- Blake, Ethan
O furacão das mulheres Blake chegou até o apartamento, sei disso porque há vozes altas vindas do corredor de fora e passos pesados acompanhados por pulos rápidos no corredor. Como previsto, as duas ruivas entram pela porta da frente como se estivessem em uma disputa por quem interrompe a outra mais vezes ao falar.
- Ava, banho, já. - Eva diz jogando as chaves na bancada.- o que tem pra comer?
- Tô tentando cozinhar. Pizza doce e salgada. - Há alguns meses decidi deixar de ser o cara que não cozinha, para ser o cara que tenta fazer tudo do zero. Descobri que cozinhar era uma forma de espairecer, e pelo fato de levar tempo e cuidado, sua mente consegue esquecer certas coisas por horas.
- Caramba, Blake. Você é o meu homem dos sonhos. Pena que incesto não é aprovado pela lei. Uma pena.- Ela beija meu rosto e me abraça pela lateral do fogão.
- Você me assusta às vezes, juro. - ela ri - é difícil acreditar que tivemos a mesma criação durante a infância. Você saiu completamente pirada, irmãzinha.
- Faz parte do meu personagem. Você sabe, todo mundo diz que ruivas são malucas. Só quero fazer jus à isso. - ela se joga na banqueta da cozinha de frente pra mim - não vai perguntar como foi o passeio da sua sobrinha? - ela ergue uma só sobrancelha pra mim, claramente querendo colocar meu circo em chamas. Eu tentei evitar pensar no meu contato com Grace mais cedo. Talvez seja por isso que estou cozinhando duas pizzas, e mais cedo tenha feito panquecas e bolo de chocolate com calda amarga. Ver Grace me afetou de formas que eu não estava preparado. Como pode parecer que as coisas que sentimentos " estacionam" no tempo até você finalmente ficar de frente com a pessoa novamente? Quando eu a vi, a dúvida, a tensão, o medo e a angústia de estar em volta da aura de Grace novamente, vieram com tudo. Fui ríspido com ela, apesar de que não queria ter sido. Talvez estivesse entalado por esses meses todos e eu simplesmente cuspi pra fora. Ela parecia bem. Não que eu ache que ela não sofreu, pelo contrário. Tenho certeza que ela passou pelo seu segundo inferno de novo. Ao mesmo tempo que me sentia mal por ela ter ido, eu tentava entender. A culpa quase nos submergia. Mas eu também me preocupava. Queria saber como ela estava, se iria conseguir passar por isso. Tinha medo que ela não desse conta, e acreditava na remota possibilidade da minha presença fazer alguma diferença. Eu sabia que a presença dela na minha vida durante os últimos meses faria diferença. Muita. Talvez porque quando imaginava Grace me ajudando a passar pelo luto, vivenciando isso juntos, eu a imaginava como a Grace de um dia atrás da tragédia: Aquela pela qual eu mantinha sentimentos, mas não revelados. Aquela que era minha amiga e partilhava os dias comigo. Pensava e visualizava essa Grace ao meu lado, e nessa versão faria sentido estarmos juntos. Mas não era tão simples. Nós dois fizemos algo terrível que tento esconder numa caixa específica na minha cabeça por ser doloroso demais de refletir a respeito. Como pude fazer isso? Como pude cogitar essa possibilidade? Eu amava Evan como um irmão. A culpa me corroía demais certos dias, e nesses dias, eu agradecia por ela ter partido. Porque merecia o sofrimento, merecia a dor da sua partida. Mas na maioria dos dias, eu sentia a sua falta mais do que sentia culpa pelo que fizemos. Eu queria que ela tivesse tentado ficar. Por mais egoísta que isso soasse.
- Não. Tô tranquilo.
- Que bom que perguntou. - Eva pega uma maçã e morde. - Grace e ela passaram a tarde juntas. Grace fez um balanço digno de filme de princesa pra ela. Ela sabe impressionar todos os públicos não?
- Todos?
- Sim, homens, crianças, mães.
- Mães?- seguro o riso. - Que merda você tá falando?
- Hoje quando fui buscar Ava ela estava com um short jeans. Aí talvez você me pergunte: e daí? Bom, eu te respondo: Grace tem uma bunda que dá uma puta inveja também, o que ela faz? Malha? Sobe escadas o dia todo? Fez promessa?
- Não sei do que você está falando.
- Ah, sei. Uhum. Esqueci o quanto você é imaculado. Me desculpe pelo equívoco de achar que você já secou a bunda dela. Perdão mesmo. Vou lá ver se a outra fã número um da Grace não inundou o banheiro ainda.
Comemos pizza enquanto eu ouço mais quarenta minutos de Ava dizendo o quanto é legal passar a tarde com Grace, enquanto Eva segurava para não rir da minha cara. Aquilo parecia uma espécie de tortura totalmente direcionados a mim. Em alguns dias, imagina sua volta. Sempre imaginei que um dia ela voltaria, mas as vezes achava que demoraria muito mais. Eu tentava imaginar como eu lidaria com a sua volta, se isso me abalaria. Até ensaiei o que falaria. Nada saiu conforme eu imaginei. Eu tremi e transpirei como um porco quando eu vi seu Audi na minha porta.
Mais tarde, peguei meu notebook enquanto via tv, e abri meu Instagram.Conversei com Phoebe pelo Skype e fiquei cinco minutos olhando o nome de Grace online. Ela não tinha me bloqueado das redes sociais, ao que tudo me indica, somente das chamadas, mas me recusei a olhar suas postagens. Eva sempre comentava, sobre o que via ela postar, apesar de eu falar que não queria ouvir. Pelo que ela disse, Grace havia ficado os primeiros meses sem sequer entrar, mas depois ela encheu seu Facebook e Instagram de fotos por Londres. Checo se não há ninguém ao redor, e por ninguém quero dizer Eva. Se ela me visse stalkeando Grace, era um adeus pra minha paz mental nas próximas semanas. Entro no perfil e vejo que ela havia mudado a foto de antes. Agora era Grace com um sobretudo vermelho, seu cabelo solto e a mão esquerda tentando tirar alguns fios que voaram pro rosto. Ela olhava diretamente pra pessoa que estava tirando a foto e dava um sorriso genuíno. Tiro da foto. Desço pra baixo, nas últimas publicações. Porque ela precisava ter um sorriso tão bonito? Filha da mãe. Tem milhões de fotos dela com Arizona no London Eye, no Big Ben, na Tower Bridge e no Hyde Park. Arizona não era nada parecida com ela, tinha o cabelo ondulado e médio, os olhos azuis e o nariz um pouco maior. Em todas as fotos ela fazia careta. A irmã dela parecia ser uma pessoa incrivelmente engraçada e pirada ao mesmo tempo, pelo que ela me contava, ao menos. Quando estou quase fechando o Facebook, Eva me envia três fotos inbox. A primeira é uma foto de Ava no balanço, com as bochechas rosas de sol. A segunda é ela apontando pro balanço com a mão na cintura, e a terceira... é uma selfie dela e de Grace sorrindo. Em baixo Eva escreve : "Ela acabou de me mandar, fofa não? ;-)"
BLAKE: Quanto Grace está pagando para vocês duas fazerem tanta propaganda assim dela? Deve ser muito, porque só falta um avião escrever nas nuvens " fale com ela" no céu.
EVA: Nadinha, gosto da Hayes de graça. Boa noite.
BLAKE: pra que me mandou essas fotos? Você sabe que estou com Phoebe não é?
EVA: Você leu a mensagem dizendo q vou dormir? Zzzz Não estou forçando um casamento aqui, e sim para vocês fazerem as pazes. Obs: pensando bem, Phoebe não me dá a tarde de folga e definitivamente ela não deu um balanço pra minha filha, vamos pôr na balança e você vai ver q faz sentido.bj
BLAKE: Você é sem noção. Boa noite bj
Fecho o notebook, decidido a não ver mais coisas da sua vida em Londres. Antes de desligar, olhei por alguns minutos a foto de Grace com Ava. Seu sorriso era genuíno. Como eu sentia falta daquele sorriso.
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Questão de tempo
ChickLit" É preciso acreditar que depois das coisas ruins sempre vêm as coisas boas...ou pelo menos, deveria ser assim" Grace Hayes, 26 anos, uma perda, uma mente brilhante , noiva de Evan Jenkins e dona de um ego totalmente inabalável. Ethan Blake, 27 ano...
