12. Surpresa!

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Queridas(os)!

Amanhã, sábado, dia 5 de setembro, não conseguirei postar o capítulo a tempo. Então como promessa é dívida de um capítulo por dia, eu vou antecipar o capítulo de amanhã para hoje, tudo bem? Estou desculpada? ;-)

Domingo tem mais capítulo novo!

Um beijo grande e continuem comentando. Estou adorando o retorno de vocês!!! :-)

Fernanda.

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Antes de sair às compras na segunda-feira, resolvi checar os meus e-mails. O computador era velho como o resto do meu lar doce lar. A internet ainda era discada, daquelas em que precisamos fazer uma ligação com o além para conseguir uma conexão com a rede mundial de computadores, mas ainda assim eu não podia reclamar muito, porque funcionava.

Quanto lixo cibernético. Eu vi dezenove novas mensagens. Nove eram porcarias. Um e-mail tentava me vender um pênis verde de borracha com cinquenta centímetros (eu tive até vontade de escrever de volta tirando sarro e pedindo um tamanho maior), outro dizia que um cartão estava à minha espera (um vírus, na verdade, mas não sou tão tonta assim) e um terceiro oferecia desconto para a compra de utensílios para a casa. Não, obrigada.

Fora os e-mails de desconhecidos, meus amigos me lotavam de piadas infames. Umas eu lia, outras eu apagava sem ler e outras eu respondia. Diretamente para mim, apenas duas mensagens. Teca escrevia perguntando como eu estava e disse que tentou me ligar no fim de semana, mas não conseguiu. Também tive uma surpresa: e-mail do Jaime. Ele era um pouco afastado da turma da rua, mas mantínhamos contato ainda pela internet. Eu me lembro de quando ele foi morar em outro estado e escrevia contando suas aventuras. Jaime se tornou hoteleiro dos bons e vivia viajando por diversos empreendimentos de turismo no Brasil. Eu adorava as fotos que ele mandava.

Naquele dia em especial ele enviou um convite. Fiquei empolgada quando li que ele iria se mudar para uma casa própria (e enorme, pelo jeito) e convidava todos os amigos para conhecerem. Ele sempre teve bom gosto para decoração e qualquer espaço dele era maravilhoso.

"Teremos o maior prazer em receber os amigos no nosso lar. Mesmo aquelas pessoas que não vemos há muito tempo, sejam bem-vindas. Vamos encontrar toda a galera no próximo sábado às dezenove horas". Logo deu para perceber que Jaime estava com uma garota. Devia ter casado ou, talvez, só juntado os trapos mesmo. Como ele adorava festas, tinha certeza de que se tivesse casado teria convidado todo mundo para uma comemoração.

Sorte da moça, porque ele era um bom rapaz. Além de muito atencioso e criativo, era bonito. Alto, moreno, cabelos pretos encaracolados e olhos cor de mel. Braços fortes, sorriso perfeito e mãos delicadas. As meninas da rua babavam no Jaime, ele era o rei do pedaço.

"Eu e Roberto esperamos todos vocês aqui na nossa casa. Não se preocupem que, por enquanto, nossa família ainda é pequena (nós dois) e quem quiser dormir por aqui mesmo nem precisa pedir, é só ficar. Abração a todos."

O quê?

Hã?

Como assim "nossa família"?

Roberto?

Meu Deus!

— Catarina, você está ocupada? – eu disse ao telefone, menos de um minuto depois.

— Oi, Blanda, tudo bom? Quanto tempo, menina. Estou no trabalho, mas pode falar. Você quer ligar no telefone fixo daqui?

— Não, tudo bem falar no celular. Aliás, se você puder ir para um lugar onde possa fazer cara de chocada, eu aconselho.

— O que houve?

— Lembra o Jaime? Da rua?

Claro que a Catarina ia se lembrar do Jaime. Ele era o melhor amigo de um cara por quem ela era apaixonada, o Roberto. E eu era apaixonada pelo melhor amigo do Roberto. Ele mesmo, o Jaime.

— O que tem o Jaime?

— É gay.

— Espera um pouco, vou ao banheiro – ela disse. Um minuto depois eu escuto a Catarina berrando: – Ahhhhhhhhhhh!! O Jaiminho? Rá, rá, rá... Seu grande amor virou gay, Blanda? Quer dizer, ele sempre teve um jeito delicado, mas como é que eu poderia imaginar que ele iria assumir?

— Dê bastante risada, vai.

— Blandinha, pega leve. Isso foi há tantos anos... O tempo passa. Mas me diz uma coisa...

— Vou dizer, sim, mas quero que você escute antes de perguntar. Ele juntou as escovas de dente sabe com quem? Com o Roberto.

Por um instante, eu achei que ia matar a minha amiga. Porque ela estava casada e tudo mais, mas eu sempre soube que o Roberto era um fraco dela nunca superado. Eles ficaram algumas vezes, mas todos achávamos que ele era um galinha, queria todas, por isso nunca firmava compromisso com nenhuma. Na verdade, erramos o palpite. Erramos feio.

— Não pode ser... Ele e o Roberto... casaram?

— Se esse é o nome de uma união estável, sim, casaram. Vão mostrar o ninho de amor no fim de semana, se você quiser conhecer. Leva o seu marido e diz "Benhê, olha meu amor de adolescência. Você nem precisa ter ciúme, porque ele nunca vai querer nada comigo". ­– E dei risada. No começo, Catarina parecia brava, mas depois começou a rir também.

— Você bem que poderia apresentar o Jaime para o Max... Ele ia gostar de saber que não há concorrência com o moço bonito.

Acho que toda mulher precisa de um amigo gay, mas era diferente com o Jaime. Eu tinha gostado dele! Começou quando dançamos quadrilha juntos na escola, na quarta série. Ele segurou a minha mão, meu coração bateu forte e eu vi o quanto aqueles olhos cor de caramelo eram lindos. Ele estava com uma camisa xadrez, um chapéu de palha e exibia um coração colado na bunda da calça jeans. Eu estava com um vestido vermelho e azul de listras, com rendinha nos ombros e na gola, além de enormes trancinhas ruivas. Nunca me esqueço daquele dia nem de todas as nossas histórias com festas juninas.

Foi justamente em uma festa junina que eu dei o meu primeiro e único beijo no Jaime. Eu já tinha dezenove anos, foi logo depois do primeiro e fatídico beijo do advogado. A turma toda resolveu ir à festa do colégio onde estudamos quando criança. Passamos a tarde inteira lá, tomamos quentão, vinho quente, comemos pipoca, pamonha e curau. Demos risada e, quando quase todos já tinham ido embora, menos eu e a Tereza, Jaime me chamou a um canto de que me lembro bem: era o cantinho dos beijos quando éramos mais novos. Não falamos nada, nem conversamos. Ele me beijou e depois beijou de novo e de novo e de novo. Foi delicioso. Mas hoje eu imagino que ele deve ter feito aquilo ou para testar se sentia alguma coisa por mulher, ou porque estava bêbado de tanto quentão.

É estranho pensar que o amor da sua infância, aquele rapaz por quem você foi apaixonada tanto tempo, nas idas e vindas das crises de adolescência, aquele bonitão fofo que tinha um beijo bom e carinhoso, aquele cara... era gay. E eu nem ousava comparar suas qualidades às do Max.

O Jaime foi uma surpresa para mim, mas eu não poderia parar o meu dia. Havia muito a ser feito, as compras precisavam começar e as tintas, pincéis e telas aguardavam o meu talento (primeiro eu deveria procurá-lo). Expliquei para Catarina como descobri a notícia do ano e ela ficou de me ligar depois para combinarmos se iríamos ou não à festinha do Jaime e do Roberto. Para ser sincera, eu bem que queria ir.

9 Minutos com BlandaOnde histórias criam vida. Descubra agora