A Menina que Nasceu da Magia

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O Sr. e a Sra. Dursley, da Rua dos Alfeneiros, nº 4, eram dois belos pedaços de lixo, muito bem, obrigada. Eram as últimas pessoas no mundo que de se esperaria que tivessem alma ou qualquer sinal de humanidade, fato que deixaria os dementadores muito putos da vida, uma vez que simplesmente não compactuam com a ordem natural das coisas, onde seriam beijados e o mundo estaria livre deles.

Mas estou me apressando aqui, mesmo que não tenha dito mentira nenhuma. A situação é que esta não é a história dele. Não, não, nada de Dursley e cicatrizes na testa por aqui, este não é o livro do Menino que Sobreviveu. Esta aqui é minha história, apesar de que aquele quatro olhos aparece, sim, por aqui em um momento ou outro. Nada demais, entendem? Eu só tinha que começar xingando os Dursley, porque são uma família a ser xingada em qualquer situação possível.

Mas é engraçado, de uma forma muito cruel, que os piores dias de nossas vidas tenham sido os mesmos e pelos mesmos motivos. O dia 31 de outubro de 1980 arrancou pedaços de nossas vidas que nem mesmo o destino e magia depois foram capazes de consertar, por mais que tivessem tentado. Ficamos órfãos, os dois. Anos depois, inclusive, invejei sua inocência recém-saída do berço, sua incapacidade de compreender o que estava acontecendo à sua volta – melhor para ele, claro.

Já eu, como você vão se acostumar, não tive essa sorte.

Eu raramente tenho sorte.

Foi longe da Rua dos Alfeneiros, longe da sala de estar. Em uma casa grande demais para tão poucas pessoas. Mas era bonita, de qualquer forma, mesmo gelada. Os imensos jardins da frente, o bosque em volta e o mármore antigo e mágico que estava lá a mais de mil anos e ficaria mais mil. Eu me lembro do ouro, da prata e do diamante. Me lembro de corrimões dourados, de mesas escuras e compridas de madeira, de um quarto que era uma ala inteira. Mais era mais e todo o luxo ainda era pouco. Afinal, era um palácio.

Foi lá que nasci e foi lá que vivi até ter esse progresso interrompido de forma muito, muito rude. Mas antes disso eu podia me lembrar da magia flutuando no ar, no som do vento entre árvores altas, enraizadas em uma floresta profunda. E aquela música. A única música de ninar que eu um dia conheci, eu me lembrava de como ele cantava para mim, sua voz se misturando com o vento, com o tilintar da energia, com o balançar das sombras, cada palavra em um sibilar particular que ninguém mais no mundo poderia entender.

Eu gostava quando ele vinha, e ele o fazia todas as noites, até nunca mais. Eu conseguia senti-lo olhando para mim, sua presença muito mais real e sólida do que o próprio quarto. E sorria. Pequeno ou largo, sempre chegava aos seus olhos. Tão brilhantes e tão vermelhos, ele era o meu mundo inteiro naquelas horas sem luz. Mas ele não estava lá na pior delas, e não foi ele que acalentou meu desespero irracional e de partir o coração, mas todos os outros. Do que adiantava, de qualquer forma? Cheiros e vozes e magias, tão familiares, tão errados.

Mas que escolha um bebê tem além de seguir em frente? Que escolha eu tive, em qualquer momento da minha vida? Em confusão e dor, eles me assumiram da melhor forma que podiam, tentavam me distrair sempre que possível. Era melhor ser distraída, então eu deixava. A melhor delas era um outro, da mesma idade do que eu. Seu cheiro no meu berço me acalmava e seus olhos de estrela eram uma das coisas mais interessantes que eu já havia visto em todo meu ano de vida.

Apesar do susto e da dor, almofadas foram colocadas à minha volta de tal forma que foi fácil apenas aproveitar a bela vida que me proporcionavam. Eu gostava de todos lá: da mulher muito loira, da outra com olhos da cor de flores, e dos homens que se pareciam muito: eram ambos altos e com cabelos muito, muito claros, ainda mais do que a mulher loira, e enquanto ela tinha olhos de céu, eles tinham as mesmas estrelas do garoto ao meu lado. Mesmo com a perda que sofri, era fácil ver como o mundo que me pertencia. Eu estava bem, eu ficaria bem, contanto que ficasse ali, cercada por aquela gente, vendo o reflexo de diamantes e ouro e seguindo o rastro pontilhado de estrelas na escuridão.

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