Ah meu deus.
Eu não sei se alguma de vocês já teve o descomunal desprazer de encontrar seu ex marido fedendo a cachaça barata soluçando na sua porta.
Eu já aviso que é bem pior do que parece.
- João Guilherme!
Meu grito saiu sem qualquer controle consciente das minhas cordas vocais. Pelo contrário. O susto me tomou como um mal súbito. Senti a cabeça leve e a visão desfocada. Ao mesmo tempo, João Guilherme sofria uma dificuldade imensa para se levantar do chão e se equilibrar sobre suas pernas bambas.
- Maruélla...
Sua voz soava arrastada e pegajosa, como se espera de uma pessoa profundamente embriagada. Por fim, após um esforço sobre humano, ele conseguiu se colocar de pé, apoiando-se pesadamente na parede descascada do meu hall de entrada.
Era uma parede triste e descascada cor de amarelo canário, agora manchada com as mãos engorduradas do meu ex marido bêbado.
Eu apenas conseguia observar paralisada, como que amordaçada fortemente dentro de uma cena de filme de terror. Eu não conseguia me mexer, respirar, raciocinar ou agir. Eu só conseguia observar enquanto ele tentava pateticamente soltar do apoio da parede e cruzar o espaço vazio do corredor que nos separava.
Seria cômico se não fosse trágico. Ele estava em roupas que em algum lugar distante do passado foram elegantes, mas que agora estavam completamente amassadas e amarrotadas, em alguns pontos rasgadas e com sinais de vômito.
Era como se ele tivesse praticado luta livre com o Mike Tyson numa enorme poça de lama.
E depois bebido o equivalente ao rio tietê em cachaça barata.
Não era exatamente uma visão agradável.
- O que diabos você esta fazendo aqui, Joao Guilherme!?
As palavras foram cuspidas da boca de Pedro exatamente como um rosnado de rotwailler. Ele na verdade parecia prestes a arrancar a jugular do meu ex marido a dentadas.
Joao Guilherme levantou sua cabeça para nossa direção, e eu pude jurar que vi um sorriso. Não um sorriso de uma pessoa completamente intoxicada por litros de álcool, mas o sorriso de um enxadrista visualizando um cheque mate.
Mas pode ter sido só impressão, porque no momento seguinte, ele se curvou sobre o próprio corpo e vomitou espetacularmente sobre o meu capacho.
Eca.
O cheiro podre de chorume subiu feito uma nuvem tóxica, me atingindo na face.
Que sensação incrível. Que visão maravilhosa, uma mancha verde e gosmenta no meu capacho.
João Guilherme se endireitou novamente, caminhando ligeiramente mais coeso em nossa direção. Mas ainda assim sua marcha estava completamente comprometida.
- Não se aproxime mais nenhum centímetro, seu palerma.
Dessa vez, Pedro estava realmente prestes a avançar nele, feito um galo de briga. Ele posicionou seu corpo enorme no meio do corredor, me separando fisicamente do meu ex marido.
Mas eu ainda era perfeitamente capaz de sentir o cheiro de álcool emanando do meu pobre ex marido beberrão.
Engraçado. O João Guilherme não era muito de beber. Na verdade, eu bebia muito mais do que ele.
- Ora Pxedro, não adjianta exxconder a Mariela de mim. Maruela! Eu fim falar com focê!
Joao Guilherme chegou perto o suficiente de Pedro para encostar seu dedo fino no peitoral enorme do meu advogado.
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Café com Leite
RomantikUma mulher traída precisa voltar para a fazenda do pai para não desmoronar. Ela só não imaginava que era por lá mesmo que ela ia encontrar exatamente o advogado de divórcio que estava precisando.
