Capítulo dez

42 11 0
                                        

- Blake, Ethan

GEORGIA: Feliz aniversário, Ethan. Sei que faz tempo que não nos falamos, mas não tem como não me lembrar do seu aniversário já que é no mesmo dia que o meu! Só queria te dar parabéns e dizer que apesar de tudo, você continua sendo importante pra mim. Eu espero do fundo do meu coração que você encontre alguém que te faça feliz e que te permita fazê-la feliz ( assim como você me fez) que seu dia seja intenso! Com amor, Georgia. * não sei se você apagou meu número.

Tem quinze minutos que acordei e me lembrei pela mensagem da minha ex, que era meu aniversário. Como alguém esquece o próprio aniversário?
- Ele tá acordando! Eu ouvi a cama fazendo barulho, mãe! - Tenho fortes indícios de que Ava está tentando sussurrar no corredor.
- Shhhh! Estou acendendo a vela! - minha irmã também acha que está sussurrando, mas ouço seus cochichos em volume máximo. -se você não parar de falar tão alto, ele vai acordar mesmo! - minha irmã diz nervosa. - pronto, leva. - As duas ruivas entram pela porta do quarto com um bolo de chocolate meio quebrado ao meio e uma vela branca em formato  de estrela.
- Parabéns pra você, nessa data querida...- as duas cantam juntas em tons diferentes de forma adorável. Ava se inclina e me dá um beijo na bochecha. Eva faz o mesmo, mas como todos os anos, dá três beijos em cada bochecha e três na testa pra dar sorte.
- Ava deixou o bolo cair no meio do caminho, por isso está feio desse jeito, caso você esteja se perguntando.
- Desculpa. - ela diz ressentida.
- Não precisa disso. Hoje é de longe meu melhor aniversário, só porque você está aqui comigo. - pisco pra ela e ela sorri.
- Então...vamos pra cozinha? Hoje comprei um banquete de café da manhã digno de cinema.
- Tem até Donut rosa. - Ava diz puxando minha mão da cama.
- Donut rosa? Esse é realmente meu melhor aniversário.
- Todo ano você diz isso. - Eva resmunga pelo corredor.
- E não estou mentindo.
- Vamos comer hoje à noite no Antonella?
- Como sempre. Estava pensando em não chamar ninguém esse ano, ser só nós três, oque acha?
- Você quem sabe. Se você quer só a gente, então vai ser só a gente.
- Esse ano estou cansado pra convidar pessoas e fazer o papel de anfitrião. Vamos no Antonella como de costume, mas só nós três. - Eva concorda.
- Podemos chamar a Grace? - Ava diz enquanto amassa a borda de um Waffle lotado de mel.
- Claro, podemos chamar ela.
- Então, nós quatro? Vou ligar pra lá hoje de tarde e reservar mesa. - Eva confirma- oito horas?
- Oito horas.
Tomamos café juntos na mesa enquanto respondia algumas outras mensagens que havia recebido. Evan havia mandando mensagem, alguns colegas do trabalho, alguns parentes e amigos da época da faculdade. Quando estava me arrumando pra sair, recebo uma mensagem de Grace.
GRACE: oi. Tive um probleminha com o carro, será que você pode me buscar hoje?
ETHAN: claro, estou saindo em mais ou menos 10 minutos. Até às nove chego aí.
GRACE: ok, vou estar esperando. Bjos

Estaciono em frente à sua casa e toco o interfone. Grace geralmente espera do lado de fora quando vou buscá-la, mas hoje nem sequer atendeu a ligação. Toco mais uma vez o interfone.
- Oi. Quem é?
- A fada do dente. - ela ri- quem mais pode ser?
- Entra rapidinho, estou terminando de me arrumar.
- Tá. - ela abre o portão e quando chego na porta da casa, já está me esperando com as mãos pra trás. Grace estava com um vestido rodado branco e uma sandália de mesma cor, óculos de sol apoiado na cabeça e o cabelo solto, descendo em ondas pelo ombro.
- O que é isso?
- É a minha surpresa. - ela estica dois ingressos prateados pra frente.- Evan disse que você tem preguiça dos seus aniversários, e fiquei pensando: quem tem preguiça do próprio aniversário?! Você é estanho, Blake.
- Ok. Ainda não entendi.
- Você me disse uma vez enquanto me dava carona pra casa, que sempre passava seus aniversários assistindo History Channel. E também me disse, que o documentário que você mais gostava era sobre Alcatraz. Você se lembra disso?
- Grace, isso foi há algumas semanas, minha memória não é tão ruim assim.- brinco.
- Você mora em São Francisco desde sempre e nunca pensou em ir até lá?
- Claro que já, mas... não sei. Só... não apareceu a oportunidade.
- Pois é, hoje ela apareceu. - ela sai andando depressa  em direção à saída da garagem e eu vou atrás.
- Onde estamos indo exatamente? Não vamos trabalhar?
- Não. Já resolvi tudo ontem mesmo e hoje eu e você estamos liberados.
- Ok... para quê exatamente?
- Não é óbvio? Vamos fazer um passeio turístico.
- O que? - começo a rir- passeio turístico? Grace, nós moramos aqui.
- E é ainda pior saber disso. Você mora aqui e sequer foi conhecer o lugar. - Grace abre o portão e espera que eu abra meu carro.
- Então seu carro está bem?
- Está tudo ótimo com ele. - destravo e ela se senta no banco da frente da picape.
- Você é de longe a pessoa mais maluca que já conheci.
- São seus olhos.-  ela abre um enorme mapa turístico de São Francisco. - ok, estamos a vinte minutos da ilha, assim que chegarmos lá, vamos entrar num barco lotado de turistas e ficar noventa minutos ouvindo sobre Al Capone, Billy Cook the Killer e Clyde Johnson e suas fugas lendárias de Alcatraz. Feliz?
- Muito.- e eu estava falando sério. - ok, qual a rota?
Grace me guia enquanto lê no celular tão empolgada quanto uma criança fazendo excursão sobre a descrição do passeio. Pensei em perguntar porque estávamos lendo um mapa de turista e não o GPS, mas acho que ela queria a experiência completa.
-"Navegue pela Baía de São Francisco em um cruzeiro de 90 minutos ao redor da Ilha de Alcatraz. Passe por baixo da Ponte Golden Gate e dê uma volta em Alcatraz enquanto escuta sobre as arrepiantes tentativas de fuga e os notórios criminosos que chamavam a prisão de Alcatraz de casa" uau. Profundo.
- Acho que vou chorar, é muita emoção pra um dia só. -  zombo e ela abre a boca em indignação.
- Você está debochando do meu presente?
- Jamais.
- É bom mesmo. Aqui diz que tem um guia explicando sobre cada ângulo da prisão. E também fala que ela já foi a mais temida prisão norte-americana.- Grace se perde nos detalhes enquanto continua descrevendo pra mim o quanto o passeio é interessante. Ela não sabe, mas eu também estava me perdendo nela todas as vezes que parávamos em algum sinal e eu a observava gesticular exageradamente lendo os comentários de pessoas que já foram lá. Como conhecer Grace e ser imune a sua personalidade? Eu estava me afundando e eu sabia disso. Estou me perdendo em larga escala.
- Obrigado. - digo, quando ela milagrosamente para de tagarelar. - obrigado por tudo isso.
- Nosso aniversário deve ser o dia mais feliz do ano. - ela diz sorridente. Eu acho que adoro o seu sorriso Grace.
Meu dia foi de longe sinônimo do que eu afirmei de manhã para Ava. Hoje era um dos meus melhores aniversários. Entramos no barco do passeio às dez e meia. Haviam muitas pessoas que eram totalmente turistas, com suas câmeras enormes no pescoço, crianças rodopiando de um lado pro outro e brilho nos olhos ao ouvir sobre qualquer informação que o guia nos desse. Com certeza eram turistas, mas Grace não ficava pra trás. Ela estava uma legítima turista, tirando fotos a cada metro que nos aproximávamos da ilha onde estava a prisão de Alcatraz. Foram os noventa minutos mais rápidos da minha vida, após tudo ser dito, ficamos apenas apreciando do barco a ilha a poucos metros de nós. Era incrível ver de perto o local onde eu já tinha visto inúmeros documentários baseados em suas inúmeras e famosas tentativas de fuga. Nos sentamos nos banquinhos próximos à ponta do barco enquanto algumas famílias tiravam fotos juntas ao nosso redor. O vento batia no cabelo de Grace enquanto ela conversava sobre o passeio com uma mulher que havia puxado assunto com ela depois de ela ter tirado uma foto dela com seu marido e dois filhos.
- Vocês são de onde? - a mulher na faixa dos trinta anos pergunta pra ela.
- Somos daqui mesmo, e vocês?
- Boston. Meu marido trabalha na marinha e fica quase dois meses longe de casa toda vez que precisam dele, então precisamos aproveitar as férias dele, que por sinal são totalmente desconexas das férias escolares das crianças. - ela esclarece, enquanto aponta para um homem com um chapéu preto a poucos metros de nós, brincando distraído com duas crianças pequenas. - Esse é meu marido Henry, minha filha Alice que tem quatro, e o Pete, que tem dois. Henry tem família aqui em São Francisco então decidimos conhecer um pouco da cidade. Vocês são de São Francisco e estão num barco de turismo?- a mulher pergunta sem entender.
- Foi o que  eu disse a ela, faz algum sentido? - a mulher ri e Grace fecha a cara pra mim.
- A questão é que esse cara aqui...
- Ethan, muito prazer. - digo a interrompendo.
- Adora as histórias daqui, mas nunca veio até aqui. Morando a vinte minutos daqui! Dá pra acreditar nisso?- a moça ri.
- É um prazer Ethan, sou Chloe. Agora que sei o outro lado da história, vou dar crédito pra ela. - Grace me lança um olhar de " tenho sempre razão".
- Hoje é aniversário dele e ele detesta sair nos aniversários, não é um absurdo?
- Ok, sua esposa tem totalmente razão. Você devia agradecer por ter alguém que se preocupa tanto com você. - Chloe está sorrindo, mas Grace está quase abrindo um buraco no navio e se lançando em alto mar. Ela pigarreia.
- Ah, não. Não somos casados.
- Ah, não? - ela diz sem jeito. Então vocês não são casados ainda, entendi.
- Não, não tem " ainda" - Grace diz, rindo em evidente nervosismo.- Ethan é só um amigo.
- Ah, sim! - ela ri- pensei que vocês estivessem juntos. Bom, de qualquer forma você tem sorte de ter uma amiga como Grace.
- É, eu sei que tenho. - Grace me dá um sorriso genuíno.
- Querida, preciso da bolsa de fraldas. - Henry grita chamando a esposa.
- Vou indo, é um prazer conhecer vocês!
- O prazer é nosso, bom resto de viagem. - Grace diz se despedindo rapidamente de Chloe. Assim que ela se vai, Grace se senta novamente do banco ao meu lado, mas dessa vez, silenciosa, ficou toda a rota de volta sem dizer uma palavra. Descemos do barco e fomos almoçar em um restaurante perto do cais, chamado Applebee's.
-  Você está intimada para um jantar hoje à noite.
- Estou? E quem me intimou?
- Ava. Vamos no Antonella comemorar meu aniversário e ela quis chamar você.
- Só ela? Quer dizer que o aniversariante não me convidou?
- O aniversariante certamente quer que você vá.
- Então estarei lá.



Questão de tempo Onde histórias criam vida. Descubra agora