25. Péssimo pressentimento

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- Rafael, dá pra você largar esse celular e prestar atenção no que estamos discutindo aqui?! - ouvi a voz de Carlinhos ao longe, mas ainda assim não levantei a cabeça, encarando a tela de meu celular.

"Me liga assim que der. Amo você. "

Apertei 'enviar' e suspirei, olhando para meus colegas de banda. Estávamos em um estúdio relativamente grande em São Paulo, com quem tínhamos fechado contrato logo na nossa primeira semana na capital paulista.

- O que foi? - perguntei entediado.

- Você poderia demonstrar mais interesse, porra. É nosso futuro em jogo.

- Eu sei do que vocês estavam falando, Carlinhos. Só falamos disso, aliás, mas ninguém parece ter uma solução. Precisamos de músicas autorais. Não podemos lançar um primeiro CD só de covers. - revirei os olhos, cansado daquela discussão.  - Qual a novidade?

- A novidade, caralho, é que temos a porra de uma semana para apresentar material pra gravadora, senão perdemos o contato. - Carlinhos bradou, batendo os punhos na mesa.

- Ei, calma. - Davi colocou uma mão no ombro do ruivo, que respirou fundo. - Na pior das hipóteses, terceirizamos.

- Você quer contratar alguém para compor músicas pra gente?! - Murilo jogou as mãos ao alto. - Me fala de uma banda de rock que deu certo tocando músicas feitas por outros. A gente precisa colocar nossa marca nesse trabalho, senão não nos destacamos. Sem contar que iríamos perder grana pra caralho sem parte dos royalties.

- Ou seja, estamos na mesma que estávamos. - dei de ombros, voltando minha atenção para o celular em minhas mãos. Minha cabeça estava em Verena. Ela tinha ido ao neurologista, que pedira uma bateria de exames. Ele então recomendara outro médico em Ribeirão Preto, que pedira os mesmos exames. Nesse instante ela estava fazendo uma tomografia e isso era tudo o que eu sabia. Ela estava sendo extremamente vaga, desconversando e sua voz ao telefone estava totalmente diferente. Eu não via a hora de voltar para casa e descobrir o que estava acontecendo.

- Eu juro que se você não parar de mexer nessa porra eu vou...

- Meia hora de descanso, ok?! - Davi calou Carlinhos, colocando a mão na mesa com autoridade. - Todo mundo precisa esfriar a cabeça, vai.

Levantei-me imediatamente. Na minha cabeça, aquele período em São Paulo seria marcado por horas e horas de música e companheirismo com meus amigos. Mas passávamos a maior parte do tempo trancados em salas de reuniões, com empresários que realmente não pareciam entender nada de música.

Parei ao lado da cafeteira esperando uma resposta de Verena, e revirei os olhos diante da demora. Vi Carlinhos entrando na sala em que estava e abri a primeira porta que vi, tentando fugir dele. Quando percebi que estava em um estúdio, cercado de microfones e instrumentos musicais, sorri. Era ali que eu realmente queria estar.

Sentei-me em um banco alto encostado na parede e peguei um violão de aço. Um Martin como aquele deveria custar pelo menos uns nove mil reais e suspirei só de estar encostando em um. Sem pensar, comecei a dedilhar algumas notas, na tentativa de me distrair. Comecei com algumas notas aleatórias, mas quando me dei conta, estava seguindo um padrão. Acredito que a melodia estava em minha cabeça há certo tempo, eu apenas não tinha me dado conta.

- Hm, Rafael?

Levantei os olhos e vi que Reinaldo, o primeiro empresário com quem tínhamos nos encontrado, me observava através do vidro do estúdio. Ele falava através de um microfone e eu estava pronto para a bronca que levaria por estar mexendo em instrumentos sem ser autorizado.

- Oi, Reinaldo. Desculpa. Eu só...

- Não! Tudo bem. Que música é essa? - ele tinha um sorriso maravilhado no rosto e eu respirei aliviado. O que eu menos precisava no momento era de Carlinhos falando sobre como eu era imaturo.

- Não é música nenhuma. É só uma melodia que tá na minha cabeça faz um tempo. - dei de ombros.

- E essa melodia teria uma letra, por acaso?

Eu balancei a cabeça negativamente. Era péssimo em composições.

- Tudo bem, saia daí. Vamos conversar com seus parceiros de banda. - ele fez um sinal com a mão, me chamando e eu acenei com a cabeça. Deixei o violão de lado e saí do estúdio, sem saber ao certo o que me esperava.

Quando voltei para a sala em que estávamos antes, além de Davi, Carlinhos e Murilo, estavam ali Reinaldo e mais dois empresários da gravadora com quem eu já tinha trocado algumas palavras.

- Rafael! Que bom que se juntou a nós. - Reinaldo me abraçou. - Por que não me disseram que tínhamos um talento nato aqui?!

Meus companheiros me encararam confusos e eu dei de ombros. Era só uma música, Reinaldo estava fazendo tempestade em copo d'água.

- Pelo visto vocês também não sabiam... Bem, eu peguei o Rafael tocando uma música com uma melodia sensacional! E eu não costumo fazer elogios à toa, viu? - ele riu e os outros dois empresários concordaram com a cabeça. Meus amigos me encararam, em um misto de alívio e raiva. Dei de ombros e sorri agradecendo Reinaldo.

- Obrigado. Mas não é nada demais.

- É excelente. Precisamos trabalhar na letra, mas isso pode ficar para depois. Vamos ver como fica com todos os instrumentos juntos, ok?

- Eu sinto muito que tenhamos ficado no pé de vocês desse jeito, garotos. Mas vocês terão uma folga, vão para casa passar o natal e voltem para cá renovados! - Benício, um dos engravatados, nos disse conforme saíamos da sala de reuniões. Foi o primeiro sorriso sincero que dei no dia. Chequei meu celular mais uma vez, apenas para confirmar a ausência de notícias de minha namorada. Suspirei. Era hora de voltar para casa e descobrir o que estava acontecendo.

E eu tinha a impressão de que não iria gostar nada quando descobrisse. Não era um mal pressentimento. Era um péssimo pressentimento. E eu estava certo.

VERENA - concluídaOnde histórias criam vida. Descubra agora