Capítulo 30 - Manuela

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-Shhhh! Silêncio! Advogados por favor, conduzam as partes aos devidos lugares.

A juíza estava meio da pá virada. Sabe puta da vida? Aqueles dias que você acorda homicida? Sem muita vontade de manter seu réu primário?

Poisé.

Ela me olhou nos olhos por detrás de seus óculos de grau sem armação, que me lembravam ligeiramente os óculos de meia lua do professor Dumbledore.

- Senhora Manuela, gostaria de lembrá-la que não admitimos nenhuma violência física nas dependências dessa vara de família. Se a senhora tornar a agredir alguém eu pessoalmente vou me certificar que a senhora vai dormir no chão sujo de uma cela de penitenciária. Estamos entendidas?

Assenti silenciosamente. A mulher estava com sangue nos olhos.

- E o senhor, senhor João Guilherme. Caso o senhor faça alguma provocação indevida na parte contrária, pagará uma multa tao alta que não vai sobrar dinheiro nenhum da sua metade da partilha. Estamos conversados?

João Guilherme também se limitou a assentir, calado e educado feito um poodle adestrado.

Me sentei no meu lugar na mesa, à direita do meu douto advogado e diretamente em frente ao meu querido ex marido.

Na distância exata de uma cuspida.

Não se enganem, eu não esqueci que meu querido advogado estava escondendo alguma treta de mim. Ah mas eu não tinha esquecido mesmo.

Porém, algo muito brilhante nos olhinhos pequenos do Joao Guilherme me dizia que eu estava prestes a ficar bem estressada até o final da audiência.

- Muito bem, Senhora Manuela e Senhor João Guilherme. Vamos iniciar essa audiência de divórcio e partilha. De forma civilizada, por favor.

Civilizadamente, iniciou-se uma chatíssima discussão jurídica sobre os termos do divórcio. Assinamos com alegria a certidão que me fazia novamente uma mulher solteira e livre, um passarinho livre para voar.

Mal sabia eu que começava agora a parte complexa:

A partilha de bens.

- Bom, a minha cliente obviamente não vai aceitar esses termos, dra. Verônica. Ainda mais considerando-se que, na situação, minha cliente foi explicitamente traída pelo seu cliente em sua própria casa. Com um amigo seu.

Ex amigo né.

- Precisamos lembrar da considerável soma de dinheiro que foi desviada para o salão do amante do senhor João Guilherme. Isso obviamente precisa ser levado em consideração, a menos que vocês queiram que isso chegue aos ouvidos da polícia.

- Dr. Pedro, gostaria de lembrá-lo que o senhor não tem nenhuma prova concreta dessa afirmação. Gostaria que o senhor parasse de caluniar meu cliente. É um hábito muito desagradável seu.

Ela bebeu um gole de café, olhando para ele por cima da borda da xícara com seus cintilantes olhos esverdeados, numa clara provocação. Vi um músculo tremer assustadoramente bem na base da testa do meu douto advogado.

- Não temos provas contundentes, é verdade, mas indícios bastante reveladores de dinheiro desviado. Adoraria que o delegado me ajudasse a desvendar o destino desse dinheiro. Tenho certeza de que ele teria acesso a uma boa análise patrimonial, e quem sabe alguma coisa de sonegação fiscal. Eu ficaria meramente curioso em descobrir.

Veronica se entreolhou com seu cliente. Eles pareciam preparados para essa abordagem.

- Meu cliente está disposto a renunciar de sua parte no apartamento.

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