Eu poderia falar que o me acordou foi a dor de cabeça da ressaca.
Ou o barulho da obra no vizinho.
Mas, se a questão é ser absolutamente sincera, o que me acordou mesmo foi a fome.
Juro. Eu comeria um Cheddar McMelt inteirinho agora, mesmo que tivesse acabado de acordar. E ainda ia pedir uma coca grande para acompanhar.
Então eu me levantei meio zonza, sem muito cuidado em lembrar da noite anterior que ainda estava meio nebulosa. Eu ia tomar um banho no banheiro da minha suíte de hotel, engolir aquele lindo café da manhã incluído na minha diária e tudo ia ficar bem.
Engraçado. A suíte estava meio diferente. Menor do que eu lembrava. E eu tinha certeza que tinha deixado a mala no pé da cama, e ela não estava em lugar nenhum a vista.
Acendi a luz. Definitivamente aquele não era meu quarto de hotel.
Abri o que parecia ser a porta do banheiro, em busca de pistas de onde diabos eu estava. A visão que eu tive me fez dar um grito de absoluto horror e pânico.
O espelho.
Me encarava de volta uma criatura pavorosa, vestida em andrajos de mendigo, maquiagem espalhada pela cara toda feito um quadro surrealista do Dali, o cabelo parecendo uma cacatua pós choque elétrico. Nem Voldemort em pessoa seria mais assustador.
Seguindo meu grito de absoluto desgosto, a porta do quarto se abriu, deixando entrar a ultima pessoa que eu desejava ver nesse momento de desgosto.
Meu advogado de divórcio.
Correção: meu advogado de divórcio sem camisa.
- Está tudo bem? Por que diabos você esta gritando a essa hora?
A principio, as palavras dele não fizeram muito sentido. Eu estava ligeiramente distraída com aquela barriga trincada logo de manhã.
- O que é que você está fazendo aqui!?
- Então princesa, eu moro aqui. No caso, você que está invadindo.
De repente, tudo fez sentido.
Então, algo mais poderoso que a fome me atingiu.
Ressaca moral. Vergonha alheia-própria.
A noite anterior invadiu minha cabeça com um realismo medonho, cenas que eu achava que tinha apenas sonhado. Não. Pelo jeito eu dei vexame num jantar profissional. Eu lembrava com relativa clareza, até o momento que eu tinha apagado no carro.
O fundo do poço estava afundando pelo jeito.
- Ai meu deus...
- Está finalmente lembrando da noite passada? Fica tranquila, não fizemos nada que você não queria.
Lancei para ele uma expressão de ódio.
- VOCE NÃO OUSARIA TOCAR EM MIM!
- Como você acha que você trocou de roupa? A fada madrinha por acaso?
Olhei para baixo, para os meus trajes claramente masculinos e de um tamanho absurdo. De fato, aquelas não eram as roupas que saíram comigo de casa mais cedo naquele dia. Eu nao era nem louca de sair daquele jeito em público.
Então fui lentamente tendo flashes da noite passada. Não, definitivamente não fora a fada madrinha que tinha trocado minha roupa.
Virei de costas e entrei correndo no banheiro, apenas escutando a risada ruidosa dele. Que ódio.
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Café com Leite
RomanceUma mulher traída precisa voltar para a fazenda do pai para não desmoronar. Ela só não imaginava que era por lá mesmo que ela ia encontrar exatamente o advogado de divórcio que estava precisando.
