Capítulo vinte e quatro

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- Blake, Ethan.

Eva me olha com um olhar de reprovação que me transporta diretamente à época em que minha mãe me dava bronca por notas abaixo de oitenta na escola.
- Não tô afim de sermão, Eva. - Grace tinha acabado de passar por ela. Tento fazer o mesmo e sair dali mas ela coloca a mão espalmada no peito não me permitindo sair.
- Você acha que vocês conseguiriam seguir com isso?
- Como assim?
- Tem um cara entre vocês. Evan já se foi mas parece que ele ainda está bem aqui. Vocês iriam conseguir passar por cima disso e seguir? Vocês vão conseguir entender que agora o que passou não importa mais e seguir em frente? - antes que eu responda, ela me interrompe.- se a resposta é não, se vocês têm certeza de que nunca vão se perdoar por isso, então parem de fazer isso um com o outro. Se você sabe que não vai conseguir olhar pra ela sem culpa, tire a sua cabeça dela.
- Esse diálogo é familiar.- É quase o mesmo discurso que ela me deu quando eu estava visivelmente atraído por ela.
- Se você e ela não conseguem entender que vocês ficarem juntos hoje não é um erro mais, não vale a pena vocês ficarem nesse joguinho de morde e assopra.
- Não estou jogando com ela.
- Ah, não? Vocês mal se falam quando estão rodeados de outras pessoas, mas vieram pro quarto conversar. Isso é normal na sua cabecinha?
- Ela veio até aqui.
- Você estava sentado do lado da sua namorada e parecia não conseguir parar de olhar pra ela, Blake. Tem alguma desculpa pra isso também?
- É fácil falar, Eva. - quando ela foi embora, demorei muito pra me acostumar a não tê-la por perto e agora, que já tinha me adaptado, preciso me acostumar novamente com a presença dela, sem ainda saber de fato o quanto isso me afeta de verdade. Será que nada mudou? Grace continua tendo o mesmo efeito em mim que tinha antes?
- Também acho que é fácil pra mim falar sem estar no seu lugar... mas Blake, eu não quero ver você mal de novo ou perder a amizade de Grace por causa de algo que vocês não conseguem lidar. Então por favor, se for Phoebe ou se for sei lá quem seja, entra de cabeça nisso e esqueça a Grace. Eu torço por vocês dois, mas não posso entrar na sua cabeça nem na dela pra mostrar que atualmente, vocês não precisam ficar carregando essa culpa toda nas costas. Já passou, meu irmãozinho. Na época ela era noiva dele, mas hoje ela é só uma mulher solteira e incrível que visivelmente ainda mexe com você.
- Não faz diferença.
- Não faz?
- Não. Não faz porque mesmo que Evan não
esteja aqui, nós dois não tivemos a chance de pedir perdão pelo que fizemos. Não há como nós dois brigarmos e resolvermos a situação. Sinto que o apunhalei pelas costas, e Grace também se sente assim. Sei que não há como pedir perdão pra ele, e isso quer dizer que não há como eu e Grace nós perdoamos pelo que fizemos. A culpa sempre vai existir, e não há como existir nada de bom no meio de tanto arrependimento.
- Entendido.- ela espalma a mão novamente com mais delicadeza.
- Eu amo você, Blake, e torço pra que você encontre sua felicidade.
- Também amo você, Eva. - beijo sua testa- e torço pra que você também encontre a sua segunda felicidade.
- Segunda?
- A primeira está fazendo aniversário hoje. - ela sorri sem dizer nada, porque sabemos que é a verdade.



Enquanto levava Phoebe em casa ela comentava sobre o jantar que minha mãe anunciou no fim da festa, segundo ela, minha mãe havia convidado Grace e Phoebe para jantarmos juntos algum dia dessa semana, e enquanto ela me explicava que meu amigo Harvey havia se autoconvidado no momento em que minha mãe a chamou, me permitia pensar pela última vez em Grace. Ela me abraçou. Simplesmente Grace me abraçou e eu não retribui. Não me arrendo disso, porque se eu cedesse à vontade de abraçar Grace e sentir seu corpo no meu novamente, seria um caminho sem volta pro meu processo de seguir em frente. Grace me abraçou porque viu o quão ruim eu estava quando subi, e se estivéssemos num mundo hipotético onde minha atração por ela fosse totalmente aceitável, se eu pudesse escolher um motivo para receber o abraço de Grace e sentir o calor da sua pele novamente, não seria por ela sentir pena de mim. Ela certamente estava com pena por eu ter despejado em cima dela o quanto sua ida me deixou sem chão e o quanto sua volta estava tirando o pouco de chão que eu já tinha conseguido firmar sob mim.
- Só não sei porque sua mãe chamou ela. - Phoebe diz, profundamente chateada- e sério, quais são as chances de eu e ela termos escolhido a mesma fantasia?!
- Respondendo a primeira pergunta, Grace é amiga de Eva e Ava passa um bom tempo com ela, então acho que é normal minha mãe se interessar por conhecê-la. Já a fantasia...- começo a rir- não faço a menor ideia. - Evito mentalizar Grace com aquela roupa na minha cabeça, porque aquilo era sinceramente demais pra mim.
- E aquele seu amigo? Completamente...
- Diferente?
- Exótico. Ele é diferente de tudo o que eu já vi. Ele é bonito, assumo, mas ao mesmo tempo me espanta por ser tão hiperativo, tão falante e tão... maluquinho. De onde você conhece ele?
- Nossa. Faz tempo. Harvey e eu estudamos juntos desde o fundamental, além do que, nossas mães eram amigas e vizinhas.
- Então sugiro que só você possa falar mal dele? - ela diz rindo.
- Ele é meio único, só isso. E não somos tão íntimos como eu era com Evan, só estamos há muitos anos na vida um do outro e parece natural. Nos esbarramos de vez em quando, principalmente porque ele é médico da Ava.
- Sua mãe me convidou pra jantar, dizendo que era pra gente se conhecer melhor já que ela voltaria em breve pra casa, e ele entrou na conversa perguntando o que ela faria de gostoso, e que se não tivesse bebida ele nem ia. Fiquei espantada, e quando olhei pra sua mãe, tão fina e elegante, esperava que ela fosse horrorizá-lo, falar que ele tem péssimos modos, mas aí... sua mãe só...riu. Fiquei totalmente sem entender, então acho que ela também goste dele.
- Não. Vai muito além de só gostar. Ela trata Harvey como um filho, e isso ficou ainda mais intenso depois que a mãe dele morreu. Minha mãe era muito ligada à Thereza, e quando ela se foi, ela entendeu que deveria se preocupar com ele da mesma forma que se preocupa comigo e com Eva, e têm sido assim desde então. Não importa o que Harvey fale, ela o adora com toda veemência possível.
- Nossa, ele não disse isso pra mim, sobre a mãe dele. Apesar de ter falado muito.
- Ava é paciente dele desde que nasceu, então nunca exponha seus pensamentos ruins sobre ele na mesa de jantar, minha mãe te mataria.
- Ele não é tão ruim assim.- ela tenta se explicar - acho que o que mais me irritou foi ele ter falado tanto dela.
- Dela?
- Grace. - ela diz quase suando com o esforço que fez para pronunciar o nome. -Ele só ficava falando o quanto Grace é bonita e que ele poderia facilmente se casar com ela. Que bobagem. - ela resmunga.
- Ele disse isso?
- Disse. Você está profundamente chateado com isso ou eu posso continuar?
- Phoebe.
- Tá. Vou parar.
- Não poderia me importar menos com o que Harvey faz ou deixa de fazer com ela.
- Continuando... Ele ainda me deu detalhes sórdidos do quanto gosta de meninas más e vemos claramente o quanto Grace gosta de pisar no pobre coitado. Você viu ele se ajoelhando no meio da festa? É meio patético.
- É. Também achei. - Não fazia ideia de que Harvey conhecia Grace, e apesar de não ter nada com isso, me surpreendi com ela aceitando a proposta dele. Ele era mulherengo demais, sempre foi,  me espantei porque além disso, Grace não parecia fazer o tipo de quem curte algo apenas casual como sempre foi o estilo dele, pelo menos não fazia o seu estilo até até ano retrasado. E então começo a pensar: Será que nesse tempo longe ela esteve com alguém?
- Acho que ela faz isso de propósito.
- Isso? Isso o que?
- Ela gosta de se fazer de durona, porquê afinal, quem não gosta de alguém inatingível, não é?- diante do meu silêncio, ela continua- Ela nem é tudo isso. Pelo menos é o que eu acho, ela é bem normal. - Phoebe parecia querer fazer ela mesma acreditar nisso.- Não é? Você não acha sua aparência bem normal?- Silêncio. Silêncio seguido de silêncio absoluto.- Blake? Estou falando com você.
- Não sei, Phoebe. Não me importo se ela é bonita ou não. - ela parecia decepcionada com a resposta,mas eu não iria mentir, Grace pode ser qualquer coisa, menos uma beleza comum.
Seguimos em silêncio após o assunto principal da noite, e quando estou quase virando em sua rua, ela me olha com olhos de criança querendo pedir doce no supermercado.
- Hoje você vai dormir aqui? - A voz de Eva veio na minha cabeça imediatamente. Invista em alguém. Seja lá quem for, invista nela e tire a sua cabeça de Grace.
- Sim. Vou ficar com você.- ela sorri, da forma mais contida possível.
É claro que eu meu corpo reagiria a Phoebe, mas no fundo eu sabia que isso não era o suficiente. Apesar de a vida toda ter transado sem compromisso e nunca me importar, minha cabeça mudou muito nos últimos anos, depois que conheci Georgia. Eu não pensei , nem muito menos estive com outras mulheres quando decidi namorar Georgia, porque eu sempre acreditei que isso era pra ser levado a sério. Quando eu ficava, era só por ficar mas quando eu aceitava ter um compromisso, eu vivia por ele. O desejo por outras pessoas até me veio no início do relacionamento, levou algum tempo até eu me acostumar em ficar tanto tempo com apenas uma pessoa, e mesmo que o desejo viesse, eu tinha a certeza de que não faria nenhuma sacanagem com ela. A mesma certeza que tenho de que não farei nenhuma sacanagem com Phoebe. Talvez a paixão venha com o tempo, ou é o que eu preciso acreditar. Subimos as escadas e Phoebe começou a me tocar antes mesmo que entrássemos no seu quarto.
Eu não conseguiria fazer aquilo.
- Não sei se consigo Phoebe, não estou muito me sentindo muito bem hoje. - ela não se importa. Continua me tocando da mesma forma, enquanto passávamos pela sua sala. - Phoebe.
- Não, Ethan. Por favor. - ela súplica e eu me sinto péssimo. - Eu preciso disso, está bem? Só...- ela coloca minhas duas mãos sobre seus seios. Meu corpo reage, até porque no sexo nosso corpo reage, mesmo que gostemos da pessoa à nossa frente só de forma amigável. Não importa, ele reage e certamente quando chegamos na cama, desejei Phoebe, mesmo que fosse só por aquele momento. Na primeira vez da noite fomos rápidos, com certo desespero. Na segunda, Phoebe foi atrás de mim enquanto eu tomava banho e fizemos lá de novo. Quando deitei na sua cama para vestir a roupa, ela me pediu que eu ficasse com ela e quando ela dormiu no meu peito, me senti mal como nunca me senti em todos os anos que transei sem sentimento algum. Me importei, porque das outras vezes era só sexo e não tinha ninguém na minha cabeça além da mulher da vez, mas hoje durante todo o tempo em que eu estive dentro de Phoebe, minha cabeça vagava em outra pessoa.



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- Com ou sem garçons? - é a primeira coisa me minha mãe me diz quando atendo o celular. Minha mãe havia confirmado com Grace, Phoebe, Harvey e minha família um almoço hoje à noite, para segundo ela, conhecer Grace e Phoebe melhor. Pensei no jantar desconfortável durante todo o dia, e agora que faltam apenas duas horas para acontecer, minha ansiedade me domina.
- Faltam apenas duas horas para o jantar, devo me preocupar?
- Filho, você acha mesmo que sua mãe não sabe preparar um jantar? As cozinheiras estão preparando os melhores pratos que você já viu desde às quatro da tarde. Só estou pensando se dispenso o serviço de garçom que havia requisitado ou se mantenho. Ficaria exagerado demais?
- Você disse "garçons" no plural ou ouvi errado?
- Só três, Ethan. Não quero  que ninguém se preocupe em se servir.
- Bom mãe, não acho que alguém realmente se importaria com isso, já que no mundo real nós mesmos nós servimos diariamente. - ela ri.
- Então apenas dois? Pode ser?
- Está melhor.
- Ok. Você acha que seria exagero se eu alugasse uma fonte de fondue para por no centro da mesa?
- Mãe.
- O que foi?!
- Não precisa preparar um jantar pra rainha, sabia?
- Ok, ok. Você tem razão. Até porque menos é mais, estou sabendo.
- Vai ser ótimo está bem? Você sempre foi uma perfeita anfitriã.
- Eu sei! Só não sei o porquê de eu ficar  sempre tão agitada. Vou desligar, preciso ver se o tapete novo já foi colocado.
- Você não para, não é?
- É inevitável! - ela desliga o celular e eu volto meu trajeto pra casa, pensando no quão desconfortável o jantar de hoje à noite seria. Numa escala de dez a zero? Talvez onze.

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