No lado de fora

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Desci as escadas rapidamente, eu suava frio, aquele homem me assustava. Corri pelo salão e sai pela porta escancarada, seguindo pelo enorme caminho de pedra que seguia até os portões quebrados. Olhei por cima de meu ombro, e lá estava ele me perseguindo, correndo como um louco.

Apresso o passo e paro nos portões, estou deixando meu reino, minha casa, minha família, meu irmão... Vão ficar lá, apodrecendo, sem um enterro digno. Perdemos a guerra, tenho certeza, nosso império caiu. Respirei fundo e passei por aqueles muros.

Vejo soldados mortos em minha volta, ao longe, casas incendiadas. Um rio cerca o castelo e eu atravesso uma ponte de madeira, vejo corpos flutuando na água. Entrei na cidade, as casas estavam quebradas e muitas, queimadas. Os sobreviventes faziam as malas e estavam prontos para irem embora dali. Ao me verem, ficam impressionados, ninguém nunca me viu, nunca viram a princesa. E agora, cá estou eu, suja de sangue e imunda, completamente acabada.

Tudo está destruído, corro desesperadamente pelo reino. Sofrimento para todos os lados. Meus pés descalços encostam no chão frio e sujo com sangue inocente, causando-me arrepios em minha espinha. O dia está nublado por conta da fumaça dos incêndios ao longe. Crianças se escondem ao me ver, totalmente assustadas. Vejo pessoas chorando com a perda de entes queridos.

Não posso parar, tenho que fugir, ir embora. Não posso fazer mais nada pelo o que se foi perdido. Minha família toda se foi e tudo o que eu conhecia, acabou.

Corro o mais rápido que posso. De canto de olho vejo o homem me seguindo, ele corre e me olha fixamente. Ele é rápido e pula os objetos com uma facilidade que eu não consigo acreditar, é como um animal.

Vejo ao longe algo que pode me salvar, despistando o assassino. Corro até um cercado velho e o pulo, subindo no enorme cavalo marrom. Seguro suas rédeas e faço-o correr e saltar o cercado. O animal bufa e respira profundamente, seus cascos batem com força no pedregulho e ele galopa com rapidez. Eu tive algumas aulas de equitação quando tinha doze anos, meu pai me ensinou muito bem, ele era um dos melhores cavaleiros que eu já vi.

Tenho sorte pelo cavalo não ser arisco, ele obedece meus comandos sem teimosia. Ou, ele eve estar tão assustado e concorda comigo de sair correndo dali. Passamos pela cidade e saímos em uma estrada de terra, as casinhas no campo estão em cinzas e os animais completamente sem rumo. Sigo com o meu cavalo pela estrada rapidamente e logo depois entro em uma floresta. Vejo que despistei o homem e diminui a velocidade. Caminhei com o animal por um tempo pela floresta fechada com árvores altas.

- E aqui estamos... – Falo depois de um bom tempo em silencio, respiro profundamente, recuperando o folego. Minhas mãos tremem e eu sinto um pouco de frio. – Em uma floresta e eu nem sei para onde ir. – O cavalo relincha, como se tivesse concordado e me escutado. – Você devia ter um nome, mas eu não sei. Vou te batizar de Eclipse. Pode ser? – Faço carinho em sua crina e puxo levemente as rédeas, fazendo-o parar.

Meu coração está a mil e a dor da perda ainda pesa. Sinto a respiração pesada de Eclipse, ele parece cansado, mas não podemos parar aqui. Continuei andando com ele por um bom tempo, aquelas árvores não pareciam ter frutos e não possuía nenhum sinal de água.

Me lembrei daquele rio que cercava o castelo, mas pensei em como ele está contaminado com o sangue dos mortos. Tenho ânsia de vomito só de imaginar. Minha boca está seca e meu estomago, roncando de fome.

Percebo que já está anoitecendo e desço de Eclipse, guiando-o com as rédeas. Faço carinho em seu focinho e olho no fundo de seus olhos grandes e castanhos. Ele parece enxergar o meu sofrimento, sinto que estou desabafando com o cavalo pelo pensamento e pelo olhar, lágrimas descem pelos meus olhos e apoio minha cabeça na dele.

- Eu não queria que nada disso acontecesse. – Digo e acaricio sua crina. – Agora se eu não morrer de fome, morrerei desidratada. Não sei para onde ir...

Eclipse bate um casco no chão e sacode a cabeça. Respiro fundo e olho em volta, está ficando de noite e eu não sei o que fazer, não se nem como se faz fogo. A escuridão está chegando e eu vou ficar aqui, nessa floresta, com um cavalo. Sento-me perto de um tronco velho caído e começo a mexer na grama do chão. Abraço meus joelhos e apoio minha cabeça neles.

O que eu vou fazer agora? Estou com fome, sede e medo. Não sei como conviver com a floresta. As cenas das mortes não saem de minha cabeça, todo aquele sangue me apavora. O corpo de Phil esfaqueado não sai de minha mente, seu corpo frio em meus braços, seu sangue em minhas mãos.

Estou suja, cheirando àquele fedor metálico e mórbido. Não me aguento. Olho para Eclipse, ele está comento algumas graminhas no chão, pelo menos vai viver mais tempo que eu pois já achou comida. Passam-se alguns minutos e tudo é engolido pela escuridão da noite sem lua.

Não consigo ver nada. Escuto a respiração de Eclipse e sinto que ele está por perto, me encolho e encosto minha cabeça em um tronco, começo a chorar baixinho. Eu devia ter saído daquele quartinho e pelo menos ter tentado salvar Philip. Fui uma tola. Perdi toda a minha família. Minha mãe morreu, eu sei que ela era chata e briguenta, mas eu a amava, afinal, era minha mãe.

A morte de Salmão também me abalou, ele sempre foi como meu confidente, me viu crescer junto com Carmen. Era como um amigo para mim. Estou completamente acabada.

Respiro fundo e fecho os olhos, abraço meu próprio corpo, para me manter aquecida, e tento esquecer tudo por um momento e tentar relaxar. Estou precisando dormir e descansar um pouco. Penso em algumas músicas de ninar e começo a cantar baixinho, em poucos minutos consigo cair no sono.

Acordo no meio da noite com barulhos de passos pesados e uma respiração forte. Forço minha visão, tentando enxergar alguma coisa. Pisco várias vezes, me levanto e começo a tatear a minha frente. Encontro a cabeça de Eclipse, que se assusta com o meu toque e relincha.

- Shhhh.... – Digo acalmando-o. – Sou eu... Sou eu... Tem alguma coisa aqui.

Ficamos em silencio e os passos pareciam chegar mais perto, eram pesados e pareciam pertencer a um animal enorme. Escuto algo parecido com um rosnado grave, vindo de dentro da garganta e logo depois um bufo. Fico o máximo de silencio possível, a criatura ou seja lá o que for, deve ter sentido meu cheiro.

Tento manter o máximo de calma possível. Seguro o pescoço musculoso de Eclipse e continuo a olhar em volta. Os passos param e continuam, e chegam cada vez mais perto, sua respiração pesada é o que mais me assusta.

Fico pensando no que poderia ser. Não conheço essa floresta e, pelo o que eu vi até agora, podem ter criaturas de todos os tipos aqui, prontas para me devorar. O escuro me incomoda muito, e com o fato de ter algo aqui, me deixa mais inquieta. Fecho os olhos e respiro fundo, acalmando-me.

O animal logo parece ir embora. Fico aliviada e vou até meu tronco novamente. Cai no sono após chorar pelo menos por meia hora. 

^^


O reino de AurionHistórias para pegar e não largar. Descubra agora