- Hayes, Grace.
Estou refazendo a noite passada na minha cabeça desde a hora em que abri os olhos, e além da vergonha que sinto, a culpa vem e a supera mil vezes mais. Eu tinha a absoluta certeza de que Evan não merecia aquilo, mas eu simplesmente não sei explicar o que aconteceu ontem. Deixei minha vontade falar mais alto? Eu sempre pedi sinceridade a Evan, isso significa que eu terei que contar o que aconteceu ontem? Eu não quero. Posso ser a maior hipócrita do mundo, mas eu não queria falar. Isso significaria acabar com meu noivado e a amizade dos dois. Porque eu me deixei levar? Minha vontade era ficar na cama até ano que vem e pedir que alguém resolva meus problemas. Eu não posso ser filha da mãe e jogar a culpa na bebida até por que me lembro exatamente de tudo que fiz, e tinha ciência daquilo. Talvez eu estivesse com mais coragem e mais propensa a fazer mais merda que o normal, mas cacete! Eu parti pra cima dele. Não quero olhar na cara dele, por que fico lembrando que ele me viu nua e ainda... putz. Alguém bate na porta. Olho o relógio e me pergunto como numa quarta feira feira acordei às dez. Por que Ethan não me acordou para irmos ao trabalho? Eu quero olhar pra cara de Ethan? Meu despertador tocou? A porta bate de novo.
- Eu já vou!
- Grace, abre a porta por favor. - Ethan estava com uma voz estranha. Tensa. Me levanto e coloco um short jeans antes de abrir a porta. Estava constrangida em ver ele, mas sua expressão era tão diferente da que eu esperava ver que eu não sabia decifrar o que ele queria dizer com ela. Não parecia vergonha nem algo do tipo.
- A gente precisa conversar - digo- eu sei,mas primeiro, porque você não me acordou? Por que ainda estamos em casa? - Ethan me puxa pela mão e me leva até a sala, onde a televisão estava ligada no noticiário. Antes de perguntar o que ele estava fazendo, leio a manchete. " Acidente com andaime em construção do novo estádio em Nova York deixa dez feridos e cinco pessoas em estado grave" minha perna fica bamba. Procuro me orientar e ver se o estádio é o mesmo em que Evan está trabalhando. Após algumas imagens serem transmitidas pelo jornal, percebo que realmente era o de Evan. Ethan já sabia, só estava ali, me mostrando. Me sento no sofá e Ethan faz o mesmo. Começo a digitar o número de Evan, logo depois de checar se havia alguma mensagem que não visto. Nada. Estava lerda ainda, pra pensar, pra agir, olhava pra tela e pro celular ao mesmo tempo.
- Eles estão atualizando a todo instante. Estou vendo isso faz duas horas.
- O que... quando foi isso?
- Cedo. Por volta das oito, preferi não acordar você.
- O que? Ethan.. você ficou maluco? Por que não me chamar? Meu Deus. A gente precisa ir lá!
- Grace, acredite já liguei pra todo mundo que conheço naquele lugar, já liguei até pro celular dele, não tem resposta. Estão esperando mais informações, até agora não se sabe ao certo quais funcionários estavam lá, quem sabe ele não estava lá?- ele falava tudo depressa, visivelmente transtornado - Eu não sei tá bom?
- Nós temos que ir lá. Nós temos Ethan!
- Grace. Nós vamos esperar notícias, - seu olhar permanece vidrado na tela- precisamos esperar.
- Esperar? Esperar pelo pior?
- Grace! Você tem ideia de como estou? Você pode até amá-lo, mas você não tem ideia do que ele é pra mim, entendeu? Estou me segurando aqui pra não surtar, então sugiro que você faça o mesmo e espere. - Ethan massageia a palma da mão esquerda e faz o mesmo com a direita, sem nunca perder o contato com a televisão.- Eu o conheço há anos Grace, anos. Tem ideia de como estou? Depois de ontem, e agora isso? Ele é família. - eu aceno. Pensando que Evan também seria a minha.
Passamos mais meia hora ali, sentados ouvindo cada palavra do jornal. A jornalista entra ao vivo dizendo que há três vítimas. Morreram na hora. Irão identificar os corpos. Estou sem respirar. Aquilo parecia um seguro pesadelo que eu estava vivendo. Mais dez minutos. O primeiros corpo é identificado. Luke Adams, 34 anos. Morreu na hora. Mais vinte minutos. Não havia troca de palavras entre mim e Ethan. Nesse meio tempo, ligava para os parentes dele, para os amigos dele e refazia as ligações para a firma. Nada. Ninguém me atendia e eu estava à beira de ter um colapso nervoso. Evan permeava minha cabeça e todas as coisas que eu achava significantes em nosso relacionamento passavam por ela como um filme anos noventa. Meu coração estava tão acelerado que parecia prestes a explodir a qualquer momento. De repente senti vontade de correr até meu quarto e me esconder debaixo da cama. Queria sentir a mesma sensação que sentia quando eu era criança. De quando éramos pequenos e nos deitávamos debaixo da cama ou no quartos dos nossos pais e isso era um sinal de refúgio de todos os males que nos afligiam. Eu queria me esconder em algum lugar, onde eu estivesse segura de todas as péssimas notícias que o mundo tinha a me oferecer. Ethan olhava a todo instante pra televisão e eu rezava. Enquanto a mulher dizia que foram encontrados mais dois corpos, pedia a Deus que não me tirasse mais nada. Eu não sei se sobreviria à aquilo e nem sei se gostaria. Eu estava ciente de que não merecia Evan, mas ele merecia estar bem. Vivo e bem. As imagens de um helicóptero mostravam a área que foi prejudicada, uma parte pequena comparada a imensidão do estádio. Mais trinta minutos. O jornalista diz que tem os nomes das outras quatro vítimas do acidente. Ethan fecha os olhos com as duas mãos. - John Sulivan, 23 anos. Erza Zahir, 45 anos. Matt Graham 22, Evan Jenkins, 29. - Não ouço o próprio grito que sai da minha garganta.
Maddie.Evan. Maddie. Evan. Dizem que quando você está a beira da morte, não é tudo que você viveu que passa na sua cabeça. É tudo o que importa, em milésimos de segundos. Eu sentia isso, todas as vezes que tinha um surto de pânico. Eles começaram quando eu tive a ciência de que Maddie de fato morreu no acidente e eu não tinha mais uma filha. O rosto dos dois cobriam a minha mente enquanto eu já não mais ouvia o noticiário. Meu peito doía como se me faltasse ar. Ethan não se moveu. Não haviam ar nos meus pulmões e eu não sabia como respirar mais. Estou sem nada. Não sei como fui parar no chão, mas abraço minhas pernas com força. Sei que estou gritando mas não ouço o som. Os sons e ruídos ao meu redor começam a voltar. Quero me deitar. Quero dormir, Evan. Quero dormir e acordar do seu lado.
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Questão de tempo
Chick-Lit" É preciso acreditar que depois das coisas ruins sempre vêm as coisas boas...ou pelo menos, deveria ser assim" Grace Hayes, 26 anos, uma perda, uma mente brilhante , noiva de Evan Jenkins e dona de um ego totalmente inabalável. Ethan Blake, 27 ano...
