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Christopher

A coletiva de Dulce começou muito bem, eu não parava de sorrir e sentir orgulho da minha garota. E foi aí que ela chegou ao final e revelou algo sobre si mesma que eu não fazia ideia. Ela havia sido abusada sexualmente pelo seu tio e só agora teve coragem de falar abertamente sobre isso. Senti como se meu mundo ruísse com essa informação.

Eu assistia a tudo com Christian em meu apartamento e assim que a coletiva terminou, meu rosto estava encharcado de lágrimas. Christian mantinha um olhar distante e inexpressivo. Ele levantou do sofá, caminhou até a varanda, apoiou seu único braço bom na grade e olhou para o horizonte em completo silêncio.

Enviei uma mensagem para Dulce pedindo para falar com ela depois. Tudo bem que agora ela parecia ter superado, mas eu ainda assim estava preocupado. A minha vontade era de pega-la no colo e criar uma bolha em volta de nós para que ninguém mais a machucasse.

Depois de chorar o suficiente, enxuguei meu rosto e fui até a varanda. Toquei o ombro de Christian e ele me olhou de forma sutil. Parecia desolado.

— A minha mãe nunca quis que eu procurasse o meu pai. — falou. — Ela nunca me disse exatamente o porquê, só que eu pudesse me decepcionar. Imaginei que meu pai pudesse ser um bêbado, ou um vagabundo qualquer, sei lá... seria melhor que saber que ele era um estuprador. — ele soluçou e sua voz ficou embargada. — Sei que eu não tenho culpa nenhuma disso, mas ainda me sinto como se tivesse. Eu vim daquele homem, Christopher. Os genes dele estão em mim!

— Se tem uma coisa que eu aprendi com a Dulce foi que ter o mesmo sangue de alguém não te torna parte daquela pessoa. Você decide o legado que quer deixar no mundo.

— A Dulce é tão forte. Não sei como ela conseguiu lidar com o filho da pessoa que a machucou. Imagino como ela deve ter se apavorado quando eu entrei em contato.

— Sim, foi bem difícil pra ela, mas ela te deu uma chance e não se arrependeu disso.

— A admiro ainda mais por isso. Eu quero poder estar aqui por ela, apoiá-la como ninguém da nossa família fez.

— É muito bom que esteja aqui. E lembre-se, nós não somos nossos pais. — ele assentiu.

Dulce não respondeu a minha mensagem e isso me deixou um pouco aflito. Ela disse que continuaria entrando em contato, mas e se tivesse mudado de ideia? E se aceitou não confiar em mim? Não parei de pensar nisso o dia inteiro.

A ideia de pegar um avião para Washington passava em minha mente a cada instante. Era tortura ficar longe dela depois do que eu ouvi na coletiva.

Já era noite, Anahi e Alfonso me chamaram para jantar e eu estava prestes a sair quando meu celular tocou. Sorri de imediato ao ver o nome de Dulce na tela.

— Ei! — falei ao atender.

Oi, desculpe não ter respondido, o dia foi bem cheio.

Não tem problema. É bom ouvir a sua voz.

É bom ouvir a sua voz também.

O que fez de interessante hoje? — eu poderia tocar no assunto difícil, mas não agora. Queria criar um clima mais confortável antes.

Discutimos sobre os modelos que iremos contratar, o tipo de pessoa que queremos em cada parte específica do projeto. Digamos que hoje cuidamos apenas da imagem humana. — riu de leve e sua risada me soou como uma boa música. — Acabei de chegar da minha sessão de terapia com o novo psicólogo.

Mesmo? E o que achou dele?

Tão bom quanto o outro. O melhor de tudo é que ele não trocou os meus medicamentos, apenas me pediu para procurar uma nutricionista porque eu ainda não me alimento com frequência. Não é de propósito, é como um bloqueio mental.

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