Na primeira vez que eu e Verena demos um tempo, a decisão foi minha. Tínhamos 18 anos apenas e eu estava prestes a me mudar com a banda para São Paulo. Quando contei para minha irmã que tínhamos dado um tempo, ela me deu um tapa, achando que eu tinha feito tal coisa para poder conhecer novas garotas na capital paulista, visto que Vê passaria os próximos meses focada em conquistar sua tão sonhada vaga na Universidade.
Besteira. Eu amava Verena intensamente e não tinha a mínima vontade de conhecer outras garotas. Apoiaria Vê em seus estudos, torceria por ela e compreenderia as dificuldades do novo desafio. Eu apenas não estava mais disposto a ser o único a fazer tais coisas em nosso relacionamento.
- Então... - Lucas começou, dando um gole em sua cerveja em uma tarde em que jogávamos Fifa no PlayStation.
Suspirei, sabendo aonde ele queria chegar. Contara para ele tudo sobre nossa briga, que ocorrera há uma semana, e desde então não falamos mais sobre Verena, o que tinha sido um pedido meu.
- Eu não vou atrás dela, Lucas. Não dessa vez. - dei de ombros, fingindo que não me importava. Mas Lucas era meu melhor amigo desde sempre e revirou os olhos.
- Rafão, você é louco pela Verena desde sempre. Vai deixar que o orgulho fale mais alto do que o amor que vocês sentem um pelo outro, cara? - ele pausara o jogo e me olhava seriamente.
- Porra, Lucas, não é orgulho. A gente namora há mais de dois anos, e se você contar toda nossa história dá quase quatro anos... Eu sei que eu fiz muita burrada nesse tempo, mas sempre fui eu quem fui atrás, quem pediu desculpa. Eu acho que tem que ser uma coisa recíproca. Eu não duvido do amor da Verena por mim, mas, mano, o jeito como a gente lida um com o outro tem que mudar. Eu quero que ela me apoie nas minhas decisões, quero que ela me enxergue...
Balancei a cabeça, bufando. Lucas me passou uma cerveja, dando um tapinha em minhas costas.
- Eu sinto muito, bro. Eu amo a Vê, mas sei que ela pode ser complicada... Bom, se servir de consolo, saiba que eu te apoio em tudo e que pro que precisar de mim, to aqui.
- Inclusive pra me tirar da cadeia? - brinquei. Lucas havia sido aprovado para direito na USP e suas aulas começavam em poucas semanas. O melhor de tudo é que ele também moraria em São Paulo.
- Claro que sim, só espere 5 anos. - ele riu, levantando-se em seguida. - De qualquer forma, vamos ver como a novela Rafael & Verena vai se desenvolver hoje á noite , na Gabi, certo?
- Nossa, tinha esquecido totalmente disso. - coloquei a mão na testa, soltando alguns palavrões.
- Porra, tomara que eu não seja seu amigo secreto. - Lucas riu.
- Cala boca, eu só esqueci que era hoje, comprei o presente há semanas.
O jantar na casa da Gabi seria nossa despedida oficial. Com todas as datas de vestibulares e mudanças para outras cidades, só agora havíamos conseguido reunir todos pela última vez. Para celebrar, realizamos um amigo secreto fora de época.
Quando cheguei na casa da Gabi, Verena já estava lá, conversando em um canto com Aisha. Ela me cumprimentou com um sorriso e um aceno, como se fossemos apenas meros conhecidos. O desapontamento com ela logo foi substituído por nostalgia. Era melancólico pensar que aqueles amigos de uma vida inteira já não estariam mais tão presentes em minha vida. Aisha faria Moda em Belo Horizonte, Gabi cursaria Arquitetura em Ribeirão Preto, Diego havia sido aprovado para Engenharia Civil em Curitiba, Lucas iria para São Paulo estudar Direito, Sapo ficaria ali por Abaré mesmo, ajudando seu pai com a imobiliária e Verena, pelo que minha mãe me contara, havia se matriculado em um cursinho em São Paulo.
Dava um aperto no coração ver cada um seguindo com sua vida, mas eu sabia que estávamos todos felizes uns pelos outros. Logo começamos a revelar nossos amigos secretos, e eu felizmente anunciei que havia pego Aisha, presenteando-a com uma passagem de avião de BH para São Paulo, para que ela pudesse me visitar (e a Davi também). Animada, ela me abraçou agradecendo e em seguida revelou que havia tirado Verena, presenteando-a com um box de todas as temporadas de Friends.
Verena agradeceu, abraçando a amiga com força. Assim que Aisha se sentou, todos viraram-se para Verena, que mordeu os lábios, nervosa.
- Bom, o meu presente eu deixei na cozinha assim que cheguei, porque se vocês vissem o pacote logo adivinhariam quem é meu amigo secreto... - ela sorriu e respirou fundo. - Meu amigo secreto é meu melhor amigo desde sempre, é quem sempre me apoiou e quem sempre esteve lá por mim mesmo quando eu não mereci.
Ela olhava para o chão, e eu também. No entanto, sentia que todos estavam olhando para mim.
- Meu amigo secreto é o meu primeiro amor e eu sinceramente espero que seja o último também. Ele é lindo por dentro e por fora, é generoso, engraçado, e acima de tudo, tem um coração gigante.
Ela deu uma pausa e eu finalmente olhei para cima. Verena me encarava e abriu um sorriso, estendendo a mão.
- Acho que é o Rafa. - Sapo brincou, quebrando o gelo e todos riram.
Levantei e segurei sua mão, sendo guiado por ela até a cozinha. Ela tirou uma guitarra detrás do balcão e me entregou.
- Espero que goste. - ela disse baixinho enquanto eu admirava o que tinha em mãos.
- Não é possível... É uma...
- Fender Stratocaster Cherry Maple Red. - ela completou, rindo diante de minha cara de incredulidade.
- Meu Deus, Vê. Essa guitarra é de uma edição especial. É a mesma que o Herbert Vianna usou no show dos Paralamas no Rock in Rio de 85. - eu estava abismado, admirando cada detalhe daquela guitarra. De repente um detalhe me chamou a atenção. O que antes eu pensara serem restos do laço preto grudados no corpo da guitarra tomou forma e eu parei de respirar por alguns segundos.
- Verena, você me deu uma guitarra autografada pelo próprio Herbert Vianna?!
- Bom, o mérito não é todo meu. O Davi me ajudou a escolher o modelo e meu pai já foi médico do Herbert, então conseguiu o autógrafo... - ela suspirou, e deu um passo a frente, segurando minha mão. - Eu sinto muito pelas coisas que eu disse semana passada, Rafa. Você tava certo, eu fui egoísta. Essa guitarra é um jeito de te mostrar que daqui pra frente eu vou te apoiar em tudo. Eu quero que você ganhe o mundo, e se você permitir, quero estar do seu lado quando isso acontecer.
Encostei a guitarra no balcão calmamente, puxando Vê pela cintura. Coloquei uma mecha de seu cabelo atrás da orelha e sorri.
- Você me desculpa? - ela pediu, baixinho. Eu apenas acenei com a cabeça, erguendo seu queixo e beijando-a.
- Eu te quero pra sempre, Vê.
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VERENA - concluída
أدب المراهقينVerena e Rafael são amigos desde o berço.E essa é a história de como eles passaram de melhores amigos inseparáveis a algo a mais. Algo grandioso. Algo que algumas pessoas passam a vida inteira procurando. Juntos, eles descobriram a raiv...