Sobre Cobras e Fênix

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A reação natural de quando se avisa, no meio de um salão cheio de crianças, que um trasgo está solto nas dependências da escola, é pânico total, então fiquem felizes por Hogwarts ter atendido as exigências pelo menos uma vez. A gritaria foi tanta que deve ter acordado os mortos sendo honrados, a confusão se instalando enquanto todos iam se levantando e se atrapalhando, com pressa de se salvarem, mas sem qualquer ideia de como fazer isso.

Observei Malfoy, muito pálido e de olhos arregalados, mas ainda sentado na mesa. Hopkins, tive pena, parecia que iria desmaiar, enquanto Pansy estava tão dura quanto uma estátua e Daphy tinha os lábios tremendo, as pupilas dilatadas. Blásio, o coitado, havia se levantado em um pulo como tantos outros, mas não era do feitio de Alvo Dumbledore deixar o caos se instalar assim. Pegou a varinha e apontou para cima, fazendo várias pequenas explosões saírem de sua ponta – ao menos cinco foram necessárias para fazer com que o salão mergulhasse em um silencio apavorado.

— Monitores! Organizem os alunos de suas casas em grupos! — a voz do diretor de Hogwarts, pela primeira vez, não estava nada suave ou gentil. Era grave e sonora, retumbando no salão. Alvo Dumbledore era o maior bruxo do século e era nosso diretor. Ele estava ali e não deixaria nada acontecer, ao menos nenhum desastre total. Quase tive pena do trasgo quando o encontrasse. — Diretores de casa, façam uma contagem!

Hermione.

Ela não sabia sobre porcaria de trasgo nenhum.

Pulei do meu lugar, aproveitando o caos e a súbita falta de interesse dos meus colegas em mim. Dumbledore nos trancaria no Grande Salão, eu podia apostar. O lugar mais seguro ao invés de fazer crianças perambularem naquele castelo enorme com uma ameaça a solta que mesmo um bruxo adulto teria dificuldade de sair com vida se o encontrasse, quem dirá os estudantes de Hogwarts. Talvez, quando verificasse que todos estivessem ali (e não estavam), seu plano fosse deixar um punhado de professores aqui e outro ir com ele atrás da criatura.

Eu teria que confirmar depois.

Em nenhuma hipótese eu seria guardada ali dentro com Granger do lado de fora.

Em apenas alguns segundos eu costurei entre alunos e caos, chegando à mesa da Grifinória. Segurei no pulso de Harry um segundo depois dele mesmo agarrar o braço de Ronald. Potter virou a cabeça para mim, susto e arrependimento nos seus olhos verdes. Ele também sabia. Ele também se lembrava. A informação martelando em sua consciência fazia horas, desde que a garota ouviu seu estúpido melhor amigo falar asneiras dela.

— O quê? — Foi justamente Weasley quem perguntou, o medo fazendo sua voz ficar ríspida, áspera como uma lixa de piso. — O que foi com vocês?

Você, seu imbecil — retruquei, me lembrando do quanto queria, quase precisava, achatar sua cara em uma parede. Mas não tínhamos tempo.

— Hermione está lá fora — Harry engoliu em seco, olhando para os olhos azuis de Ronald. — Hermione está lá fora sozinha, Rony.

O garoto estava pálido e os lábios tremeram, mas no tempo de um tremor na garganta, ele soltou o ar e se virou para Lilá Brown, uma garota grifinória de seu ano dona de olhos quase tão dourados quanto mel e uma pele da cor de terra molhada. Ela estava do lado oposto da mesa, e mesmo assim talvez a uns dez corpos de distância, mas sua voz foi alta e firme, chamando-a como um apito de cachorro.

— Lilá! Lilá! — A garota olhou, mesmo estando agarrada à sua melhor amiga, Parvati Patil, de cabelos negros lisos e claro sangue indiano. — Onde você viu Hermione? Em qual banheiro?

— O quê...? — Talvez ela estivesse confusa sobre como Ronald sabia disso, já que não contou nada para ele. Mas gastaria tempo demais, um tempo que não tínhamos a medida que o caos no salão se tornava cada vez mais domesticado. Precisávamos ir. Precisávamos ir agora.

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