Fazia sete dias que Orlando havia desaparecido. Não havia marcas de violência na residência do casal, onde a esposa o viu pela última vez antes de sair para a feira. Não havia testemunhas que pudessem afirmar tê-lo visto na rua. Nada de valor estava faltando. Não havia pedido de resgate. O casal Aguiar tinha muito dinheiro guardado; então, a primeira coisa que se pensou foi em sequestro... Mas não parecia o caso. Os filhos apareceram, mas não ajudaram muito. Não havia o que fazer.
Depois de uma semana sem qualquer sinal, a polícia já sinalizava que esse seria mais um caso sem solução. Não era assim que a senhora Aguiar esperava terminar o casamento. Ela sabia que, cedo ou tarde, um dos dois partiria, mas não desse jeito. Não desaparecendo assim, tragado pela terra ou por sabe-se lá o que.
E ainda estaria vivo? Não havia como saber. Pelo menos, nenhum corpo foi identificado. Orlando era mais velho que a esposa, e já passara dos sessenta. Será que a mente começou a falhar? Estaria ele perdido por aí, sem saber o endereço, sem lembrar nem do próprio nome? Eram tantas perguntas e tantas dores para quem fica...
Alessandra e o marido não foram de muita ajuda para a polícia. Ela não chegou a vê-lo naquele dia, e Danilo tampouco. Os dois foram entrevistados, assim como todos os vizinhos e conhecidos do casal, mas nada significativo surgiu disso. Se Márcia estava perturbada, Alessandra, que lhe dava apoio quase 24 horas por dia, também não estava muito normal, e até se descuidou um pouco de sua faxina compulsiva. Chatos ou não, os Aguiar foram sempre gentis com eles; por isso, ela se sentia na obrigação de ajudar como pudesse.
Para descontrair um pouco da tragédia, Danilo trouxe, naquela quarta-feira, uma novidade que poderia alegrar a esposa.
No próximo sábado ele iria para o Centro de Distribuição, mas não a trabalho.
_Vai ser uma festa de confraternização – ele explicou. – Com todos os funcionários, de todos os turnos, e as esposas estão convidadas!
Alessandra lembrou que ainda não tinha a mínima ideia do que o marido fazia no trabalho. Recordou a conversa com dona Laíza e outras mulheres na festa de boas-vindas. "Centro de Distribuição de quê?", elas perguntaram, e ela não soube responder.
Mas ela deveria saber!
_Você nunca me disse o que faz lá – ela lembrou.
_Acho que já falei sim. Mas devo ter sido exageradamente técnico, talvez, e você acabou esquecendo. Mas eu sou gerente de logística, e o lugar, é exatamente o que o nome diz. Um Centro de Distribuição, e nada além disso.
_Trabalham mulheres lá? – Ela prestou atenção no marido, e viu que ele ficou surpreso com a pergunta. Danilo hesitou. Ela pensou se teria acertado no alvo.
_Por que a pergunta?
_Só queria saber. Ué. Nada demais!
Danilo pensou.
_Tem só uma – respondeu. – É a nossa líder. – Ele sorriu. Segurou os ombros magros da esposa, massageando. – Mas você não tem com que se preocupar. Porque ela é mais velha do que a sua avó seria se estivesse viva.
_Uma mulher é a chefe?
Ele assentiu.
_Qual o nome dela?
Ele sorriu. Depois, beijou-a na boca.
_Você vai saber. Meu amor! Você gostaria de ir?
Ela fez que sim.
_Quero conhecê-la – ela explicou.
_Que ótimo – ele respondeu. – Porque ela também está doida pra te conhecer!
Era a mais pura verdade.
VOCÊ ESTÁ LENDO
GULOSEIMAS
Science-FictionVocê tem nojo de lesmas? Alessandra tem tanto nojo, um pavor patológico, resultado de um trauma de infância, que acredita que essas criaturas inofensivas a perseguem de propósito. Família, marido e amigos já tentaram convencê-la de que isso não fari...
