Capítulo 11 - Manuela

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Ninguém sabe o que se passa na cabeça de uma mulher com insônia.

Spoiler: é só merda.

Eu me sentia sozinha naquele enorme quarto de hotel. Não tinha uma cozinha para fazer um miojo de madrugada. Deus sabe que as vezes tudo que uma mulher adulta precisa é de um miojo de madrugada.

Não tinha o João Guilherme com pijama de seda roncando do meu lado. Não que eu estivesse sentindo falta dele. Mas eu sentia falta da companhia. E da previsibilidade.

Duas coisas que eu não tinha num quarto de hotel, por mais luxuoso que ele fosse.

Tinha até uma daquelas banheiras vitorianas com pata de leão, colocada estrategicamente embaixo da janela. Mas, sinceramente, isso não tinha a menor graça.

La forma, pela madrugada, São Paulo parecia gigante e ameaçadora. Caia uma garoa fininha. Eu me sentia uma garotinha aterrorizada presa no quarto. A diferença é que eu não podia mais correr para o quarto da mamãe e papai.

Falando em papai, ele não tinha ficado muito feliz com a minha escolha de advogado, já que ele nunca tinha ouvido falar do escritório. Mas eu pedi um voto de confiança para lidar com as coisas. Ele só deu um rosnado não identificado e desligou o telefone.

Levantei da cama e fiquei dando voltas no quarto, angustiada. Olhei para meu celular carregando em paz num canto da parede. Pensei se não seria uma boa ideia mandar mensagens de madrugada. Acordar a Paula talvez? Infernizar meu advogado? Dar umas xingadas no ex marido?

Alguma coisa no fundo do meu pensamento me convenceu a deixar meu celular quieto. Talvez tenha sido Deus intercedendo. Ou talvez eu estivesse começando a cultivar alguns brotinhos precoces de vergonha na cara.

Sentei então na mesinha onde eu tinha deixado o laptop e fiquei encarando o e-mail aberto do Pedro (desculpa, doutor Pedro) com a lista de documentos que eu tinha que providenciar para entrar com a petição inicial do divórcio litigioso.

Era tudo muito chato. Eu ia ter que achar a escritura do apartamento, que eu tinha comprado com a ajuda do meu pai na época. Obviamente ele não entrava na partilha.

Eu espero né.

Eu ia ter que ir no cartório.

Eu nunca tinha ido num cartório sozinha. Era tipo um rito de passagem da vida adulta. Se você já foi num cartório sozinho, meus parabéns, você pode se considerar um adulto funcional. Eu infelizmente ainda não era.

Sinceramente não tínhamos adquiridos muitos bens durante o casamento. Joao Guilherme já trabalhava num escritório de família, famoso em São Paulo pelos projetos arquitetônicos. Que eu me lembre ele já tinha uma parte da empresa quando casamos. Tentei lembrar de mais alguma coisa relevante. Mas eu só conseguia pensar no quanto meu casamento era patético. Que planos fazíamos? Nada. Queríamos filhos? Não sei, talvez, não era um assunto muito recorrente. Viagens? Sim, viajamos juntos de vez em quando, mas muito mais sozinhos. Nos apoiávamos? Sinceramente, acho que não. Ele não sabia que eu gostava de escrever por exemplo. Eu não sabia muito bem do que ele gostava também.

Além de homens. Hoje eu sabia que, assim como eu, ele definitivamente gostava de homens.

Por que diabos a gente tinha se casado ein!?

Eu tinha 22 anos. Por que que eu tinha inventado essa asneira? Sério, casamento é bem mais do que comprar um vestido bonito e encher a cara numa festona.

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