Capítulo vinte e um

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- Hayes, Grace.

Desde quando Maddie morreu, tenho tido o mesmo sonho com ela ao menos uma vez por mês, e hoje, era um desses dias. Apesar de ser estranho repetí-lo tantas vezes, minha terapeuta dizia que era uma forma da minha mente assimilar e acreditar que Maddie estava bem. Sempre era o mesmo: entrava no quarto dela para checar o que ela estava fazendo, e o que me fazia rapidamente distinguir o sonho da realidade, era o fato de que, quando entrava em seu quarto no sonho, ele ainda não tinha a asa pintada na parede, já que pintei após a sua ida. No sonho, assim que pisava da porta pra dentro do cômodo, via Maddie sentada na sua mesinha servindo suco de uva invisível para seus ursos de pelúcia, respectivamente o Leopoldo, Theodoro, Henrique III e príncipe Harry. Ela usava um laço preto na lateral do cabelo e assim que servia a última xícara ela se dava conta da minha presença na porta. Essa cena já havia acontecido na vida real, alguns meses antes dela morrer, não era só uma montagem da minha cabeça, a única coisa que mudava era nosso diálogo, em todos os sonhos a cena se repetia mas o diálogo era sempre diferente. Na versão original da minha memória, ela me chamava para sentar ao lado do príncipe Harry porque pra mim o suco de uva era de verdade. Dessa vez quando entro, ela logo se dá conta da minha presença e interrompe o serviço de suco.
- Porque você parou? - pergunto a ela. É engraçado, nos sonhos parece que sempre estamos num nevoeiro, as coisas são embaçadas e distantes como se estivéssemos em uma dimensão diferente.- me sento ao lado do príncipe Harry e Maddie sorri. Seu sorriso talvez seja a coisa mais linda que já vi no mundo e é por isso que no sonho, começo a chorar.
- Por que você está chorando mãe? o seu suco é de verdade, sabia?
- Sinto falta do seu sorriso. - ela me dá uma hora gargalhada gostosa.
- Minha falta? mamãe, você está doidinha? Eu estava na cozinha com você agora mesmo.
- É. Esqueça. Pode me passar o biscoito de verdade?- ela o faz e ajeita o laço preto.
- Sinto tanto a sua falta, Maddie. - ela ri.
- Mãe - ela parecia achar graça - Você tá esquisita. Do que você tá falando? -  estico o braço até seu rosto e toco seu cabelo volumoso e da mesma cor que o meu, tentando obter a sensação de poder tocar e sentir qualquer resquício da sensação de tocar novamente na minha filha. Mas é em vão. Estou claramente sonhando.- Eu estou aqui na sua frente, mãe. Está tudo bem?
- Eu sei que você está aqui.-Maddie volta a servir suco invisível e sua figura se torna distante, como se não pudesse me ouvir mais.- Não sei se vou ficar bem, Maddie. - suspiro- Às vezes acho que perder vocês dois foi muito pra mim. - Maddie finge tomar o suco de mentira da sua xícara.- sinto tanto a sua falta Maddison.- ela está com o relicário no pescoço, exatamente como antes, ela nunca o tirava.- você está usando o colar. Ele fica mesmo melhor em você. - ela parecia confusa com a minha conversa meio aleatória.
- Foi você quem me deu, não lembra? - então sua figura novamente está próxima de mim e volta a se comunicar comigo no sonho.
- Lembro sim. Quando eu te dei era seu aniversário, você se lembra disso? Te entreguei e disse que era pra eu sempre estar com você, onde você fosse. Eu disse que seria "eu e você...-ela me interrompe com a voz cantarolada.
- "Eu e você pra sempre".
- Isso. Eu e você sempre, Maddie. - vejo seu sorriso novamente e não a interrompo mais. Saio do seu quarto e fecho a porta, com a certeza de que irei acordar e o presente vai doer ainda mais.

Tem cerca de quarenta minutos que estou acordada olhando pro teto. Sonhar com ela torna meu dia pesado, como se houvesse uma nuvem escura de tristeza pairando sob a minha cabeça. Ouço o barulho da campainha. Pondero se devo atender ou não, já que não estou esperando alguém essa hora e além do que, acabei de acordar de um sonho duro demais pra mim. A campainha toca de novo, e na terceira vez decido desistir de ignorar porque me lembrei que agora tem uma bebê aqui dentro que pode facilmente acordar com qualquer barulho. Calço rapidamente os chinelos e pego o roupão em cima da pilha de roupas sujas na cadeira do meu quarto. Passo em frente ao quarto de Aubrey e fico feliz quando vejo que ela finalmente está dormindo. Zoe acordou quatro vezes durante a noite e em todas, fui até ela para tirá-la do berço e colocá-la no colo de Aubrey, e depois o contrário, já que ela não podia pegar Zoe no colo por causa dos pontos da cirurgia. O braço de Aubrey estava esticado até berço e encontrava o rosto minúsculo de Zoe em sua palma da mão. Encosto a porta e sigo até a entrada, olho pela câmera do interfone e a visão me assusta. Jake estava plantado do lado de fora. Quando vejo que ele erguia o braço para apertar novamente, tiro o interfone do gancho.
- Oi - o vejo abaixando a mão novamente.
- Sou eu, Jake.
- Eu sei. Estou vendo você pela câmera. - ele procura a câmera e assim que a encontra acena pra mim. - um arrepio sobe pela minha espinha. Jake e eu não conversamos ou sequer nos vemos desde a noite em que Ethan veio até aqui no meio da noite.
- O que você quer, Jake? Você não devia estar aqui. Lembra disso? - talvez minha voz tenha saído mais exasperada do que eu pretendia.
- Conversar. Fiquei sabendo que você voltou e como na sua ida, também tive que descobrir sozinho.
- Você sabe que eu não te devo satisfações, não é? - escuto sua respiração pesada.
- Só quero conversar Grace. Juro, vim em paz. Estou levantando uma bandeira branca novamente entre nós dois, só preciso que você me escute hoje. Por favor.
- Não tenho tempo agora, Jake, estou de saída.- minto.
- Serei breve, só preciso conversar com você. Eu procurei ajuda, Grace.
- Que bom pra você.
- Só quero me resolver com você.
- Não é necessário, já resolvermos o que havia pra resolver.
- Grace. Por favor.- apesar da relutância interior, decidi abrir a porta. Jake nem sempre fora a pessoa instável e ignorante que se mostrava depois do nosso término, mas sua voz no interfone me transportou pra época em que ele era apenas meu marido, calmo e compassivo. Fazia um ano que não o via, ele havia mudado um pouco na aparência. Sua barba estava maior e seu cabelo também, não de um jeito desleixado, mas sim casual. Ele parece me analisar da mesma forma e eu estendo a mão.
- Oi, Jake.
- Você cortou o cabelo.
- O que você queria falar comigo? - ele ri.
- Nossa. Posso ao menos me sentar-abro a porta por completo e ele vem atrás.- você quer algo? - digo, me transcendendo na cordialidade.
- Não, na verdade passei aqui antes do trabalho e já tomei café em casa. Por que tem tantos pacotes de fralda em cima da mesa? Você.. teve um bebê?- ele questiona, assustado.
- Eu? Não. Aubrey está morando comigo, e ela sim, teve um bebê.
- Aubrey? Pensei que ela não tinha se casado.
- E não casou. - nos sentamos no sofá com uma distância considerável. - foi uma surpresa na pior hora possível. - ele ri.
- Como foi com a gente? Na verdade Maddison foi o melhor imprevisto que tivemos, não foi Grace? - Apesar de eu sempre ter reforçado com ele que não queria ser mãe, ele sempre insistiu que seu sonho era ser pai, e que eu poderia repensar a respeito. A ideia de perder tempo de trabalho ou mudar minha rotina por causa de uma criança, sempre me causava cinco tipos de troços diferentes, sempre fui firme em dizer que jamais teria um bebê e eu levava isso a sério, até a única noite em que fui descuidada. Estávamos viajando de férias em Riviera Maya e eu me lembro de nós dois termos tomado tanta Cuba libre que no final da noite eu poderia ter engravidado de qualquer pessoa ali que não teria lembrado. No dia seguinte tive a pior ressaca registrada em toda a minha vida, só conseguia pensar em morrer e não ver mais álcool pra vida toda. Sequer dei importância por ter transado sem usar nada, e quando fui na farmácia no dia seguinte, só pensava em tomar algo pra acabar com a minha dor de cabeça alucinante. Então foi meio que chocante pra mim quando no mês seguinte minha menstruação totalmente regular atrasou três dias. Jake disse no primeiro momento que eu estava grávida, mas eu pensei "não é possível que na única vez que eu vacilo, isso vá de fato acontecer" mas sabe quando dizem que o universo te escuta e faz completamente o oposto do que você quer? É verdade. Mas também dizem que quando você tem um filho, nada disso importa depois, e isso também é verdade. Me arrependi de todos os dias que amaldiçoei a minha gravidez, não aceitava aquilo e só comecei a considerar a possibilidade quando ela mexeu dento de mim e eu pensei que talvez eu pudesse me acostumar com isso. Nossa vida mudou completamente, passamos do casal que viajava o tempo todo e enchia a cara, pro casal que ia ao parque do bairro e passava os fins de semana no clube. A gente fazia pequenas viagens com ela, mas planejávamos mais futuramente introduzir Maddie nas nossas andanças à moda antiga, viajando de carro sem data marcada pra voltar. Tirávamos férias de um mês juntos e aproveitávamos até o último dia. Eu sei que fui feliz com Jake, e sinceramente acreditei que ele era o amor da minha vida. Ele foi perfeito até simplesmente, deixar de ser. Me lembro de vários momentos em que nos deitávamos nesse sofá, ficávamos conversando com a minha barriga já imensa e ele sempre dizia " ela gosta mais da minha voz". Eu e ele éramos um casal de cinema, começamos a namorar na faculdade, eu líder de torcida e ele jogador de Hóquei. Ele me notou numa festa de calouros que minha fraternidade ofereceu, e eu simplesmente achava ele um ridículo. Metido e riquinho, ele ficava com pelo menos umas cinco na mesma noite e eu me lembro de ter dito pra ele que eu não fazia o tipo " idiota" quando ele deu em cima de mim e antes mesmo de sequer saber se  ficaria comigo, me pediu em namoro. Falei também que não tinha vocação nenhuma pra chifre e me lembro que ele inconformado com meu não, começou a ir em tudo o que eu fazia na faculdade. As aulas extras, os grupos de estudo, a biblioteca, as festas que eu ia com as minhas amigas ele ia com os dele e ele fazia questão de não ficar com ninguém, ao menos não na minha frente. Até que um dia, em uma das mil festas que minha fraternidade oferecia aos calouros, ele subiu em cima de um carro de som e me chamou pelo auto falante, tinha tanta gente no gramado da casa onde eu dividia com mais 15 meninas, que até pra mim que não era nada tímida, foi difícil não ficar vermelha. Me lembro até hoje do que ele gritava " Grace, você é a mulher mais malvada que eu conheço, estou há um mês sem trepar e espero que saiba que isso é culpa sua." Talvez ele estivesse bêbado. Eu gritei que não tinha nada a ver com isso, e então ele se ajoelhou em cima do carro e continuou o discurso: " Eu, Jake, juro solenemente que se você aceitar namorar comigo e eu trair você, você tem permissão para cortar minhas bolas e pênis fora" todos riram, e eu também, Jake era o capitão do time e vê-lo naquela posição era bom demais pro meu ego, além de mim, todos os seus amigos se contorciam de rir da situação. Nós dois começamos a namorar dois meses depois e eu juro que não tinha ninguém como ele pra mim. Nos dois éramos insanos juntos e vivíamos pensando em qual seria nossa próxima aventura na estrada. Jake foi um pai ainda melhor do que eu sonhava que ele seria, e eu conseguia me apaixonar por ele ainda mais. Quando Maddie morreu, algo dentro dele se quebrou, e na noite em que ele me acusou de ter sido a culpada por isso, eu sabia que jamais poderia consertá-lo, ou consertar qualquer coisa que já tivesse existido entre nós dois novamente.
- Sim. Exatamente como aconteceu conosco. - falo quase sem ânimo algum, porque detesto lembrar das coisas alegres que vivemos e não temos mais. - Jake, o que você quer?- pergunto cansada, porque apesar do tempo bom que vivemos no passado e que me veio à memória hoje especialmente, Jake não deixou de ser o cara que tanto me machucou. Me dói lembrar de tudo, ainda mais com ele dentro de casa de novo.
- Recebi o seu e-mail no ano passado. Sobre o dinheiro.
- Sim, sobre a sua parte. Sei que não me comuniquei com você durante esse tempo mas não encostei na sua parte, na verdade tenho planos pra minha, entre elas, reformar a casa e investir em algo pra mim.
- Vim por isso. Vim pra dizer que você pode ficar. Não quero o dinheiro e reformar uma casa custa caro, vim te dizer que pode esquecer disso, sei que você irá gastar isso da melhor forma.
- Não quero seu dinheiro.
- Não pense que estou fazendo isso pra você me dever algo em troca Grace, estou sendo sincero, não preciso dele e quero que fique com você. É o mínimo.- ele suspira.
- Mínimo? Mínimo do que?
- Mínimo depois do que eu fiz. Você foi agradável até demais me mandando aquele e-mail depois do nosso último encontro.
- Sou justa. Se é seu, deve chegar até você. E não quero seu dinheiro por pena, as coisas que você me disse não vão se desfazer com dólar, então vamos resolver isso logo pra cada um seguir em frente.
- Não quero o dinheiro.
- Então porque você veio aqui? Poderia te dito isso por e-mail, não?
- Por que te devo muito, e precisava vir atrás de você. - ele se aproxima e eu instintivamente me afasto. - quando me casei com você fiz a mesma promessa que fiz quando me declarei, você se lembra?
- Talvez. - é claro que eu me lembro.
- Eu te disse que jurava solenemente ser fiel a você e que se eu te sacaneasse, você poderia cortar meu saco fora. - ele ri, pois essa foi a versão censurada da primeira - me lembro que o padre ficou atônito na hora em que eu te disse isso, e você me xingou por horas na nossa lua de mel porque eu disse " saco" na frente da igreja toda. Você lembra, Grace?
- Sim. Onde você quer chegar revivendo isso?
- Não quero justificar as merdas que fiz e as merdas que te disse. Mas eu falhei muito com você. Eu jurei cuidar de você e ser fiel a você, fiel em tudo e eu deixei você na mão quando a gente devia ter ficado junto, passando por tudo isso.
- Eu sei, mas já passou. Não guardo rancor de você, não mais.
- Pois deveria. Fui um merda com você, e se nós dois de sete anos atrás víssemos como eu te tratei, acho que diríamos que fui abduzindo e o maluco no meu lugar era outra pessoa. Eu sempre cuidei de você, mais que de mim mesmo.
- Eu sei, Jake. - isso era absolutamente verdade.
- Eu só.. não consegui lidar com aquilo, ok? Não justifica nada Grace, mas eu... não aceito até hoje que ela se foi.
- Eu sei como é.
- Eu vim aqui perguntar se há a possibilidade de você me perdoar algum dia. Não quero alimentar esperanças de que voltaremos, nem nada do tipo. Só quero ficar em paz com você, porque sempre fomos bons um com o outro, sempre fomos bons um pro outro.
- Eu.. honestamente não sei oque dizer. Porque tudo isso agora?
- Não sei, Grace. Eu só... Ela se foi. Nada vai mudar isso e eu só percebi isso há pouco tempo. Você sofreu com isso e eu ainda acusei você de tanta coisa, novamente, quando eu deveria proteger você das coisas ruins. Eu só vim pedir perdão.
- Ok. Eu perdoo você. Só.. não acho que exista a possibilidade de passar disso, entende? Talvez até possamos ser próximos novamente, mas preciso de tempo. Você me machucou demais.
- Tudo bem. É justo da sua parte, mas só preciso que você me perdoe por tudo o que eu te disse, pra mim já é suficiente. - Pela primeira vez em dois anos vejo os olhos de alguém que eu me apaixonei. Esse era sem sombra de dúvidas o cara que eu amava. Não sei se havia lugar no meu coração para querer conviver com ele novamente, como colegas ou amigos, mas aquilo já era certamente um avanço.
- Jake? - espero sua atenção e completo -Eu estou em paz, e acho que você deveria ficar também.- parafraseio o que  Eva já me disse quando cheguei, porque aquilo também era uma verdade pra mim. Estou em paz com relação a Jake.
Jake sorri e vejo que há conforto em sua expressão.
- Obrigado por isso, Grace. -Ele se despede de mim e eu fico alguns minutos na cozinha tentando assimilar tudo o que aconteceu essa manhã. Ninguém para de fato para analisar um divórcio. Como duas pessoas que se amavam tanto, se tornam tão distantes? Como Jake e Grace do passado se tornaram duas pessoas completamente distintas hoje? Era estranho pensar em como tudo pode mudar com o tempo.
Poucos minutos depois de Jake passar pelo meu portão, a campainha toca e quando olho pela câmera, vejo Ava e Blake parados em frente à minha casa. Meu coração para por alguns instantes e eu puxo o interfone.
- Olá.
- Antes que você me pergunte, Eva não pôde trazê-la, por isso estou aqui. - droga.Prometi anteontem que olharia Ava e a levaria na escola. Eva me ligou e disse que precisava ir num grupo de estudos nessa semana de prova e que Blake iria numa reunião. Acabei me esquecendo disso.
- Estou indo aí.
Me arrasto pelo jardim até chegar no portão, me preparando psicologicamente para ver Blake cara a cara de novo.
- Olá pra vocês dois. - talvez eu devesse ganhar um Oscar de sorriso mais falso da história.
- O que aquele cara estava fazendo aqui? - Blake diz como um homem das cavernas sem tacape. - vi Jake saindo daqui agora mesmo. O que ele estava fazendo aqui, Grace?
- Oi! Bom dia pra você também. - me abaixo para abraçar Ava que está apenas olhando pra mim para o tio tentando captar o que está acontecendo. - Ava, quer ir entrando? Vou ter uma palavrinha com seu tio. - Ava manda um beijo para ele e sai correndo em direção a casa com a mochila pulando nas costas conforme ela acelerava o passo.
- Como quiser.- ele reformula - Bom dia, Grace, o que o maluco do seu ex marido estava fazendo dentro da sua residência? - enfio o corpo pra fora do portão, para ficar nivelada com ele e me arrependo. Meu campo de visão foca em seu carro e vejo a presença luminosa de Phoebe no banco do carona. Ela acena pra mim , eu retribuo e apesar dela estar do outro lado da larga rua, conseguia ver o semblante inconfundível e familiar de "poderia arrancar seus olhos agora mesmo, Grace Hayes" que Phoebe guardava com todo amor só pra mim, desde quando eu e Ethan almoçávamos juntos no seu trabalho.
- Olha só. Você e Phoebe? O que o tempo não faz, não é?
- Espero que não seja um problema pra você. - apoio a mão na barriga ajeitando a roupa sem motivo algum.
- Acho fofo você achar que dou a mínima pra quem você namora, Blake. - ele parecia ainda mais irado.
- Você não me respondeu.
- E nem vou, passar bem. - ameaço entrar e ele sutilmente segura a porta.
- Ele disse algo a você? - sua fortaleza de ódio se transforma em preocupação. Ele parecia realmente preocupado, então decido não ser tão má.
- Ele veio conversar, só.
- Ele tem um mandado por um motivo, Grace.
- Ele veio me pedir perdão. Se lamentar pelo que fez comigo, com a gente.. e só.
- O que? - Blake ri- ele já está nesse nível?
- Nível?
- Fazendo o bom moço pra você voltar pra ele.- ele ergue as sobrancelhas num ar tão arrogante que não sei se me irrita mais por sua petulância ou por deixar seu rosto ainda mais sexy. Vá se ferrar, Blake.- Típico.
- Blake - coço minhas têmporas com violência - não sou tão idiota quanto você pensa, e outra coisa... porque você não cuida do que é do seu interesse? Você veio entregar Ava? Está feito, tenha um bom dia. - dou um passo pra trás e quando tento fechar a porta novamente, ele me impede.
- Têm mais.
- Ah, têm mais?
- Eva pediu que eu  te entregasse isso. - ele pega no bolso um envelope de gliter.
- O que é isso? - pergunto abrindo.
- Aniversário de Ava esse final de semana, vai ser na casa dos meus pais aqui em São Francisco.
- Tá. - digo ainda nervosa com Blake e suas chatisses - estarei lá, obrigada. - ele pigarreia.
- Eva pediu pra avisar que é à fantasia, está escrito aí, de qualquer forma.
- Ok. Talvez seja a hora de você ir embora. Pela cara da sua namorada, ela deve estar se perguntando o que tanto a gente conversa.
- Se quiser também pode levar seu futuro acompanhante. - demoro para perceber seu sarcasmo.
- Ah! Muito obrigada pela benevolência Blake, vou levar meu amado ex marido, já que agora nós engatamos um romance tórrido pós tragédia. - exclamo - passar bem. - ele não reage enquanto puxo a porta e dou de costas.
- Bom dia pra você também!- ele diz alto, de forma que eu escute mesmo depois de ter batido a porta na sua cara. Entro esbravejando pela porta e jogo a chave no sofá. Ava está na copa, sentada à mesa tirando toda sorte de coisas da sua mochila e ri quando me vê.
- O que foi, Grace?
- Não é nada meu amor. - ela fica pensativa diante da minha resposta vaga.
- Meu tio está te irritando, não é? - sorrio.
- Meninos, Ava. Meninos. - ela acena em máxima confirmação, porque pra nós mulheres, isso sempre foi autoexplicativo.
Durante toda a tarde, reluto em perguntar sobre Phoebe para Ava. Ha quanto tempo estão juntos? Você gosta dela? Ela é legal? Seu tio gosta muito dela?
Mas não faço isso. Se Ethan sonhasse que estou me preocupando com isso, seria o meu fim.

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