Era dia 19 de março. No dia seguinte, Verena faria sua cirurgia.
As sensações que eu sentia naquele momento... Cara, não sei nem explicar. Medo, tensão, apreensão, esperança, otimismo, fé. Fé. Logo eu, Rafael, que nunca fora muito religioso. Nunca frequentara igrejas. Nunca rezara.
Verena era agnóstica. Eu me dizia católico, mas não praticava de fato. Naquele momento, não importava muito. Eu tinha fé. Assim como Verena. Tinha fé na Dra. Carol e em toda sua equipe. Tinha fé em Verena. Tinha fé em nosso amor. Tinha fé em tudo o que tínhamos passado até ali e tudo o que ainda viveríamos junto. Tinha fé em algo maior, em Algo. Em maiúsculo mesmo. Fé em Alguém. Alguém que zelaria por nós.
Tínhamos fé.
E era nisso que eu pensava enquanto olhava Verena morder o lábio pensativa diante das dezenas de opções de sorvete em sua frente. Em uma hora ela entraria em jejum e decidira que queria que sua última refeição pré-cirurgia fosse na sorveteria do seu Fausto. Há cerca de três dias, depois de passar mais de duas semanas internada, ter completado 3 ciclos de radioterapia, feito todos os exames possíveis, Vê havia sido liberada para passar os últimos 4 dias pré-cirurgia em casa.
Foi a melhor coisa que poderiam ter feito por ela. Por todos nós que nos preocupávamos com ela, na realidade. Ver-se livre daquele hospital, dos remédios que lhe davam sono e enjôo, dos exames rotineiros fizeram surgir uma nova Vê. A antiga Vê. A que sorria facilmente, que brincava, que ria. Naquele dia em especial, ela estava de ótimo humor, embora melancólica. Já tinha me confessado que temia pelo pós-operatório. A médica já havia lhe dito que outros ciclos de radioterapia seriam necessários após a cirurgia para retirada completa de células tumorosas remanescentes, além do tratamento com corticosteroides para reduzir o inchaço cerebral. Vê temia pelo pós-operatório e por isso queria aproveitar o pré operatório.
Isso explicava porque desde que voltara para casa, estivera rodeada de pessoas. Aisha se instalara em sua casa, Gabi cozinhava os doces mais variados e os levava diariamente, Sapo visitava-lhe todos os dias após as aulas para contar as piadas mais idiotas, Lucas fazia com ela maratonas de filmes cult... Sem contar sua família, que também estava sempre presente. Se a intenção era fazer com que Verena percebesse o quão amada era, então tínhamos concluído-a com sucesso.
Seu pote de sorvete continha amostras de quase todos os sabores disponíveis porque ela simplesmente não conseguia optar por um único.
- Meu Deus, Vê... Não é possível que você seja tão indecisa. - suspirei, depois de observá-la encarar por quase um minuto a geladeira que continha Trufas Brancas e Limão Siciliano. Ela carregava infinitas colherzinhas nas mãos, provando todos os sabores disponíveis.
Ela semicerrou os olhos com minha fala e passou a colher com limão siciliano em meu nariz, me mostrando a língua.
- Você é tão madura. - revirei os olhos, sentindo o sorvete escorrer pela ponta do meu nariz.
- Eu sei. - ela riu, dando um passo a frente e beijando os locais do meu rosto que estavam sujos de sorvete. Ela terminou beijando meus lábios e quando ela estava quase se separando de mim, puxei-a para mais perto e a beijei novamente. Acho que era por puro reflexo, e quando nossos lábios se encostaram novamente, sua boca se abriu imediatamente. Beijei-a sentindo o gosto doce do sorvete. Beijei-a sentindo o gosto salgado de lágrimas que começaram a escorrer. Lágrimas suas. Lágrimas minhas. Lágrimas nossas.
Nos separamos e eu encostei minha testa na sua. Ficamos assim por um tempinho, alheios aos outros clientes da sorveteria, que provavelmente nos observavam com olhares de pena. Vê odiava aqueles olhares.
- Eu te amo. - disse baixinho para ela depois de alguns segundos.
- Pra caralho? - ela perguntou e rimos juntos, em meio à desgraça.
- Pra caralho. - confirmei e ela suspirou, segurando meu rosto com a mão livre e olhando nos meus olhos.
- Que bom. Eu também te amo pra caralho. - ela me deu um selinho demorado e deslizou sua mão pelo meu braço, até poder entrelaçar nossos dedos. - Vamos antes que o sorvete derreta.
Concordei com a cabeça, seguindo-a em direção ao caixa.
- Boa tarde, seu Fausto. - ela cumprimentou o dono da sorveteria mais antiga da cidade e ele retribuiu com um sorriso.
- Boa tarde, menina. - ele pegou os potes de sorvetes de nossas mãos para pesá-los e suspirou no meio do caminho. - Sabe, eu lembro de vocês pequeninhos aqui. Vocês jogavam a bicicleta ali na frente e entravam aqui correndo, pegavam um picolé e ficavam jogando conversa fora ali naquele banco da praça.
- O picolé do senhor sempre foi o melhor da cidade. - eu sorri com a lembrança. Verena e eu costumávamos passar tardes inteiras naquela sorveteria durante nossos verões.
- Vou ter que concordar. - ele riu. - Eu sempre achei que vocês ficariam juntos.
-Ah, é? - Verena riu. Desde que começáramos a namorar, ouvíamos isso com frequência. - E como o senhor sabia?
- É sim... Vocês se olhavam, bem, se olham como eu olho para minha Didi. E estamos juntos há 45 anos. Almas apaixonadas reconhecem outras almas apaixonadas, é o que minha Didi diz. - ele sorriu com doçura e os olhos de Vê se encheram de água.
- Que lindo, seu Fausto. - ela mordeu o lábio, e eu me aproximei mais dela, abraçando-a por trás. O velhinho concordou com a cabeça grisalha, parecendo estar segurando-se para não se emocionar também.
- Quer saber? Esses são por conta da casa. - ele nos ofereceu os potes de sorvete de volta. - E vão embora logo, antes que façam esse velho chorar.
Eu peguei os potes com um sorriso agradecido enquanto Vê esticava-se para alcançá-lo atrás do balcão e abraçá-lo.
- Obrigada, seu Fausto. - ela disse, e nós 3 sabíamos que ela não se referia ao sorvete. Ele apenas acenou com a cabeça.
Verena sorriu mais uma vez em sua direção e entrelaçou sua mão a minha novamente. Quando já saíamos do estabelecimento, seu Fausto nos chamou novamente.
-Ei, menina! Fica bem, viu? A cidade inteira está torcendo por você, Verena. Tenham fé.
Tínhamos ouvido aquilo com frequência recentemente das fontes mais variadas. Sentamo-nos naquele banco na praça que seu Fausto costumava nos ver sentados quando crianças.
- Você tem fé? - Verena quis saber, depois de algumas colheradas no sorvete.
- Em Deus?
- Em... é. Em tudo. No que você tem fé? - ela depositou a cabeça em meu ombro e o cheiro de seu cabelo fez meus músculos, que até então estavam tensos, embora eu não tivesse notado, relaxar.
- Eu tenho fé de que tudo vai dar certo. De que você vai se recuperar. De que vai passar no vestibular que escolher e de que vai viver a vida mais incrível.
Ela balançou a cabeça lentamente, e ficou quieta. Ficou quieta por tempo demais. Eu daria o mundo para saber o que ela estava pensando naquele momento.
- Sabe... - ela disse por fim, depois do que pareceu ser uma eternidade. - Desde que eu descobri esse tumor, eu costumava ficar horas te encarando. Horas decorando todos os mínimos detalhes do seu rosto, todas suas pintinhas, ou como você tem uma mancha de catapora no queixo, ou como seu cablo é queimado do sol no topete. Mas eu não te encaro mais.
- Não? - franzi a sobrancelha, sem saber ao certo onde ela queria chegar.
- Não. Agora eu tenho fé. Tenho fé de que vou arrasar nessa cirurgia. - ela riu. - Eu te encarava porque achava que ficaria cega e tinha medo de esquecer como você é perfeito se não pudesse mais te ver. Mas agora eu tenho fé. - ela repetiu, a voz embargada. - Tenho fé de que eu não vou perder a visão e por isso eu não preciso ficar decorando seu rosto. Eu tenho fé. Você tem fé?
Levantei sua cabeça de meu ombro para que pudesse encará-la.
- Eu tenho fé, amor. A maior fé do mundo.

VOCÊ ESTÁ LENDO
VERENA - concluída
Teen FictionVerena e Rafael são amigos desde o berço.E essa é a história de como eles passaram de melhores amigos inseparáveis a algo a mais. Algo grandioso. Algo que algumas pessoas passam a vida inteira procurando. Juntos, eles descobriram a raiv...