Uma mulher traída precisa voltar para a fazenda do pai para não desmoronar. Ela só não imaginava que era por lá mesmo que ela ia encontrar exatamente o advogado de divórcio que estava precisando.
Estávamos nos aproximando cada vez mais da fazenda, mesmo com Paula dirigindo a alucinantes 16 km/h.
- Ué! Eu não lembro dele aqui na fazenda não. Na época tínhamos perdido a mamãe, você quer mesmo que eu lembre de todo mundo que morava aqui na fazenda!?
Era mentira. Eu lembrei. Mais de dez anos depois, eu lembrei daqueles braços firmes me abraçando no dia mais tempestuoso da minha vida. Era verdade que não me lembrava de seus olhos, ou de sua voz, ou das formas do seu corpo. Mas lembrava claramente da força de sua presença.
Paula me olhou de rabo de olho, detectando o tom trêmulo que eu tentava esconder na voz.
- Bom, se você não se lembra mesmo dele, qual o problema?
- Meu Deus do céu Paula, eu sei que você não é estúpida. Ele escondeu de mim que me conhecia!!
Paula continuou dirigindo em silêncio, muito concentrada na estrada, já que o sol já começava a se esconder no horizonte.
- Manu, seja sincera. Você está com raiva por que pelo jeito ele te escondeu uma verdade que você já sabia, ou simplesmente por que ele era na verdade filho do empregados da fazenda?
O ultraje me cobriu como uma enorme onda Tsunami atingindo uma praia deserta. Abri a boca em choque, sem conseguir pensar em absolutamente nada inteligente para dizer.
- Manu, vamos combinar. Você se importa com esse tipo de coisa...
Eu fui incapaz de manter a conversa, e me virei para o lado da janela, em silêncio, numa atitude excepcionalmente madura na minha opinião.
Era óbvio que ela estava errada. O fato dele ser filho de empregados da fazenda em absolutamente nada me afetava.
O fato dele ter deliberadamente escondido isso de mim, isso sim, de fato me afetava.
Será que ele achava que eu me importaria...?
Passamos alguns bons minutos em silêncio mortal.
Paula era uma pessoa bastante difícil de conversar.
Basicamente por que às vezes ela bancava verdadeiros ares de mãe.
Mas não mãe legal, carinhosa, mãe que elogia seu cabelo e sempre acha que você é a mais bonita da festa.
Mãe chata mesmo.
Senti o carro parar sob a proteção do alfeneiro centenário, que ficava a poucos metros da parte lateral da casa. O cheiro de lar me invadiu, mas eu me mantive imóvel.
- Manu, eu vou ser sincera, porque eu acho que já é tempo de você ouvir certas coisas. Eu passei uma boa parte da adolescência vendo o Pedro te idolatrar. Ele provavelmente nunca vai admitir, porque tem a cabeça ainda mais dura que a sua. Mas eu vi ele te acompanhar com o olhar, por um longo tempo. E eu nunca falei nada, porque eu sabia que provavelmente era um sentimento impossível de ser retribuído. Eu sabia que você era tão distraída que não tinha nem olhado duas vezes para ele. Você aspirava coisas que ele nunca poderia te dar. E agora você o encontrou num contexto completamente distinto, advogado em vestido e requintado, e acabou se envolvendo.
Me virei indignada. Quem ela pensa que é para falar comigo assim!?
- Você está enganada. Eu não poderia me importar menos com as origens dele, ou com a quantidade de dinheiro dele. Eu apenas me senti enganada. Você acha que ele fez certo em me esconder que me conhecia?
- Conhecendo ele como eu o conheço, eu acho que ele estava com medo de você fazer exatamente o que você acabou fazendo...
Medo!? Aquele homem de praticamente dois metros? Cuja mão tinha o tamanho de um prato de self service?? Com medo!?
Me poupe se poupe nos poupe.
-Paula, já chega. Ele mentiu pra mim, João Guilherme mentiu pra mim, ambos homens imbecis, e eu não caio nesse papinho que o menino gostava de mim quando eu era uma adolescente horrorosa. Pelo amor de Deus né. Meus dentes da frente eram separados, e mamãe cortava franja curta em mim. Não tem nem como.
- Manuela meu deus, quase trinta anos na cara e tão imatura...
A onda de ódio que me atingiu foi sem precedentes.
- VOCÊ NÃO É A MAMÃE!!!!!!!
O berro voou da minha boca em decibéis dolorosos, ferindo minha garganta e o céu da boca. O grito ecoou pelo horizonte, deixando para trás um silêncio desagradável. Me virei e fui para o meu quarto, incapaz de conversar sobre qualquer coisa com mais ninguém.
Lá estava eu novamente, enrolada em uma bola, dormindo em posição fetal na minha antiga cama.
A que tinha meu antigo cobertor. E o velho cheirinho de infância.
Malu tinha me enchido de pão, queijo, mel, bolo. E eu fora completamente incapaz de olhar direito para ela por todo o tempo.
Tinha algo errado nessa situação toda.
A madrugada gélida lá fora uivava baixinho, com vento sorrateiro se esgueirando pelas dobradiças da janela. Apesar da hora avançada, eu estava completamente incapaz de dormir.
Rolando para um lado, rolando para o outro. Me rendi à insônia e coloquei Orgulho e Preconceito para rodar na velha TV do console.
Orgulho e Preconceito era meu confort movie das horas difíceis.
Por que eu não podia ter um Mr. Darcy em minha vida, Deus? Tudo seria tão mais fácil.
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O sol já começava a nascer lá no horizonte, além dos campos de café, quando o filme chegou no espetacular finalzinho, com Mr. Darcy andando ao nascer do sol em direção à Lizzie Bennet. Eu já estava limpando delicadamente as lágrimas que escorriam silenciosamente (eu chorava literalmente toda vez que assistia esse filme), quando um barulho alto rompeu a quietude do alvorecer dourado lá fora.
Um ronco poderoso veio aumentando, vindo da direção dos portões, junto ao barulho angustiante de cascalho sendo triturado por alguma máquina faminta.
Da escuridão das aleias ainda não completamente iluminadas pelo alvorecer surgiu uma enorme motocicleta preta, os rebites prateados mimetizando a cor amanteigada do amanhecer, habilmente conduzida por uma figura alta e imponente, todo vestido em couro, o capacete metálico refletindo o sol como uma lâmina perigosa.
A figura estacionou suntuosa diante da escadaria da porta de entrada, os faróis potentes ainda ligados iluminando o cascalho da entrada, rolos de vapor escapando do metal ainda fervente, retirando o capacete num gesto dramático.
Puta que pariu.
A mãe ta on e roteandoooooo! Será que agora esse romance engata? cenas dos próximos capítulossssss