- Rafael, você está de castigo! Quantas vezes já disse que não quero você dormindo fora de casa sem me avisar?!
O grito de minha mãe estourou meus tímpanos assim que entrei em casa na manhã da segunda feira que se seguiu ao desastroso jantar com meu pai. Revirei os olhos e comecei a subir a escada em direção ao meu quarto. Eu realmente precisava de algumas horas de sono.
- Aonde você pensa que vai? Volte aqui agora e me explique aonde você passou a noite! - sua voz era autoritária, mas eu não me intimidei. Estava cansado demais para isso.
- Dormi na Verena. - resmunguei.
- Olha, meu filho, por mais que eu aprove esse namoro, eu não admito que você passe a noite com sua namorada se divertindo enquanto eu morro de preocupação sem notícias suas.
- Fala sério, mãe. Não é como se a gente tivesse passado a noite inteira transando, bem longe disso. - ela corou, e eu desci alguns degraus. - Se você quer saber o que aconteceu ontem à noite, liga para seu marido. Ou será que você parou de conversar com ele depois que ele te traiu com a secretária?
Minha mãe, que até então trazia um semblante de preocupação e irritação, abriu a boca, mas as palavras não saíram. Seus olhos se encheram de lágrimas e eu imediatamente me arrependi do que disse.
- Desculpa, eu não quis... Ele é um babaca, mãe. - eu disse baixinho, e caminhei até ela, envolvendo-a em um abraço.
- Vamos assinar os papéis do divórcio essa semana ainda. - ela soluçou e eu acariciei seus cabelos.
- Eu só queria que vocês tivessem conversado comigo antes, mãe. - suspirei.
- No começo eu achava que talvez ainda fôssemos nos resolver. E depois, bem... Você ainda é tão novo, Rafael. Não quero que você se preocupe com essas coisas.
- Mãe, olha pra mim. - segurei seu rosto com as duas mãos, encarando-a. - Eu sei que sou o caçula, mas não sou mais criança. Tenho quase 17 anos. Vocês não podem omitir esse tipo de coisa de mim. Ainda mais que eu sou o único que ainda mora aqui, que vê a situação diariamente. Eu preciso que você confie em mim, somos só nós dois agora.
Ela sorriu e assentiu com a cabeça lentamente, me puxando para outro abraço.
- Mãe? Hm, a tia Flavia e o tio Roberto não sabem que eu dormi com a Vê hoje. Então, ahn, não comenta nada com eles, ok ?
Ela riu, secando as lágrimas e eu ri junto. Fazia tempo que eu não via um sorriso sincero no rosto dela.
- Pelo visto você não é tão adulto assim ainda. E por isso, vá colocar seu uniforme que eu vou levá-lo para a escola.
- Mas o sinal já tocou!
- Eu falo com a diretora. Vai, Rafael! Não temos o dia inteiro e eu ainda tenho que trabalhar. - ela beijou minha testa e completou: - Vida que segue.
Minha mãe não merecia passar por aquilo. Mas ela era uma das pessoas mais fortes que eu já conhecera, e superaria. A mágoa que eu guardava de meu pai, no entanto, demoraria a ser superada. Quando a notícia correu pela cidade de meu pequeno show no restaurante mais fino de Grande Abaré, minha família se tornou o centro de toda a atenção. Eu sentia olhares me seguindo pelos corredores da escola e conversas cessando assim que eu entrava nos ambientes.
Era uma sexta feira e o sinal da escola havia acabado de soar. Saí da sala de aula com a animação que uma sexta feira pede, mas conforme me aproximava dos portões do colégio Alpha, minha animação foi se transformando em irritação.
-Faz mais de um mês, a galera nunca vai parar de olhar desse jeito para mim, não? - reclamei com Lucas, jogando minha mochila por cima do ombro. Meus colegas passavam por mim cochichando e eu apenas revirei os olhos.
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VERENA - concluída
JugendliteraturVerena e Rafael são amigos desde o berço.E essa é a história de como eles passaram de melhores amigos inseparáveis a algo a mais. Algo grandioso. Algo que algumas pessoas passam a vida inteira procurando. Juntos, eles descobriram a raiv...
