazer perguntas. Como você entrou aqui se você me entregou a chave do apartamento?
- Essa chave é minha, meu amor, esqueceu que você quem me deu?
- Você está louco! - e no momento seguinte eu percebi que ele havia feito uma cópia antes de me entregar a sua chave. - Você fez uma cópia, não é? Max, você não presta!
- Blanda, meu amor, eu chego em casa e pego minha namorada no colo de outro homem e ainda sou agredido?
- Eu não sou sua namorada! - eu gritei, com lágrimas nos olhos.
E, sem eu imaginar que tudo poderia ficar ainda pior, Max tirou da sacola o meu vestido florido. O mesmo que ele usou naquele dia em casa, quando eu joguei suas roupas pela janela e o deixei pelado no quarto. Ele saiu sem reclamar, passou vergonha e resolveu se vingar. Deve ter acompanhado meus passos, provavelmente viu quando eu e Bernardo entramos no apartamento e entrou em ação no momento que julgou mais oportuno. Para se vingar de um vexame. Para fingir ter algo que nunca teve.
- Blanda, você esqueceu o seu vestido na minha casa. Naquele dia em que tivemos uma noite de amor maravilhosa, você se lembra... e eu vim trazer.
E sem perguntar nada, Bernardo saiu. Eu o chamei de volta, disse em voz alta para o prédio inteiro escutar que aquilo tudo era mentira, mas não adiantou. Ele foi embora e quem ficou no meu apartamento foi Max, com olhar de vitória.
- Por que você fez isso? Sabe que é tudo mentira.
- Eu sei que você estava comigo e só pensava nele, Blanda.
- Eu pensava. Eu só pensava. Mas você engravidou duas mulheres e acha que é a pessoa mais correta para vir me falar de caráter, seu imbecil? Você acaba de tirar do meu apartamento o homem da minha vida, sabia? O homem que é para mim o que você nunca foi e sabe por quê? Porque, Max, você nunca me fez feliz de verdade. Você nunca me fez sentir segura e amada. Você me tratava como uma mulher qualquer, como se esperasse uma princesa virgem aparecer na sua vida. Max, você não significa mais nada pra mim. Me fez sentir uma mulher incapaz durante tanto tempo só porque você é o incapaz. Nunca me elogiou de verdade, nunca me apoiou. Até agora não entendo como eu ia me casar com você. Não, eu acho que entendo, sim. Eu não conhecia o amor. Mas agora eu conheço. Fora da minha casa, vai cuidar de suas duas mulheres e seus filhos.
- Não posso dizer o mesmo, Blandinha. Parece que o rapaz não gostou muito da história que inventei e você vai ficar sozinha. - e então Max saiu. Mas não era para sempre.
**********
Chorei.
Chorei como uma criança que perde a boneca ou não consegue um doce. Era ódio de Max misturado ao amor por Bernardo. Mas eu não poderia deixar que o meu primeiro amor, que só aconteceu aos meus vinte e quatro anos de vida, fosse embora. Sem dizer nada, sem explicações, sem que eu pudesse dizer o quanto ele havia sido importante, mesmo com tão pouca convivência.
Eu não conhecia Bernardo, mas também tinha certeza do meu sentimento.
Lavei o rosto e notei que os olhos ainda estavam vermelhos. O nariz parecia o de uma rena do Papai Noel.
- Em quanto tempo pode fazer o serviço? - ouvi uma voz vindo da sala. - Porque preciso que seja feito o mais rápido possível.
Quando cheguei, vi Bernardo com um rapaz mexendo em minha porta.
- Blanda, tomei a liberdade de chamar o chaveiro para trocar essa fechadura. Desculpe a ousadia, mas não quero que nenhum outro louco entre no apartamento da minha namorada sem permissão.
Corri para seus braços e pulei em seu colo. O rapaz trocou o miolo da fechadura em poucos minutos e trancamos a porta com a nova chave.
- Você não pensou que eu ia embora antes de tomar todo aquele vinho delicioso, pensou? - disse Bernardo.
- Bernardo, eu queria explicar o que aconteceu aqui em casa. O Max é um louco e... - mas não consegui explicar nada. Fui interrompida com um beijo. E ali, com Bernardo ao meu lado, eu não me importei com as luzes acesas e tive a melhor noite da minha vida. Que se estendeu até a manhã do dia seguinte, quando acordamos abraçados no chão da sala.
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9 Minutos com Blanda
RomanceO maior inimigo de Blanda é o despertador. A advogada está desempregada, quase sem dinheiro e divide o apartamento com seu gato Freddy Krueger. A presença constante de Max a recorda que ela tem um namorado, embora ele nunca tenha assumido o relacion...
