Era final de maio e Verena havia completado seu tratamento, finalmente. Seis meses de agonia, de luta. Mas que chegaram ao fim. Para comemorar, uma festa seria feita em sua casa e estávamos todos animados. Para completar, minha antiga banda estava voltando a Abaré com um contrato assinado e um single a ser lançado no mês seguinte. Eu havia sido creditado no álbum, apesar de não ter participado da gravação. A grande maioria das melodias eram minhas. Davi e Carlinhos se alternaram nos vocais, e um guitarrista temporário havia sido contratado para a gravação. Davi me garantia que quando eu quisesse, a banda estaria ali para mim.
Eu sentia falta de tocar, é claro que sim. Sentia falta do público. Da adrenalina de subir no palco. E ali, no estúdio de música do Colégio Alpha, dedilhando um violão, eu sentia mais falta ainda. Estava matando tempo, era sexta a tarde e eu poderia ter ido para casa, mas ao passar pelo estúdio, sentira uma súbita vontade de tocar.
Estava ali há alguns minutos quando a porta se abriu. Sorri ao ver que era Verena. Ela esbanjava saúde, fosse pelo sorriso radiante que agora estava de volta ao seu rosto, ou pelo seu andar confiante, tão característico dela mas que a abandonara nos últimos meses.
-Não sabia que você ainda estava aqui. - eu lhe disse, enquanto ela se aproximava e puxava um banquinho para sentar-se perto de mim.
- Eu também não sabia que você estava aqui. Estava saindo da Biblioteca quando o Diego disse que tinha te visto aqui. - ela explicou.
- Terminou de estudar a matéria do semestre que vem já? - impliquei. Agora que estava 100% novamente, Verena decidira que era hora de recuperar o tempo perdido e passava horas e mais horas estudando.
- Ha ha. Engraçado. - ela revirou os olhos. - Mas já que estamos falando em estudar... Rafa, você sabe que pode me pedir ajuda quando estiver com dificuldade em alguma matéria, né?
- Hmm, sei... Por que isso agora?
- Bem, a diretora Carmen veio me procurar. Disse que suas notas estão meio baixas.
Meio baixas era um eufemismo. Minhas notas estavam péssimas, eu sabia disso, a diretora Carmen sabia disso e Verena sabia disso.
- Ah, é. Mas tem a recuperação de meio de ano, relaxa.
- Rafa,eu posso te ajudar. - Verena disse, respirando fundo.
- Eu sei, Vê. Mas eu não quero te atrapalhar. Eu sou uma negação pra estudar, o tempo que você gasta tentando me ensinar é tempo que você pode estudar pros vestibulares.
-Amor, eu sei que suas notas estão ruins por minha causa. O primeiro bimestre inteiro você viveu em função de mim, sempre no hospital, ou em casa. O mínimo que eu posso fazer é te ajudar a recuperar.
- Vê, eu sempre tive notas baixas, não foi sua culpa. - eu disse, mesmo sabendo que aquilo não era completamente verdade. Estar tão envolvido com a doença de Verena havia piorado meu desempenho acadêmico drasticamente, mas a verdade era que eu não me importava.
- Rafael, cala a boca. Óbvio que foi por mim. Mas você abriu mão de muito por mim já, deixa eu te ajudar nisso.
- Verena, não precisa. Eu não ligo. - dei de ombros, voltando a dedilhar meu violão.
- Como assim você não liga? Rafael, você não pode repetir de ano, estamos no último ano do ensino médio, esqueceu? Vestibular, faculdade... - ela enumerou nos dedos.
- Verena, eu te digo faz dois anos que não sei se quero ir pra faculdade. Eu odeio estudar.
- Você tá doido, Rafael? - ela perguntou, balançando a cabeça. - Você saiu da banda, não demonstra interesse em voltar, se não fizer faculdade vai ficar aqui em Abaré pra sempre?
- Sim. - disse simplesmente, sem parar de dedilhar.
- Como assim? Você quer ficar aqui?!
- Talvez. É uma coisa tão ruim assim? - perguntei, tocando o violão ainda.
- Você realmente não quer fazer faculdade? E quer parar de tocar essa bosta e me olhar? - ela pediu, o tom de voz já elevado. Parei de tocar e a encarei.
- Eu não sei, Verena. É uma boa cidade. Você gosta daqui, não gosta? - perguntei, me estressando com o rumo daquela conversa.
- Gosto, Rafael, mas não para fazer uma carreira aqui. Eu não consigo planejar meu futuro aqui.
- Bem, eu consigo. - eu disse e ficamos nos encarando em silêncio. Era a primeira vez que percebíamos que nossos planos para o futuro divergiam completamente. Era a primeira vez, desde que nascemos, que nossas vidas tinham a possibilidade de seguir caminhos completamente distintos. O que, quando se para pensar, era bem óbvio. Nos amávamos, mas ainda assim tínhamos sonhos, planos e personalidades diferentes.
- Okay, hoje não é dia para falarmos disso. - ela disse por fim, quebrando aquele clima. - Hoje é dia de comemorar o fato de que eu vou viver até os 99 anos enxergando dos dois olhos e sem tumores na cabeça.
- Definitivamente é algo a ser comemorado. - eu sorri, encostando o violão na parede e abrindo os braços para ela, que logo se aninhou em mim. Beijei sua testa e mesmo sem olhar sua boca, sabia que ela estava sorrindo.
- Eu te amo. - ela disse baixinho e em seguida suspirou. - Bem, eu iria te contar à noite na festa, mas acho melhor agora.
- Contar o que? - eu perguntei, afastando-a um pouco para poder olhá-la.
- Bem, sobre a viagem para Porto Seguro...
- Ai, não, Vê, de novo não. - gemi, cansado. Nossos colegas viajariam para a cidade baiana em julho, para comemorar o fim do ensino médio. Seria uma semana de festas, álcool, pegação, praia. Algo que eu e Vê queríamos. No entanto, perdemos o prazo de inscrição para a viagem devido à correria com sua cirurgia, e desde então Verena não parara de se sentir culpada sobre isso. Na época eu nem me tocara, a última coisa em que eu estava pensando era Porto Seguro, portanto, na minha cabeça, não fazia sentido ela se sentir tão culpada.
- Meu Deus, você é realmente muito bom em me interromper. Me escuta primeiro, lindo. Bem, eu sei que você fica dizendo que eu não tenho que me sentir culpada em relação a essa história toda, mas eu me sinto e foda-se o que você vai falar, eu precisava te recompensar por tudo que eu te fiz perder nos últimos meses. Obviamente é uma missão impossível, mas acho que uma semana no Chile em Julho só nós dois é um começo, né?
Ela sorriu ainda mais, tirando do bolso de trás um papel e me entregando. Eram duas passagens para Santiago e eu a olhei admirado.
- Caralho, Vê. - eu exclamei, sem saber o que dizer.
- Bem, eu achei que merecíamos um tempo só para nós dois, sabe? Esses momentos em que estamos sozinhos estão ficando raros... - ela suspirou e eu concordei com a cabeça.
- E como você convenceu nossos pais a deixarem nós dois irmos em uma viagem sozinhos?
-Ah, Rafa, as coisas mudaram né. Acho que meus pais perceberam que nós não somos uma paixãozinha adolescente. E sua mãe disse que você merecia. O seu pai eu não sei, na verdade.
- É, duvido que ele se importe. - revirei os olhos e ela segurou meu rosto com as duas mãos.
- Eu amo você. E nunca mais vou te deixar. Prometo.
Enquanto nos beijávamos, eu pensava se Verena seria capaz de manter essa promessa. Acontece que com o tempo, nós dois nos tornaríamos especialistas em quebrar promessas feitas um ao outro.
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VERENA - concluída
Novela JuvenilVerena e Rafael são amigos desde o berço.E essa é a história de como eles passaram de melhores amigos inseparáveis a algo a mais. Algo grandioso. Algo que algumas pessoas passam a vida inteira procurando. Juntos, eles descobriram a raiv...