Capítulo 23 - Pedro

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Vocês, mulheres, adoram reclamar quando o homem simplesmente vira de lado e dorme na cama.

Pois eu vou dizer que a Manuela fez exatamente isso.

Sem tirar nem por.

Virou de lado e desmaiou feito um cadáver, não disse nem tchau.

Como aquele mesmo ronquinho de pug constipado. A. Noite. Toda.

Já eu não tive a mesma facilidade.

Algo esquisito me consumia por dentro.

Depois de muito me revirar na cama, me cansei de dividir o espaço com uma morta roncante e fui até a cozinha. A chuva tinha parado e as luzes da cidade invadiam o espaço pela janela, iluminando o teto com vultos fantasmagóricos de luz. Resisti o quanto pude à garrafa de whisky encostada no aparador, mas no final me rendi a um gole, que desceu queimando pela garganta, junto com a angústia que teimava em voltar, como num refluxo desagradável.

Eu não estava mentindo pra ela. Estava?

Não interessa. Não era importante. Não era como se a gente fosse ter algo sério afinal.

Continuei bebericando alguns goles e me perdendo no tempo, mas o sono não veio. Tentei ver TV, mas estava passando alguma maratona de Harry Potter dublado, que definitivamente não me interessou. Tentei me distrair com meus livros, mas sinceramente a última coisa que a gente quer durante a madrugada é se distrair com as regras dos regimes de matrimônio. Ou as querelas do STJ sobre concubinato e união estável simultânea. Nem Pontes de Miranda conseguiu me animar nesse momento.

Fiquei rondando a sala na madrugada feito um animal enjaulado. Eventualmente vesti um jeans e camiseta esquecidos dentro da secadora e me sentei no sofá, um copo de whisky em uma mão e o celular em outra.

Vi o sol despontar e nascer pela janela, e vi o rastro de luz se alastrar rapidamente pelo teto de gesso do apartamento.

Por fim voltei ao quarto quando a luz da manhã já estava alta, e o calor começava a atrapalhar os pensamentos.

Ela tinha parado de roncar e dormia tranquila bem no meio da cama, sem um problema no mundo. Um misto de emoções antigas e requentadas me invadiu, emoções que eu tinha trancafiado há muito tempo e não deixava que me subissem à superfície em hipótese alguma.

Sua pele sem maquiagem tinha um ar mais jovial, de menina perdida.

Tive que refrear meus pensamentos quando percebi que seus olhinhos castanhos e confusos me encaravam.

A beleza sutil daqueles olhos varreu do meu corpo todas as angústias que me vararam durante a madrugada, assim como num passe de mágica. Ela vestia uma das minhas camisetas pretas, que provavelmente ela tinha roubado durante a noite, e nada mais.

- Por que diabos você está me encarando assim, capeta!? Quer me matar por acaso?

- Nossa princesa, bom dia. Seu humor é assim radiante todos os dias de manhã?

- Só quando um psicokiller fico me encarando enquanto eu durmo. Normalmente eu sou uma pessoa extremamente amável e agradável pela manhã. Na verdade, em todos os momentos do dia.

- Por algum motivo eu acho isso extremamente difícil de acreditar.

Foi a última coisa que eu consegui dizer antes que um travesseiro passasse voando pelo quarto e me atingisse bem no meio do rosto, num golpe mortal.

Madura e elegante, como de costume.

- Ah, mas você vai ver só.

Escalei a cama com o travesseiro na mão, pronto para ensinar para a pequena meliante com quem ela não deve brincar.

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