- Blake, Ethan
EVAN: como tá aí?
BLAKE: to bem e vc.
EVAN: Apesar de me importar com a sua pessoa, estava falando do trabalho ;-)
BLAKE:Estamos seguindo conforme o planejado, e tenho quase certeza de q vamos terminar até antes do prazo.
EVAN: hum.ok. Como está Grace?
Como está Grace? Ele não conversa com ela?
BLAKE : não sei. Não conversamos muito. Na verdade, não conversamos nada.
EVAN: droga, acabaram de me chamar e estou em horário de almoço. Enfim, Grace demora um pouco pra deixar as pessoas conhecê-la, mas com o tempo vocês vão se entender. Vou nessa.
BLAKE: Quebra a perna!
A primeira semana passou tão rápido quanto um final de semana em Bahamas. Dizem que quando se está num lugar agradável o tempo passa mais rápido. Grace e eu não tínhamos muitos diálogos, na verdade, nós nos atínhamos em dizer " bom dia, boa noite e boa tarde" Ela ficava a maior parte do tempo lá dentro, enquanto eu ficava com os funcionários de Evan do lado de fora. Era complexo realizar tudo oque planejamos, por não poder alterar muito na estrutura primária e pelo fato da estrutura já ser muito antiga e comprometida. O trabalho era extenso, então não tinha muito tempo pra tentar me aproximar amigavelmente da noiva do meu amigo. Ela passava o dia ouvindo músicas, seu estilo era de longe o mais eclético que eu já vi, e as vezes ria sozinho ouvindo suas notas agudas quando ela se empolgava. Sua voz era bonita, tenho quase certeza que ela já participou de corais, porque ela tinha voz pra isso. Grace deixava sua caixa de som ligada o tempo todo em que estava lá dentro, então, quando a música cessou achei estranho. Estava bem próximo da janela de ladrilhos quando ouvi uma voz não familiar e rude vindo lá de dentro.
- O que você quer, heim? - a voz de Grace é quase uma súplica.- já assinamos os papéis, o que mais você quer comigo Jake?
- Você pediu a porra de uma medida protetiva pra mim?
- Não quero que você chegue perto de mim, já disse isso. Qual é o seu problema? Por que não me deixa em paz?
- Deixar você em paz? Pra você continuar fodendo com a minha vida?
- Jake. Você está fedendo a álcool como um gambá e ainda é cedo, você precisa se tratar. Por favor, você nem devia estar aqui.
- O que você vai fazer? Me denunciar? Por estar conversando com você?
- Você não pode vir me ver, você não entendeu?- ele ri. Ele ri e escuto seus passos se afastando.
- Quer saber? Você merece isso mesmo. Merece a porra de vida que você tem. Você quer me culpar por esse casamento ter acabado? Você sabe quem é a culpada de tudo isso.
- Jake, você quis o divórcio. Você. O que te deu agora pra vir atrás de mim? Você não acaba de dizer que eu fodi sua vida? O que você quer comigo ?!
- Eu já disse que não quero mais esse divórcio. -Escuto Grace suspirar.
- Já está feito, Jake. E acredite, foi melhor assim.
- Você devia ter insistido mais. Insistido mais em nós, pensei que você me amasse, Grace. Você é só mais uma filha da puta!
- Saia daqui.
- Aonde está aquele filho da puta? Agora é com ele que você vai foder, certo?! - Decido entrar. Não digo que me arrependo de ter feito isso quando vejo a cara de espanto de Grace, por que eu não estava nem aí. O cara se vira e sua aparência me assusta. Ele parecia completamente desequilibrado, seu olhar era perdido e irado, mas suas roupas diziam o contrário. Ele vestia uma terno caro e tinha um Rolex na mão.
- Grace? - pensei em perguntar se estava tudo bem, mas era óbvio que não. Ela parecia tão envergonhada por eu estar no centro da sua vida intima, que eu não quis deixar claro que ouvi toda a conversa. O jeito que ele se comportava, me dizia que minha única atitude deveria ser sair dali com ela e ir denúncia-lo por descumprir o mandado de segurança.- já está pronta para irmos?
- Sim. - A sua resposta repentina me assusta. Ela sequer demonstrou que não sabia do que eu estava falando.
- Quem é você? É o cara que está comendo minha mulher?
- Jake. Sai daqui agora! - ela está segurando as lágrimas nos olhos tão fortemente que seu cenho está franzido de ódio. - não somos mais casados, não te devo explicação da minha vida, sai daqui!
- Eu te aconselho a fazer o que ela pediu. Por que não vou deixar você falar assim com ela. Seja adulto e saia daqui. - Jake cospe em cima dos pincéis de Grace jogados no chão.
- Pode ficar com minhas sobras. Até uma vagabunda qualquer tem mais emoção que essa vadia.-Vou pra cima dele. Nós dois viramos um emaranhado no chão. Esmurro seu rosto até ver sangue vivo escorrendo dele. Ele talvez tenha quebrado o meu nariz, mas eu não estava nem aí. Grace estava gritando pedindo que alguém a ajudasse, senti um dos funcionários me arrastando pra longe de Jake enquanto um outro fazia o mesmo. Jake não se importava comigo, não mesmo, ele estava sangrando porque eu o feri, mas ele ainda se virava para ela para xingá-la de todas as formas possíveis. Grace era uma figura minúscula na minha frente que ficava repetindo " para, Blake, para por favor!" Ela repetia aquilo como um mantra, e então, Jake se solta dos dois e desaparece escadaria a fora. Assim que minha respiração volta ao normal, me sento no mezanino do templo e começo a me perguntar se devo exigir explicações de Grace. Ela saiu e rapidamente voltou com uma caixinha de primeiros socorros. Seu rosto estava tão atônito que eu desisti de querer explicações. Aquele filho da mãe mereceu, e não me importo se ela fez algo de errado com ele ou não. Ninguém merece ser tratado assim. Grace não me olhava. Ela limpava o sangue que eu sentia escorrer do meu lábio e da minha sobrancelha.
- Eu acho que quebrei o nariz. - suspiro.
- Não. Não tá quebrado.
- Como você sabe? - gemo de dor quando ela limpa algum corte que deixei passar despercebido no meu supercílio.
- Porque já cuidei de gente com nariz quebrado, o seu não está.
- Ok.
Ficamos em silêncio enquanto ela me ajudava. Tinha tanta coisa pra dizer, mas ninguém quebrava o silêncio instaurado.
- Não sou agressivo. - pigarreio.- se você está pensando isso, ou com medo de mim... não sei, eu não sou assim. Só não acho que ele devia..
- Obrigada. - ela diz rispidamente. - não estou achando nada de você, Blake. - ficamos assim n silêncio até ela completar - obrigada por você ter feito algo que eu não posso.
- Você era casada com ele? - ela acena a cabeça. Agora ela está limpando minha mão direita, e permanece sem fazer contato visual.
- Você ouviu o que ele disse, não é?- ela diz tão baixinho que mal consigo ouvir.
- Sim. - assumo.- eu ouvi cada absurdo que ele disse pra você. - ela acena novamente, ainda mais retraída. Me pergunto se ela estava envergonhada por eu ter ouvido.-Não queria ser bisbilhoteiro. Mas ele elevou a voz com você e eu tive que intervir.
- Eu sei... eu só... - ela solta o último fio de resistência que ela tinha. Seu rosto vira um mar de água e ela insiste em limpar o rosto a cada vez que ele se inundava de novo.
- Ei. Grace, não estou nem aí pro que ele disse de você. Ele sim é um filho da mãe.Teria feito isso de novo se tivesse a chance, não me arrependo.
- Você se machucou pra me ajudar. Isso é ridículo, Blake. Como eu me casei com alguém assim?
- Tenho certeza de que ele não era assim.
- Não, não era.
- Escuta, não precisa ter vergonha de chorar. Se quiser, chora. - ergo seu rosto até que ela olhe pra mim.- nós vamos na delegacia agora mesmo.
- Mas..
- Não. Nós vamos, não é uma sugestão. Se ele tem a ordem de ficar longe de você, ele vai ficar.
- Ele desaparece depois que isso acontece, então acho que não o veremos por um bom tempo.- céus. Ele já fez isso mais vezes?
- Grace, ele surta dessa forma sempre?
- Não. Isso começou depois de Evan.. ele não aceita que vou me casar.
- Você mora sozinha?
- Agora sim. Evan meio que morava junto comigo. - me pergunto como Evan decidiu ficar três meses fora sabendo do ex marido problemático que ela tem. Eu a manteria do meu lado como um apêndice.
- Já faz um tempo que ele não aparece. Ele... não tá bem.
- Isso é visível. Nós vamos agora na delegacia.
Fomos em silêncio no meu carro. Grace prestou queixa, mas quando a delegada fez algumas perguntas pessoais, ela decidiu responder longe de mim. Ok, por mim tudo bem, não somos próximos. Assim que ela voltou, reparei em como seus olhos estavam fundos. Ela não estava dormindo direito? Entrou no carro em silêncio e foi assim até chegarmos no seu bairro. Coloquei no GPS e descobri que ela morava só a algumas quadras da minha rua. Minha casa fazia divisa com a Waller e a avenida central. Decidi dizer algo antes de parar em na sua casa. O GPS mostrava que faltava dez minutos para o destino.
- Há quanto tempo você mora em São Francisco?- eu sabia que ela não era daqui, então decidi ir direto ao ponto.
- Na verdade, nasci em Idaho. Meus pais têm origem britânica mas quando nasci já tinham vindo para os EUA.
- E seu sotaque vem de Idaho também?- pergunto rindo, já que seu sotaque não poderia ser mais britânico.
- Eu morei alguns anos na casa dos meus tios, em Londres. Meus pais não perderam o sotaque nem meus irmãos, o que me deixa completamente sem saída para me americanizar. - ela ri. - e você?
- Sou daqui. Nasci e cresci em São Francisco. Minha família foi quem decidiu experimentar novos ares. Meus pais moram em Michigan, e costumam visitar nos feriados. Ava e Eva moram comigo, só tenho ela de irmã.- ela acena, e voltamos pro mesmo silêncio constrangedor. Ótimo. Ela não quer conversar, então decido ligar o rádio. Assim que regulo o som, ela aperta o botão e desliga.
- Você pode parar o carro aqui? - estava bem próximo da sua casa. Passamos em frente ao parque de Álamo, perto do meu restaurante favorito, Eddie's café. Antes que eu pergunte o porquê, simplesmente estaciono o carro. Tem algumas crianças brincando na aérea de playground do parque, algumas pessoas sentadas lendo, pessoas caminhando. Era um fim de tarde bonito em Álamo.
- Eu costumava correr na avenida Golden Gate. Todos os dias. Eu e Maddie..Maddison .- ela está olhando pela janela, como se doesse falar sobre o que ela estava me contando - A minha filha. Tive uma filha com Jake. Minha rotina era a mais incrível do mundo, eu trabalhava até às quatro, buscava Maddie na escola, e então eu corria, enquanto ela me acompanhava na ciclovia com sua bicicleta rosa de rodinhas - ela ri de forma sútil e dolorosa - ela não era rápida, obviamente, então eu diminui o ritmo depois que ela nasceu. Passei de atleta de corrida para a mãe que andava e corria no ritmo de uma bicicleta infantil com cestinha, e eu adorava, Blake. Era a vida que eu pedi a Deus, eu simplesmente adorava ser mãe dela e adorava nossa cumplicidade. Comíamos no Eddie's todos os dias depois disso, e eu falava sobre meu dia e ela sobre o dela. Falávamos sobre os desenhos dela, tínhamos briguinhas bobas sobre qual sabor de macarrone era o melhor. - Grace se vira pra mim- ela era meu mundo, Blake.
Eu não queria ouvir mais. Não queria, por que eu sabia que o resto seria provavelmente a pior coisa que eu já escutei. Mas ela continuou, e eu queria que ela soubesse que eu me importo em ouvi-la.
- Naquele sexta feira em que eu cheguei tarde, fez um ano que ela se foi. No dia do seu aniversário. Jake pediu que nós duas não saíssemos naquele dia, já que a família iria se reunir lá em casa para cantarmos parabéns. A festa seria no sábado, então só faríamos algo pra não passar em branco, mas Maddie adorava ir até a avenida, e ir até o Eddie's. Era nosso momento sabe? Nos aproximava. Eu prometi que voltaríamos rápido, então, cerca de quinze minutos depois que estávamos na avenida, eu...- ela enche os olhos de água novamente.
- Grace.. não precisa terminar se não quiser..
- Eu quero. Quero que você saiba quem eu sou, porque não sou tão horrível quanto você pensa.
- Não penso que você é horrível. - não mesmo.
- Uma mulher bateu o carro numa carreta, seu carro descontrolou-se e ela rodou até a pista da ciclovia. Maddie morreu na minha frente na mesma hora. - ficamos em silêncio. Eu não tenho o que dizer. Me sinto um idiota em apenas ouvir Grace, mas eu não sabia o que era suficiente para dizer pra ela. Nada.
- Eu fiquei em estado de choque por dias. Na noite do acidente, gritei por horas seguidas no hospital sem sair nenhum som,além de passar meses tomando tarja preta para dormir. Até hoje tomo remédios para dormir às vezes.- ela diz - faço terapia. Tento não pensar na cena que eu vi, mas Blake.. é impossível. Você tem ideia do que é pra mim ter visto minha filha ser atropelada? Ela tinha cinco. Eu só chorei sua morte depois de dois meses. Eu não conseguia sentir o que eu estava vivendo, você entende? Fiquei paralisada. Dizem que quando você sofre algo tão intenso, sua mente desliga. Eu me sentia assim. Mas eu me lembro de cada dia que Jake me culpava pela morte dela. Eu entendo que tive minha parte, eu não devia ter saído com ela aquele dia.. as vezes penso que se eu não tivesse insistido.. se não tivéssemos ido.. Maddie estaria aqui. Correríamos todos os dias, iríamos no Eddie's e um dia ela iria me contar de algum namorado da escola.. iríamos escolher um vestido de noiva.. choraríamos juntas diante de qualquer problema. Só me dei conta dois meses depois que eu tinha perdido meu mundo.
- Ele culpou você por isso? Grace, você não tem culpa de acidentes acontecerem. Você não tem que cogitar essa ideia. Nunca.
- Então nosso casamento morreu também. Não conseguia viver nem me recuperar se todos os dias Jake me acusava de ter sido a responsável disso. Me divorciei, Aubrey me ajudou tanto. Morei na sua casa alguns meses, porque ficar na minha era insuportável. E aí conheci seu amigo. Evan me fez conseguir voltar pra casa e dormir à noite. Com menos remédios. Quando Jake soube disso, ele simplesmente surtou. Queria me reivindicar a todo custo. Ele é doente, ficou doente, Blake. Mas eu não sei se o culpo.. não o defendo por me destratar mas acho que cada um de nós lidou com a ida dela de um jeito.
- Você também é vítima da situação, Grace. Não deixe ele voltar isso contra você.
- É difícil pra mim olhar sua sobrinha, e te peço desculpa. É que..
- Ela te lembra sua filha.
- Muito. Maddie era tagarela como ela, além de ter aquele jeito decidido de ser. Sinto muito se fui dura com ela.
- Sinto muito se fui duro com você.
Ela volta a olhar pro parque. Não puxo assunto novamente. Ela já me disse tudo o que queria dizer, e do jeito que Grace era, isso já era muito. Voltei a dirigir e parei em frente à sua casa.
- Obrigada por hoje, Blake.
- Obrigado por ter dividido isso comigo, Grace. - ela desce do carro e volta a ser a Grace durona e firme de antes. Não sei como Grace consegue viver com tudo isso que aconteceu, com a merda de ex marido que ela tem, e com a constante lembrança da filha. Fiquei esperando ela entrar em casa. Assim que ela o fez, acenei enquanto pensava que Evan tinha razão: realmente não deve haver muitas pessoas como Grace. Quem a olha andando com seu jeito durão e cheio de si não imagina o quanto ela é completamente abalada por dentro.
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ChickLit" É preciso acreditar que depois das coisas ruins sempre vêm as coisas boas...ou pelo menos, deveria ser assim" Grace Hayes, 26 anos, uma perda, uma mente brilhante , noiva de Evan Jenkins e dona de um ego totalmente inabalável. Ethan Blake, 27 ano...
