34. Dose tripla

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Eu tenho duas sogras.

Um namorado novo, duas sogras e como eu poderia esquecer... uma ex-sogra! Mamãe me ligou em uma manhã, no meio da semana, para contar que Dona Cremilda tinha entrado em contato com ela para as duas acertarem, como combinado sei lá quando ou onde, o pagamento do casamento.

- Que casamento? - disse mamãe.

- Dos nossos filhos - respondeu a maluca.

- Eles não vão mais se casar, Cremilda. De onde você tirou essa ideia?

- Mas o casamento ficou acertado e precisa ser pago. Já me ligaram em casa com cobranças.

- Então resolva. Pode cancelar.

Cremilda não explicou o motivo de tamanha inquietação e disse que mamãe devia ir ao espaço do casamento. Eu decidi ir com ela, porque o problema era, na verdade, meu. Com o endereço anotado por mamãe, chegamos ao Espaço Sonho à tarde. Estacionamos o carro e a entrada, suntuosa, já me chamou a atenção. Na porta do salão, que mais parecia um palácio, estava a ex-sogra, parada como um espantalho. Sorriu com desprazer e disse: "Vamos". Entramos juntas em uma sala decorada com lustres de cristal e uma moça com um terninho parecido com o meu uniforme de advogada se dirigiu à Dona Cremilda.

- Esta é minha ex-nora - disse minha ex-sogra.

- Sou a Blanda, prazer. Vim resolver um probleminha e me desculpe se eu pareço indelicada, mas gostaria de entender o que está acontecendo aqui e cancelar tudo para irmos embora.

Em poucos minutos, com o contrato assinado por mim mesma em um dia com pressa, constatei que não poderia cancelar o casamento com Max. Ou eu casava ou eu pagaria o restante das parcelas. Tudo porque eu não li aquele contrato absurdo. Bom, tudo bem, eu pensei, porque afinal era só quitar as parcelas restantes, já que a ex-sogra se encarregou de pagar o casamento. Se ele não iria acontecer, a culpa era do próprio filho, então minha consciência não pesou nem um miligrama.

A ex-sogra só tinha se esquecido de me dizer que tinha dividido o casamento em doze parcelas e pago apenas a primeira. Mas fez questão de me lembrar, antes de se levantar e ir embora, que não pagaria nem mais um centavo.

- Meu filho não irá mais se casar, então minha responsabilidade acaba aqui. Serei generosa e não pedirei a restituição da parte paga, mas lembre-se de que há apenas uma assinatura neste contrato e ela é sua, Blanda.

Generosa? Será que ela sabe o que é um dicionário?

Aquele rosto bonito, aquelas roupas caras e aquele sorriso falso me deixaram nauseada. E Max continuaria a ser o homem sem caráter que eu conheci porque a própria mãe o protegia.

Eu não sabia qual atitude tomar. Então pedi para ir ao banheiro. De lá, não tive dúvidas: liguei do celular para Dona Cotinha.

- Dona Cotinha, preciso de ajuda.

- O que aconteceu, filha?

- Estou no espaço onde iria acontecer o meu casamento com o Max. Uma moça maluca me disse que eu preciso casar ou tenho de pagar outras onze prestações do casamento, porque eu assinei um contrato absurdo. Eu não vou me casar com Max. Eu não vou pagar um casamento que não vai acontecer.

- Você não é advogada? Então, vai encontrar uma solução para o problema, mas eu sugiro que não diga nada à empresa. Veja quando é o vencimento da próxima parcela e faça-os esperar.

Lavei o rosto e procurei ficar calma. Quando voltei, pedi uma cópia do contrato e disse que continuaria pagando o casamento. A moça de terninho não perguntou o motivo da súbita mudança e concordou com minha solução.

- A senhorita gostaria de conhecer a nossa casa? - perguntou, para finalizar a conversa. Então eu concordei.

Quando entrei, ainda apreensiva, eu não consegui perceber a beleza do lugar. No passeio que fizemos, a moça explicou que são colocadas tochas para os casais que realizam a cerimônia à noite. Para os casamentos de dia, há colunas de flores logo na entrada. Uma capela completava o sonho de qualquer mulher que também desejasse se casar na Igreja. Pois é, o lugar tinha um lindo altar. O salão era enorme, com um palco, iluminação especial e as fotos mostradas no álbum deram a certeza de que o lugar ficava ainda mais lindo nos dias de casamento. Era o espaço onde sempre sonhei me casar. Mas como o noivo era errado, eu abria mão de tudo.

Enquanto conhecia o lugar onde o bolo era colocado, o celular tocou. Era Bernardo. Combinamos de jantar na casa da mãe dele. "Preciso te contar algo muito importante, Blanda, e é sobre minha família." Como eu já sabia, convidei Dona Cotinha para ir comigo, assim as explicações seriam poupadas. Mamãe se empolgou com a ideia de um jantar na casa do meu novo namorado e disse que escolheria uma roupa bem bonita, mas eu insisti que isso seria um presente meu e, então, passaríamos no shopping logo depois da visita ao Espaço Sonho.

- Mamãe, preciso pedir um favor. Só um.

- O que é, filha? - perguntou, enquanto acabava de se maquiar para irmos ao jantar na casa das minhas duas sogras.

- Não toque no assunto casamento.


9 Minutos com BlandaOnde histórias criam vida. Descubra agora