— Confie em mim, Lagrum! Tenho certeza de que vai dar certo! — Meu amigo permaneceu me olhando, suas pupilas se estreitando, de forma proposital, antes de voltar para a luz. Essa era sua forma de revirar os olhos para mim. — Sua cobra de pouca fé, eu andei treinando, você viu!
Eu até entendia a hesitação dele, mas não era como se tivéssemos outra opção. O carro já estava lá fora, com meu malão dentro dele. Todos meus materiais tinham sido arrumados e organizados, mesmo que à última hora, e assumo total responsabilidade por isso. Bati o pé e ignorei minha consciência ao ficar com a cara enfiada nos meus novos livros e minha varinha na mão, até Lagrum começar a me bater com a ponta da cauda para me fazer parar de lê-los e começar a enfiá-los em seu devido lugar.
Porém, como na maioria das vezes, tenho minha consciência limpa. O orgulho foi o bastante para ter vontade de enviar uma carta para Olivaras dizendo "Você estava certo." em letras garrafais, ao conseguir realizar todos os feitiços que tentei –- dois deles já até conseguia não falar. Obviamente, Lagrum fez questão de zombar que os feitiços que consegui realizar ao ponto de não precisar verbalizar haviam sido justamente um para abrir portas e outro para fazer com que a pena escrevesse sozinha (o que foi muito útil já que, na minha ansiedade, comecei resumo dos primeiros capítulos de todos os livros). Mas, antes de tudo, eu estava atrás de uma coisa.
O rolo de pergaminho que meu amigo tinha tido mais dificuldade de arrancar da minha mão havia sido o de feitiços. Antes de comprar meu material, não tinha qualquer dúvida que acharia alguma magia para fazer meu amigo réptil, de quase cinco metros, passar despercebido para dentro da escola comigo, já que não havia nada sobre cobras serem permitidas (sapos sim, cobras não, que mau gosto). Ao ter o Livro Padrão de Feitiços Primeira Série em mãos, em que transcrevi para o pergaminho uma pequena introdução sobre feitiços, além de explicações de o que são, para que servem e de onde surgem; infelizmente, em nenhum lugar havia qualquer feitiço que me ajudaria a levá-lo. Então, de forma racional, decidi criar o meu.
Apelei para a forma como costumava fazer magia, antes de ter uma varinha e saber as palavras certas: desejei com muita força que acontecesse. Usei minha mochila como cobaia, treinei por uma tarde e uma noite inteira. Porém, Lagrum ainda não parecia convencido, que eu havia sido capaz de fazer com que fosse possível ele caber na bolsa. Sua maior preocupação, é claro, era com qualquer efeito colateral imprevisto como, talvez, não ser capaz de voltar a ser o grandioso ofídico que era.
Se eu ficar pequeno para sempre, juro que arranco seu coração pela garganta.
— Boa sorte em achar ele, agora entra! — Mandei abrindo ainda mais a mochila.
Lagrum soltou um silvo irritado e se inclinou. Primeiro, parou com apenas a cabeça dentro dela (já era o bastante para ocupá-la toda, ainda mais com as roupas de Hogwarts, a varinha e o livro que sorteei para continuar com a saga de resumos, Mil Ervas e Fungos Mágicos), então continuou a deslizar para dentro. Prendi a respiração, por meio segundo, e a soltei com uma gargalhada curta ao ver seu corpo negro desaparecendo dentro da bolsa, sem ela sequer ficar pesada. Quando terminou, olhei para dentro e vi meu amigo muito bem acomodado, em cima de minhas roupas. Sorri para ele.
— Eu disse que tinha conseguido, eu disse!
Vai se atrasar, Mal.
Maldita cobra arrogante e superior. Mostrei a língua para ele – que sequer estava olhando para mim – e fechei a mochila, colocando-a nos ombros. Olhei meu velho quarto uma última vez, checando cada canto para garantir que não havia esquecido nada, e fui em direção a saída sem olhar para trás.
Chegamos em King's Cross exatamente às 10:00h. Na carta de explicação da sra. Burbage, estava escrito que o trem saia pontualmente, sem falhas, às 11:00h, então estávamos em um excelente tempo. Tive vontade de rir disso, na cara de Lagrum, mas achei crueldade interromper seu sono digestivo. Me despedi de Simon e o dispensei, depois que me ajudou a colocar minhas coisas em um carrinho. Não que sua companhia fosse tão ruim, mas, pelo que havia lido, seria melhor não ter olhos trouxas prestando atenção em mim.
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Corona
Fiksi PenggemarNomes são coisas perigosas. A maior parte da mitologia afirma que não os deve dizer levianamente - eles tem poder. Malorie Lewis tinha uma afeição particular pelo seu nome. Depois que seus pais adotivos morreram e ela teve de voltar para o Lar para...
