28. Pensamentos sobre mim

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Eu não dormi. Os poucos minutos em que consegui pegar no sono foram de péssima qualidade. Tive pesadelos e levantei assustada como se alguém tivesse entrado no quarto. Em uma das vezes era apenas Freddy, que subia na cama, e nas outras era a intensidade do meu pensamento.

Não falava com Max desde que havia descoberto que tinha uma amante. Primeiro, eu me sentia culpada por conhecer um homem por quem senti as pernas tremerem no primeiro beijo. Não quis continuar nem mais um minuto com Bernardo até resolver a minha situação com o Max. Ao mesmo tempo, o meu namorado já tinha outra mulher e nem devia saber o que é culpa.

Durante um dia inteiro, eu brinquei de detetive e agora eu precisaria enfrentar a realidade em um teatro dirigido por mim mesma. A minha vida de advogada desempregada, com um namorado quase morando em casa, tinha se transformado em uma novela, com um emprego diferente, um namorado com amante (e grávida) e um casamento marcado com ele. Para completar, havia Bernardo.

Decidi tirar um papelzinho da sorte de uma caixinha que ganhei havia anos. Dona Cotinha disse para eu tirar um pensamento sempre que estivesse indecisa, triste ou confusa. E eu sentia tudo dentro de mim. A frase do papel foi "Você vai ganhar ao perder". Saí da cama, procurei a agenda na mesa de jantar e decidi que, por mais um dia, não pintaria nenhum quadro. O trabalho iria esperar.

Liguei para Max e ele, carinhoso, disse que estava com saudade. Fiquei com raiva.

Combinei com o traidor de ele passar em casa mais tarde, porque estava preparando uma surpresa. Como ele ainda estava sem emprego - e aparentemente sem preocupação para encontrar um -, disse que não havia problema em ir quando eu ligasse. Isso porque ele não sabia o que iria acontecer em casa. Eu me lembrei das vezes em que Max foi embora com sono, quando na verdade deveria se encontrar com a amante.

Além de Max, chamei Dona Cremilda. Seu José não poderia vir. Em seguida telefonei para Tereza, Catarina, Jaime, mamãe e papai. O melhor horário seria à noite, para todos estarem presentes. Seria como uma festa, em que os convidados se preparam e dedicam um horário para a ocasião. Eu queria que todos dedicassem apenas um minuto, o exato minuto em que toda a verdade seria revelada.

Não almocei e passei o dia entre a cama e o sofá. Chorei, solucei, despenteei meus cabelos com a raiva de uma menininha e me olhei no espelho. Nada de ser aquela Blanda mais uma vez. Eu merecia ser feliz. Todo mundo merece ser feliz. E a fase de acreditar na felicidade por meio do sofrimento já tinha acabado. Quando adolescente, cheguei a pensar que uma pessoa só é feliz de verdade se sofre, algo como uma purificação.

Mas eu não queria sofrer. Percebi, com toda a minha história, que mesmo quando tivesse problemas, quando ficasse triste porque algo ruim realmente aconteceu, eu não queria sofrer. Eu precisava aprender com os fatos e seguir em frente. Já era uma mulher, não podia mais agir como uma criança. Minha alegria poderia ser compartilhada com meus pais, mas eu não precisava me espelhar na história deles. O que eles viveram não era minha culpa e nem seria eu a consertar. A minha história era diferente.

Por muito tempo, eu não sabia quem era. Não tinha certeza de ter escolhido a profissão certa, achava que amar era apenas estar junto e o nível "médio" me satisfazia. Mas eu havia mudado. Sabia que poderia ser uma boa advogada, porque tenho senso de justiça. Não precisaria defender qualquer pessoa, mas poderia defender alguém se quisesse. Além disso, eu não era só advogada, também sabia fazer outras atividades na vida e talvez por isso tenha descoberto que podia ser advogada. Sempre tive medo de me transformar na mulher de terno cinza e frustrada, cumprindo tarefas apenas porque é necessário. Queria cumprir por vontade.

Descobrir que eu era mais do que uma profissional me deu a dimensão exata sobre conciliar trabalho com lazer. E advogada e pintora poderiam se alternar nesses papéis. Não precisava ficar com alguém só para dizer que tinha um namorado, porque em algum lugar do mundo, que é grande demais, eu sabia que existia uma pessoa para cada outra. E que amar é possível.

No meio de tanta confusão, aprendi que podia ser uma mulher mais forte. Eu não precisava ter vergonha do meu cabelo laranja, de aparecer na televisão ou de tirar uma calcinha cor-de-rosa da bolsa, porque ninguém tinha nada a ver com a minha vida. Eu podia ser quem eu quisesse, porque era livre e, o mais importante de tudo, escolhi ser uma mulher realizada e feliz.

Não sem antes resolver as pendências da vida antiga, claro.


9 Minutos com BlandaOnde histórias criam vida. Descubra agora